Nada Te Perturbe

D.R.

Sentei-me na cadeira à procura de inspiração para um artigo. Mais uma notícia triste, uma amiga muito doente que muito aprecio, deixou-me um pouco deprimida. Que tempos estes, tão diferentes de tudo o que tínhamos vivenciado até ao momento presente, em que vimos os nossos entes queridos e amigos partir para a casa do Pai. Comentava esse facto com uma amiga que referiu que tínhamos perdido pessoas de grande valor em diferentes áreas. Fazer o quê? Não nos podemos resignar. A dada altura ela comentou que em breve já poderemos tomar o café ao “postigo”. Retorqui que me foi muito difícil perder esse hábito. Agora, já tomo em casa com gosto. Na verdade, modifiquei-me. Também a assistência à missa. Confesso até que já me habituei a assistir a diferentes horas através da internet. Claro que não é a mesma coisa… E diariamente recebo muita informação sobre diferentes webinars, conferências, retiros, assembleias gerais, convívios…enfim toda uma forma diferente de estar na vida, procurando ajustarmo-nos às novas realidades, substituindo de um modo virtual o que habitualmente fazíamos presencialmente. Às vezes questiono-me. Será que, quando “desconfinarmos”, faremos tudo como antigamente, ou será que já possuiremos outro modo de ver a vida? Queria ir visitar a minha amiga doente. Antes era tudo tão fácil. Nem nos apercebíamos. Encontra-se num lar. As visitas não são permitidas. Por outro lado como ir até ao norte do país? São muitas horas de viagem para ir e vir no mesmo dia. Também me encontro confinada. Posso ir de avião até ao Porto e apanhar aí outro meio de transporte até ao destino. Mas será que posso mesmo? Ainda que solicite uma autorização especial face ao problema de saúde que enfrenta e que me seja concedida será que sou portadora do vírus sem o saber e vou contaminar o lar? Não é correto. Não posso ir, a não ser que venha à janela. Depois onde ficar? Será seguro viajar? Já sou uma pessoa considerada de risco. Todas estas ambivalências, fruto da enorme vontade de estar com a minha amiga, parecem derrotar-me interiormente. “Coração, coração na cruz!” O melhor mesmo é ficar no meu lugar oferecendo este sacrifício pelas suas melhoras. Deus escreve direito por linhas tortas! E Ele irá certamente ajudar enquanto Pai. Interiormente disse: “Faça-se, cumpra-se a Vossa justíssima e amabilíssima vontade”. Senti-me, de imediato, mais tranquila depositando nas suas mãos a minha vontade aceitando assim a Sua vontade.

Entretanto, vieram-me ao pensamento algumas palavras proferidas pelo Papa Francisco na viagem apostólica ao Iraque. “Olha para as estrelas. Olha para o céu e atreve-te a escutar a voz de Deus”. Ajudemos o nosso coração a dilatar-se, e pensemos em fazer coisas elevadas no futuro. Na verdade, quando nos falta alguma disponibilidade mental, basta olharmos para o Iraque. São tantos os exemplos de vida muito sofrida! Deus é fiel às suas promessas. O céu é sempre luminoso ainda que às vezes nos pareça que nos vai cair em cima. É preciso muita força para regressar após anos de guerra e destruição, e com esperança começar a reconstruir, perdoando os inúmeros erros do passado, procurando sarar as feridas porventura ainda abertas. Este povo de raízes culturais milenares, berço de civilizações, tem o direito de ser feliz, de viver em paz.”No more sorrows!” disse alguém uma vez, falando de um amigo israelita que tinha sofrido diferentes perdas. Não mais esqueci esta frase, que agora me veio ao pensamento e que retrata bem esta situação tão constrangedora a diferentes níveis.

O Santo Padre referiu, recordando a viagem ao Iraque: “A Igreja no Iraque é uma Igreja mártir”. A Catedral sírio-católica desta cidade tem inscrita na pedra a memória daqueles mártires que no ano 2010 foram assassinados durante a celebração da missa, e neste mesmo templo ressoou agora a alegria do encontro com o Papa Francisco.

O Santo Padre celebra os seus oito anos de pontificado. É sobejamente conhecido o seu amor à literatura e à arte. A Biblioteca Apostólica Vaticana é a mais antiga da Europa, sendo um local de pesquisa para a história, o direito, a filosofia, a ciência e a teologia. Foi fundada por Nicolau V, contando com a herança das velhas bibliotecas papais. Possui um riquíssimo acervo.

Termino este artigo com uns conhecidos versos de Santa Teresa de Ávila: “Nada te perturbe,/Nada te espante, tudo passa,/ Deus não muda,/ A paciência tudo alcança;/Quem a Deus tem,/ Nada lhe falta:/Só Deus basta”.