O (des)conforto de Deus

D.R.

Este pensamento pode ser muito provocador e até mesmo embaraçador, pois creio que Deus gosta do nosso desconforto. Se é verdade que Deus é o nosso conforto como ousamos rezar e descobrir na Sagrada Escritura, também é verdade que Deus gosta que não nos acomodemos e, como tal, que vivamos num desconforto. 

Hodiernamente, vivemos num tempo de muito conforto espiritual e religioso, na medida em que tudo nos chega através de um clique ou até mesmo através de outros meios de comunicação como a rádio ou a televisão. Vamos para o nosso sofá, para o nosso escritório ou para o nosso espaço de oração e facilmente rezamos um terço, uma missa, uma via sacra, uma novena e até fazemos uma adoração ao Santíssimo sacramento, etc… Mas será que nestes espaços de conforto, não deve causar um grande desconforto em cada um de nós? Sim, refiro-me ao desconforto espiritual e religioso. Será que os cristãos podem viver confortados somente com um altar visível somente através de um ecrã ou audível através de uma coluna de som? Na Pandemia, sentimos grande conforto com tudo isto, mas quando as igrejas abrirem as suas portas, viveremos sempre no mesmo conforto doméstico? Neste caso, creio como já o afirmei que Deus gosta do nosso desconforto e, quanto tal acontecer, devemos procurar o conforto no próprio Cristo: «Vinde a Mim todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomais sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve» (Mateus 11, 28-30).

Estamos a viver um tempo oportuno para começar a sentir o desconforto de Deus para não ficarmos presos aos nossos próprios confortos habituais, mas começarmos a gerar em nós o desejo de estar naquela casa onde o altar foi preparado para ti, onde o Senhor continuamente parte e reparte o pão para ti, onde há um lugar de madeira para te poderes sentar e ajoelhar, onde há uma comunidade que reza a uma só voz, onde há um lugar para sarar um coração doente inclusive o teu, onde há um lugar para este encontro maravilhoso entre ti e próprio Deus que te quer na sua casa.

Por fim, recordemos a parábola do filho pródigo e especialmente do desconforto deste filho de quando estava no meio dos porcos e das suas saudades da casa do Pai. A nostalgia habitou no seu ser e isso o fez regressar para junto daqueles braços que esperavam desde o primeiro dia o filho rebelde. Neste (re)encontro podemos vislumbrar como o coração pecador se cruza com o coração misericordioso de Deus. Que nunca esqueçamos que o lugar deste abraço foi na casa do Pai.