Educar é “preparar os filhos para serem livres”

Atualidade da missão de São José para Nuno Rivera Ferreira e Maria Luisa 

Para celebrar os 150 anos da proclamação de São José como Padroeiro da Igreja Católica, o Papa Francisco convocou um especial “Ano de São José” com a Carta Apostólica “Patris Corde – Com o coração de Pai”. Esta carta tem acompanhado as comunidades e as famílias cristãs ao longo do ano, especialmente neste mês de março. 

O Jornal da Madeira convidou o casal diretor do Secretariado da Família da Diocese do Funchal, Maria Luísa e Nuno Rivera Ferreira, a partilhar a sua reflexão sobre a carta do Papa sobre São José. 

Como leram esta carta do Papa Francisco sobre São José?

Nuno Rivera – Esta carta chama-nos a atenção para uma característica muito importante, pelo menos para mim, de São José. Ele, à semelhança de Maria, curiosamente, acaba por aceitar a sua condição de pai adotivo de Jesus de uma forma bastante discreta. Foi poucas vezes referido nas escrituras e o papel que lhe é dado de maior relevância nas escrituras é o papel de educador. Essa é fundamentalmente a grande mensagem que o Papa Francisco nos transmite nessa mensagem de abertura do ano dedicado a São José.

Maria Luísa – Admiro muito São José, na sua parte de humildade e de aceitar ter sido escolhido para ser o pai de Jesus e o esposo de Maria, e reparei na parte em que ele aceita que o anjo comande a vida dele. O anjo diz-lhe “vais ser o pai”, e ele aceitou. Tudo aquilo que foi dito ele aceitou e dá-nos uma imagem de obediência e de uma pessoa que aceita aquilo que o Senhor pretende dele. Sem questionar o que quer que seja. Outro elemento é o acolhimento. Acolher Maria. Também é um exemplo que nos ajuda muito enquanto pais. É um testemunho valiosíssimo, porque acolheu Jesus e Maria e os guardou, por causa de Herodes, e perceber que era ele quem tinha que cuidá-los. Sempre com uma aceitação muito grande. O Papa Francisco chama a atenção que São José, certamente, teve que se preocupar em ter de trabalhar para os alimentar, arranjar a casa. Coisas do nosso dia a dia também. 

Maria Luísa e Nuno Rivera | Foto: G.A.

Pedras Vivas 21 de março de 2021 (A4)

Pedras Vivas 21 de março de 2021 (A3)

Quaresma com São Tiago – Semana V (A5)

Há pouco falamos de São José como educador, para vocês o que é educar?

Nuno Rivera – Educar, para mim, sempre passou muito por preparar os filhos para serem livres. Os filhos não são nossos de maneira nenhuma. Reconhecendo que os filhos que nós temos e trazemos a este mundo, não são para nós manipularmos, mas são para nós acompanharmos, para os fazermos crescer, para os fortalecer, para eles serem eles próprios. Nós nunca tivemos qualquer pretensão sequer de condicioná-los para isto, condicioná-los para aquilo. É naquilo que eles se sentirem que eles vão crescer. Umas vezes, vão se sentir bem, outras vezes vão se sentir mal, mas é nisso que eles vão crescer e é assim que se vão fortalecendo. Temos quatro filhos, um rapaz e três raparigas, e qualquer um deles, por aquilo que nos é dado perceber, está a fazer caminho com felicidade. 

Maria Luísa – Eu costumo dizer que nós agimos de maneira a tentar que eles não batam com a cabeça na parede. Tentamos tirar as paredes da frente, mas há vezes em que é impossível. Como é evidente, tivemos algumas situações de conflito com os filhos, como é normal, adolescentes que foram e que tinham a sua maneira de pensar e nós também tínhamos as nossas. Muitas vezes tivemos situações em que nós achávamos que nós é que tínhamos razão e que as coisas tinham que ser feitas de determinada maneira. Algumas vezes conseguimos levar a nossa avante, outras, não. Alguma coisa lá ficou.

