Rezar à sombra de arame farpado

Igrejas no Paquistão são forçadas a rever procedimentos de segurança

Posto de segurança, igreja de São João, Paquistão, 2019| Foto AIS.

Raptos, agressões, ameaças… No Paquistão, os Cristãos vivem em constante sobressalto. Grupos radicais islâmicos perseguem as minorias religiosas e por vezes recorrem a violência extrema, intimidando os mais frágeis, procurando forçá-los por todos os meios a mudar de credo. Ninguém pode dizer que está a salvo. Nenhum lugar é suficientemente seguro. Nem sequer as igrejas. Ir à Missa, no Paquistão, exige muita coragem…

Os atentados na última década em Quetta, Lahore ou Peshawar, com igrejas a serem palco de explosões de bombas que causaram mais de uma centena de mortos, são como que um aviso do que pode vir a acontecer a qualquer momento, em qualquer lugar, face a uma crescente onda de intolerância para com os Cristãos. A situação tem vindo a agravar-se e isso está a obrigar à transformação das igrejas e centros paroquiais em espaços fortificados. Em Janeiro de 2018, quando esteve em Portugal, a convite da AIS, D. Sebastian Shaw lamentou esta triste realidade, esta permanente intimidação. E falou da necessidade de as igrejas e as escolas cristãs terem de se proteger de potenciais ameaças construindo muros, colocando câmaras de vigilância, como se fossem “verdadeiras prisões”. O Arcebispo de Lahore descreveu uma realidade assustadora, em que é necessário transformar templos de oração em espaços protegidos, como única forma de assegurar a tranquilidade dos fiéis. “Hoje em dia, temos de fazer muros muito altos e com arame farpado e câmaras de vigilância nas nossas igrejas e escolas. E temos de ter, também, guardas de dia e de noite. Não temos alternativa.” O Arcebispo de Lahore lembrou que “as ameaças terroristas” obrigaram até a colocar, em muitas igrejas, “detectores de metais”. Esta ameaça permanente tem posto também à prova a coragem da comunidade cristã. “Temos de estar em alerta, porque estes grupos radicais vão e vêm, como num jogo do gato e do rato. Viver neste ambiente é muito difícil”, sustentou então, D. Sebastian Shaw.

Despesas demasiado elevadas

As próprias autoridades têm exigido que os responsáveis da Igreja implementem as medidas de segurança. O problema é que a maior parte das comunidades são muito pobres. Tão pobres que a simples construção dos “muros altos e sólidos”, ou a colocação de “câmaras de videovigilância”, são fardo financeiro impossível de suportar. É o caso da Paróquia de Nossa Senhora do Loreto na Diocese de Multan. A igreja e a casa paroquial foram construídas há 60 anos por missionários dominicanos vindos de Itália. Na altura, o terrorismo era uma ameaça irreal e por isso o terreno em volta da igreja não tem nenhum muro. A Igreja foi pensada para estar de portas abertas, para ser lugar de acolhimento, de fraternidade. Mas os tempos, infelizmente, mudaram. Agora é preciso salvaguardar a segurança do templo, dos que ali vão rezar todos os dias. A solução foi pedir ajuda à Fundação AIS. Um pouco por todo o país têm chegado pedidos de apoio para estas obras que as comunidades cristãs não têm como custear. A verdade é que, apesar das ameaças, apesar de toda a violência que se faz sentir, as igrejas estão sempre cheias de fiéis. É quase uma ousadia que só a fé consegue explicar. Disse D. Sebastian Shaw, nessa visita a Portugal em Janeiro de 2018, que os cristãos do Paquistão não têm medo. Na verdade, o medo não é opção. O caminho da paz é feito muitas vezes de obstáculos, de dificuldades, de armadilhas, mas tem de ser percorrido.  “As pessoas perguntam-me o que devem fazer. E eu lembro-lhes que Jesus deixou-nos o que fazer. Ele disse que são abençoados os que constroem a paz. E só quando estamos em paz é que podemos partilhar a paz”, afirmou D. Sebastian Shaw. Mesmo com muros altos, com câmaras de vigilância e arame farpado, ir à Missa, no Paquistão, exige coragem. E, todos os domingos, os Cristãos paquistaneses mostram-nos que não têm medo…

Paulo Aido