Dia da Cáritas: D. Nuno lembra que a vida do cristão está centrada na cruz de Jesus

Foto: Duarte Gomes

D. Nuno Brás presidiu na manhã deste domingo, dia 7 de março, a uma Eucaristia na igreja do Colégio com a qual se assinalou o Dia da Cáritas, instituição cujo trabalho o bispo do Funchal agradeceu, bem como a todos os que colaboram e colaboraram com ela. 

Nesta Eucaristia, em que o prelado reconheceu “o bom que seria que não fosse necessária a Cáritas, mas é”, rezou-se também por todos aqueles que a instituição ajuda. 

Na homilia desta celebração, que contou com a presença de várias entidades, nomeadamente do presidente da Assembleia Legislativa e da secretária da Inclusão e Assunto Sociais, em representação do presidente do Governo Regional, o prelado frisou que “a vida do cristão está toda ela centrada na cruz de Jesus. Toda a nossa existência, todo o nosso caminho de fé consiste nisto: viver do amor de Deus que Cristo nos mostrou na sua cruz”. 

O prelado partiu das leituras proclamadas, mais precisamente da segunda leitura, em que “o Apóstolo S. Paulo apresentava aos cristãos de Corinto a identidade do cristão”, para explicar que “a nossa vida não está organizada nem à volta da sabedoria, nem à volta dos milagres”, mas na Cruz de Jesus que é “central na nossa vida”, porque “no madeiro da cruz, Deus viveu a nossa morte e o nosso sofrimento, que o Crucificado é o motor da nossa existência”. 

“E àqueles que olham para a cruz e vêem nela uma maldição, quer dizer: uma fraqueza, uma derrota de Deus, o Apóstolo não hesita em responder que a fraqueza de Deus é mais forte que a força dos homens”, acrescentou. 

E Cristo Crucificado, prosseguiu, é Amor. “Amor de Deus por todos os seres humanos”. Um amor “de tal forma grande e intenso, sólido e fiel que salva, que transforma a morte em vida. Amor que transforma a tua morte em vida, em vida de Deus contigo e em ti!”, frisou. 

Olhando para a cruz de Jesus, prosseguiu, “percebemos como o amor é algo bem concreto: é o amor que Deus tem por ti, por mim, por cada ser humano e por todos. E percebemos também a profundidade do lema que nos foi proposto para a Semana Cáritas que hoje termina: ‘É o amor que transforma!’”. 

De resto, explicou ainda D. Nuno Brás, “podemos mesmo dizer: só o amor transforma verdadeiramente! Porque só o amor é princípio de vida nova. Porque só o amor — o amor de Deus em nós, que o mesmo é dizer: a caridade — só o amor tem a capacidade de renovar, de transformar a morte em vida, de transformar tudo o que em nós é sinal de morte, em vida verdadeira”. 

Neste dia Cáritas, prosseguiu, “queremos dar graças a Deus pelo caminho que esta instituição percorreu ao longo de todos estes anos. Queremos dar graças a Deus por quantos nela colaboraram e trabalharam, e pela ajuda que a Cáritas constituiu na vida de tantos, espalhando o amor que transforma, por dentro, os indivíduos, as famílias, a inteira sociedade”. 

O prelado terminou a sua reflexão desejando que “neste domingo da Quaresma, deixemos que, diante de nós, permaneça a cruz de Jesus Cristo. Acolhamos dela “o Amor que transforma”! Vivamos envolvidos e movidos por este amor”. 

No final desta Eucaristia, que marcou também o encerramento da Semana Nacional da Cáritas no Funchal, aconteceu a  homenagem ao bispo emérito do Funchal, D. Teodoro de Faria, que fundou a Cáritas na Madeira há 38 anos, bem como à voluntária mais antiga da instituição, Maria José Castro.  

Esta homenagem constituiu, como referiu Duarte Pacheco presidente da Cáritas do Funchal, uma forma de “louvar todo o empenho do bispo emérito pela fundação da Cáritas na Madeira a 25 de março de 1983” e também “à voluntária mais antiga da instituição”, na pessoa da qual “retratamos tantas outras que, na situação que vivemos, não podemos homenagear, mas que queremos se sintam representadas”. 

Os homenageados, a começar pelo bispo emérito agradeceram o gesto de que foram alvo. D. Teodoro de Faria deu ainda conta da sua “alegria” pelo facto desta instituição ter vindo para a Madeira, reconhecendo, no entanto, que ela tem tido um percurso acompanhado pelo sofrimento. Porém, e tal qual diz a expressão latina ‘per aspera ad astra’, que significa literalmente por ásperos caminhos até aos astros, também a Cáritas “teve este mesmo percurso”.  

D. Teodoro de Faria, que recordou ainda algumas das figuras que com ele começaram a trabalhar, aquando da fundação da instituição, nomeadamente o Dr. Luciano Castanheira e o Pe. Luís que “foi extraordinário e que hoje está com grandes dificuldades de visão”, pediu ainda aos que trabalham na instituição “que não tenham medo de sofrimentos”, e sigam sempre os exemplos da Irmã Wilson e do Beato Carlos. 

Depois de lembrar que “a Cruz de Cristo está sempre nos nossos ombros de formas diferentes. D. Teodoro terminou desejando “que nunca faltem cireneus para ajudar o Senhor em toda a sua vida e também para a Cáritas”. 

Já Maria José Castro agradeceu ainda a Deus por lhe ter permitido “chegar a esta idade lúcida e ativa” e pela amizade e carinho com que sempre a envolveram na instituição. 