Qual é o lugar da espiritualidade e o papel da fé na vossa vida familiar? 

Nuno Rivera – O mais possível. Qualquer um de nós foi educado em vivências cristãs, ainda que com experiências um bocado diferentes. No meu caso particular, sempre fui muito de ir à procura do porquê das coisas e, graças a Deus, tive os pais que tive e que me ajudaram nesse sentido. Aliás, eu brincava muito, nomeadamente com a minha mãe, porque dizia: “venho aqui fazer de cardeal diabo”, que era um termo que usávamos em casa, e ela já percebia que ia fazer perguntas. Depois, praticamente desde que casámos, entramos inicialmente para as equipas de casais de Santa Maria no Continente. Quando viemos para a Madeira, viemos à procura do mesmo movimento. Não havia, mas havia as equipas de Nossa Senhora. Isso tem-nos ajudado imenso no crescimento da espiritualidade, nomeadamente da espiritualidade conjugal, que para nós é extremamente importante. É engraçado que os nossos filhos olham para a nossa equipa já como fazendo parte da família, o que para nós é uma alegria muito grande. Acredito que cada um está a fazer a sua caminhada, faz parte também da sua vivência, porque nós hoje em dia, infelizmente, somos confrontados com certos e determinados desafios, para os quais eventualmente não conseguimos ter todas as respostas. Mas também não deixa de ser verdade que a semente está lá e de alguma maneira eles vão encontrando as suas repostas. Alguma coisa tem que estar ali para eles irem connosco e para nos acompanharem, e mais, para nos perceberem nas nossas missões, nas nossas intervenções, nas nossas ausências. 

Maria Luísa – As equipas nos ensinaram muita coisa e nos fizeram crescer a nível espiritual. Uma das coisas que nós fazemos neste momento, agora que estamos os dois sozinhos, porque já não temos nenhum dos filhos em casa, é rezar às refeições. O que é engraçado, aqui ou quando vamos ao Continente, é ver que isso pegou-se pelo resto da família. Agora temos cá o meu pai e ele também já sabe que nós antes das refeições fazemos sempre uma pequenina oração. Eu acho que são pequeninas coisas que vão nos ajudando a nós e aos outros. Agora tenho uma plataforma onde eu rezo o terço todos os dias com um grupo que se criou na pandemia e o meu pai está ao lado e também reza. No outro dia ele dizia com piada “Há muitos anos que não rezava o terço”, dizia ele aos 93 anos porque, entretanto, a minha mãe morreu e ele ficou sozinho.

Nuno Rivera – O facto de termos sido desafiados para o Secretariado Diocesano da Família e termos assumido serviços nas equipas com alguma responsabilidade também faz com que nós, de alguma forma, sejamos mais desabridos na manifestação da nossa fé. Ou seja, podemos dizer que nós aqui há 15 anos, ou há 20 anos, éramos capazes de ter algum recato para não querer incomodar e hoje em dia, incomode ou não incomode, somos assim e é assim que nós somos. Nós nunca deixámos de ir onde precisávamos porque tínhamos filhos pequenos. A primeira coisa que qualquer um deles fez, eu costumo dizer por brincadeira, apesar de ser verdade, foi assim que a mãe saiu da maternidade com eles, fomos todos almoçar fora. Em momento algum, os nossos filhos foram encarados como sendo um empecilho ou um estorvo, ou que estavam a atrapalhar, nada. Sempre fomos todos muito uns para os outros e da mesma maneira passamos a encarar a nossa fé, como parte da nossa maneira de estar e da nossa maneira de viver. 

Ao nível da gestão dos problemas, como os ultrapassam?

Nuno Rivera – Eu costumava dizer uma coisa que era “tomara que os problemas da minha vida fossem aqueles que a família me tem dado”. Diante dos conflitos naturais, a única maneira que tivemos para os encarar foi com o diálogo. 

