Tempo para a paz

Oração pelas vítimas da guerra, Mossul, Iraque | Foto: Vatican Media

Entre os escombros da “praça das igrejas”, em Mossul, a praça-forte onde o autoproclamado Estado Islâmico proclamou o califado, caminha agora o Papa Francisco, peregrino da paz, rezando pelas vítimas da guerra. 

Junto à cruz construída com bancos de igrejas queimadas e destruídas pelos jihadistas, disse o Papa: “Como é cruel que este país, berço de civilizações, tenha sido atingido por uma tormenta tão desumana, com antigos lugares de culto destruídos e milhares e milhares de pessoas deslocadas à força ou mortas!”.

Em Qaraqosh, as palavras de uma mãe que perdeu o seu filho quando os terroristas entraram na aldeia em 2014, comoveu o Papa. “A minha fé diz-me que o meu filho está nos braços de Jesus Cristo nosso Senhor. E nós, sobreviventes, tentamos perdoar o agressor, porque o nosso Mestre Jesus perdoou os seus algozes. Ao imitá-lo em nossos sofrimentos, testemunhamos que o amor é mais forte do que tudo”, partilhou Doha Abdallah. 

O padre Yako também recordou os três anos que viveu como deslocado, juntamente com a comunidade cristã: “Desde aquele momento, enfrentámos uma prova muito difícil: viver dispersos nas ruas, praças e parques públicos, sem abrigo ou comida”, mas com a força de Deus foi possível “ajudar as famílias e distribuir alimentos, roupas e outros auxílios”, revelou o sacerdote.

Na Eucaristia de despedida em Erbil, o Papa benzeu a imagem da Virgem de Karemlesh. A estátua tinha sido vandalizada pelo Daesh durante a ocupação de Mossul (2014 – 2017), que levou à fuga de mais de 120 mil cristãos, deixando um rasto de morte e destruição. Mais tarde, colocaram a cabeça e as mãos que tinham sido arrancadas. “Deixámo-la assim como sinal daqueles dias sombrios, mas também para nos lembrar que agora somos nós as suas mãos para ajudar os mais necessitados”, disse um católico local.

Agora é tempo de “reconstruir esta cidade e este país e curar os corações dilacerados pela dor”, disse o Papa, convidando a olhar para a Igreja de Nossa Senhora do Relógio, em Mossul: “É um relógio que, há mais de cem anos, lembra aos transeuntes que a vida é breve, e o tempo precioso”. 

Esse relógio, que conheceu sofrimento e dor, agora anuncia que “para tudo há um momento”. Há “tempo para a guerra e tempo para a paz”, diz Qohélet (Ecl 3, 8).