Leia na íntegra a homilia do bispo diocesano:  

III DOMINGO DA QUARESMA (B) 

7 de março de 2021 

Dia Cáritas   

  1. Na segunda leitura (1Cor 1,22-25), que acabámos de escutar, o Apóstolo S. Paulo apresentava aos cristãos de Corinto a identidade do cristão. Quem somos nós, os cristãos? Que procuramos nós? Que é que nos move?

O mundo grego (onde viviam os cristãos de Corinto) girava todo ele à volta da procura da sabedoria. Por seu lado, o mundo dos judeus (onde Paulo tinha passado grande parte da sua vida) estava organizado à volta dos milagres de Deus na história: procurava manifestações da presença divina. Mas qual é o centro, o motor deste mundo novo, este novo modo de viver que Paulo proclamava como surgido da ressurreição de Jesus? Que procuramos nós, os cristãos, ao longo da nossa vida? 

A resposta do Apóstolo é clara: a nossa vida não está organizada nem à volta da sabedoria, nem à volta dos milagres. A vida do cristão está toda ela centrada na cruz de Jesus. Toda a nossa existência, todo o nosso caminho de fé consiste nisto: viver do amor de Deus que Cristo nos mostrou na sua cruz. 

Muitos dirão (hoje, como naquele tempo): “ignorância, loucura”! Como é que de um homem morto pode surgir alguma coisa? Outros dirão: “escândalo”! Como é que um condenado à morte por blasfémia, um maldito (como eram olhados aqueles que morriam na cruz), como é que alguém que sofreu a morte dos malditos pode mostrar Deus? 

No entanto, S. Paulo afirma-o com toda a clareza e sem medo: é precisamente porque é obra de Deus, que a cruz de Jesus é central na nossa vida. É porque, no madeiro da cruz, Deus viveu a nossa morte e o nosso sofrimento, que o Crucificado é o motor da nossa existência. 

Deus rejeitado pelos homens. A sabedoria dos homens (aquela que eles procuram e que julgam possuir) não foi — nem é! — capaz de reconhecer Deus na cruz de Jesus. Por isso, pensam que são loucos aqueles que, como Paulo, proclamam Cristo crucificado e vivem dele. Mas a loucura de Deus é bem mais sábia que a sabedoria dos homens! 

E àqueles que olham para a cruz e vêem nela uma maldição, quer dizer: uma fraqueza, uma derrota de Deus, o Apóstolo não hesita em responder que a fraqueza de Deus é mais forte que a força dos homens. 

Cristo crucificado: poder e sabedoria de Deus. Que o mesmo é dizer: amor de Deus mostrado e demonstrado, provado. Amor de Deus por todos os seres humanos. Amor que teve a ousadia de sofrer até ao fim; de experimentar o sofrimento mais baixo a que algum ser humano poderia alguma vez estar sujeito.  

Não apenas Amor que faz seu o padecer de toda a humanidade, marcada pelos seus limites, pelo pecado e pelo mal que ele sempre traz consigo. Mas Amor que é (sobretudo) padecer com cada ser humano, de todos os tempos. De tal forma que cada um de nós pode, hoje, olhar para o Crucificado e descobrir nele os seus pecados, bem concretos, o seu sofrimento, a sua vida. Amor de tal forma grande e intenso, sólido e fiel — Amor de Deus! — que salva, que transforma a morte em vida. Amor que transforma a tua morte em vida, em vida de Deus contigo e em ti! 

Podemos, por isso, perceber Santo Ambrósio, quando afirma: “Tudo temos em Cristo. Cada alma pode vir a Ele, seja doente com pecados corporais, seja prisioneira de algum dos maiores vícios deste mundo; mesmo que o seu caminho seja ainda imperfeito, (desde que tenha o propósito de progredir); ou que, como muitos, viva já com a virtude perfeita: tudo está no poder do Senhor, e Cristo é tudo para nós! Se queres curar uma ferida, Ele é o médico; se estás com febre e morto de sede, Ele é a fonte; se és oprimido pela iniquidade, Ele é a justiça; se tens necessidade de ajuda, Ele é a força; se temes a morte, Ele é a vida; se desejas o Céu, Ele é o caminho; se te encontras nas trevas, Ele é a luz; se procuras de comer, Ele é o alimento. Saboreai e vede como o Senhor é bom: feliz o homem que nele pôs a sua esperança!” (De virginitate, 16,99). 

  

  1. Olhando para a cruz de Jesus, percebemos como o amor é algo bem concreto: é o amor que Deus tem por ti, por mim, por cada ser humano e por todos. E percebemos também a profundidade do lema que nos foi proposto para a Semana Cáritas que hoje termina: “É o amor que transforma!”.

Podemos mesmo dizer: só o amor transforma verdadeiramente! Porque só o amor é princípio de vida nova. Porque só o amor — o amor de Deus em nós, que o mesmo é dizer: a caridade — só o amor tem a capacidade de renovar, de transformar a morte em vida, de transformar tudo o que em nós é sinal de morte, em vida verdadeira. 

Neste dia Cáritas, queremos dar graças a Deus pelo caminho que esta instituição percorreu ao longo de todos estes anos. Queremos dar graças a Deus por quantos nela colaboraram e trabalharam, e pela ajuda que a Cáritas constituiu na vida de tantos, espalhando o amor que transforma, por dentro, os indivíduos, as famílias, a inteira sociedade. 

Neste Domingo da Quaresma, deixemos que, diante de nós, permaneça a cruz de Jesus Cristo. Acolhamos dela “o Amor que transforma”! Vivamos envolvidos e movidos por este amor.