Maria Luísa – Vivíamos no Continente, o Nuno arranjou emprego aqui e decidimos vir para a cá. Tudo isso alterou muito a nossa vida, é um facto. Eu estava muito ligada à família, vim para longe, mas acho que foi uma coisa muito boa que nos fez crescer muito enquanto casal e enquanto família, porque lá vivíamos muito dependentes do resto da família e aqui criámos um bocadinho mais o nosso núcleo e isso ajudou-nos bastante. Penso eu que foi uma coisa muito positiva, em termos de crescimento para nós. 

Que desafios para o Secretariado da Família?

Nuno Rivera – Nós gostávamos de fazer muito mais do que aquilo que fazermos. Não há dúvida nenhuma que a maneira que nós temos para chegar às famílias não passa diretamente pelo secretariado. Se nós não temos a colaboração daqueles que mais perto estão das famílias e que, no nosso caso, serão os párocos e as paróquias, torna-se complicado conseguirmos chegar às famílias. Entre nós falamos, há três ou quatro anos, da possibilidade de virmos a fazer um retiro para casais. É impossível somente através de publicidade na rádio e na internet, estar a desafiar casais que não fazem a mínima ideia do que é um retiro. Famílias que não estejam integradas em movimentos e que frequentem regularmente a missa, a igreja e a paróquia… é complicado fazer chegar a mensagem a essas pessoas. Uma das coisas que nós temos sentido é que a Festa da Família, que costumamos organizar todos os anos, só tem tido grandes adesões se o bispo do Funchal estiver presente. Porque as pessoas não têm consciência que a família é o pilar essencial até da própria igreja. É da família que sai tudo. É da família que saem as vocações. Criou-se a desresponsabilização da família. É complicado fazer passar a mensagem. É que a catequese é que é responsável pela educação religiosa das crianças; a escola é que é responsável pela educação académica das crianças; os ATL’s para não estarem tanto tempo em casa, metidos no computador e depois em casa não existe nada para os apoiar seja no que for, seja na educação religiosa, seja na educação académica, seja na ocupação dos tempos livres. Primeiro temos que passar a mensagem para as famílias perceberem a sua importância, a sua responsabilidade.

Maria Luísa – O Secretariado está a fazer umas conferências, ao sábado, para tentar chegar ao máximo de pessoas. Isto é um projeto que tem vindo desde sempre. Mas temos sempre o problema de ter pouca adesão, mesmo quando era presencial. O Secretariado tem tentado, além da festa das famílias, fazer estas conferências para tentar chegar às famílias. 

Alguma citação vos marcou nesta carta do Papa Francisco, “Patris Corde”, sobre São José? 

Nuno Rivera – Marcou-me bastante a parte em que o Papa Francisco diz: “São José não pode deixar de ser o Guardião da Igreja, porque a Igreja é o prolongamento do Corpo de Cristo na história e ao mesmo tempo, na maternidade da Igreja, espelha-se a maternidade de Maria. José, continuando a proteger a Igreja, continua a proteger o Menino e sua mãe; e também nós, amando a Igreja, continuamos a amar o Menino e sua mãe”. À frente, o Papa acaba por falar nos necessitados e nos atribulados, e que são José é o patrono de todos eles e que por isso é tão importante para todos nós. 

Maria Luísa – Gostaria de partilhar a parte em que o Papa faz a alusão aos migrantes e com o facto de São José ter que ir á procura de sítio para ficar com Maria e Jesus: “A Sagrada Família teve que enfrentar problemas concretos, como todas as outras famílias, como muitos dos nossos irmãos migrantes que ainda hoje arriscam a vida acossados pelas desventuras e a fome. Neste sentido, creio que São José seja verdadeiramente um padroeiro especial para quantos têm que deixar a sua terra por causa das guerras, do ódio, da perseguição e da miséria”.