D. Teodoro sobre a Cáritas: “Uma filha que já sofreu muito, mas venceu sempre”

Foto: Duarte Gomes

Hoje assinala-se o Dia Nacional da Cáritas, instituição que está a celebrar 65 anos de existência no Continente e 38 na Madeira. A vinda da organização para a Diocese do Funchal deve-se ao bispo emérito D. Teodoro de Faria, que nesta entrevista nos conta um pouco da história desta sua “filha, que já sofreu por muito, mas venceu sempre”, uma filha que “nos deu trabalho, mas levou-nos a amar os mais pobres e os infelizes”. D. Teodoro que vai ser homenageado pela instituição, no final da Eucaristia das 12 horas, na Igreja do Colégio, juntamente com a voluntária Maria José Castro.

Jornal da Madeira – D. Teodoro quando e como surgiu a ideia de trazer a Cáritas para a Madeira?

D. Teodoro de Faria – Bem, em primeiro lugar é preciso dizer que a questão da caridade sempre esteve centrada nas Conferências Vicentinas de São Vicente de Paulo, que estavam espalhadas por quase todas as paróquias. Mas a organização Vicentina é uma organização particular, naquela paróquia, naquele centro. Já a Cáritas, sendo um organismo internacional e nacional tinha outra abrangência. E eles queriam vir para a Madeira. Eu já sabia disso, de maneira que quando fui nomeado bispo inclui logo isso nos meus planos e também a questão da Universidade Católica, que eu achava igualmente fundamental trazer para a Madeira. Na altura falei desses meus planos ao Cardeal Ribeiro, de quem eu era muito amigo, que me incentivou. 

Jornal da Madeira – O senhor bispo toma posse em 1982 e em março do ano seguinte, no dia 25 mais precisamente, nascia oficialmente a Cáritas Diocesana do Funchal…

D. Teodoro de Faria – Sim, é verdade. E essa data foi escolhida porque o dia 25 de março é o Dia da Encarnação do Verbo. Um dia muito bonito em que a Igreja está em festa. Antes houve uma reunião no Paço, já com diversos elementos. Nessa altura já o Dr. Luciano Castanheira, da Ação Católica, também falava da Cáritas e reunia-se com uma pessoa ou outra num prédio da Rua do Bispo, junto ao Museu de Arte Sacra. Mas como essa salinha não tinha condições, nós reunimos foi no Paço. Depois passamos a reunir na Capela de São Paulo, porque ficava perto, e tinha umas salas. Outras ocasiões reuníamos no Bom Jesus e oito anos depois reunimo-nos onde estamos agora. Mas para isso foi preciso arranjar 12 mil contos para pagar a casa. Não foi uma quantia pouca, mas a Cáritas nasceu em grande e com as pessoas que nós tínhamos ela cresceu e desenvolveu-se de tal maneira que algumas Conferências Vicentinas começaram a se interrogar sobre a razão da sua existência, quando a Cáritas é que tinha gente preparada e dinheiro. Claro que eu como bispo tinha de manter as duas coisas, porque eram coisas diferentes.

Jornal da Madeira – Aliás, voltando um pouco atrás, o D. Teodoro dizia-nos há pouco que o âmbito de atuação da Cáritas era mais alargado do que o das Conferências…

D. Teodoro de Faria – Exatamente. A Cáritas tinha um campo de atuação mais vasto e outras preocupações. Uma delas era a questão das pessoas que dormiam nas ruas e outra a das prostitutas, havendo pessoas que as ajudavam e as levavam aos médicos. Além disso, quando havia uma desgraça noutro país da Europa ou fora, a Cáritas estava pronta a ajudar.

Jornal da Madeira – Deduzo então que os primeiros tempos não foram fáceis…

D. Teodoro de Faria – Sim tivemos alguns problemas no princípio, mas a Cáritas começou a trabalhar e a trabalhar bem. E cresceu muito. E aqui houve uma pessoa que eu gosto muito de apresentar. É o caso muito interessante de um alemão que veio viver para a Madeira, para a zona do Caniço de baixo. Era um militar chamado Schultz, que começou a visitar as zonas altas daquela zona, de Machico, Gaula, etc.,  onde encontrou muita pobreza e muitos pequenos que nem à escola iam. Então ele começou a ajudá-los e a arranjar um padrinho na Alemanha para cada uma das crianças. Esses padrinhos mandavam ofertas para os seus afilhados e de vez em quando vinham cá visitá-los. Uma certa vez vieram já não sei se 30/40 pessoas de lá para cá para ver os afilhados que estavam assim espalhados pela serra. Outra vez fizeram uma festa na Alemanha. Eu também fui convidado e lá fomos. Foi uma coisa impressionante. Ora, este homem, ajudou a Cáritas a trabalhar, com a sua forma de pensar, a sua forma organizada de fazer as coisas, tudo com princípio, meio e fim. Ele foi extraordinário. Era um homem de todas as religiões, que não fazia distinções e que a única coisa que queria – ele e a esposa – era ajudar os mais necessitados e abandonados. 

“para se trabalhar na Cáritas é preciso três coisas. A primeira é um grande amor a Deus e ao próximo, a segunda competência e uma terceira união com a Igreja, porque a Cáritas é da Igreja”

Jornal da Madeira – Foi graças a esse militar que a Cáritas ainda recebeu alguns bens?

D. Teodoro de Faria – Exatamente. Graças a ele conseguimos muitos bens da Alemanha e também muitas roupas, que a Cáritas sempre organizou e continua a organizar. 

Jornal da Madeira – Nestes 38 anos o D. Teodoro sempre acompanhou o trabalho. Houve épocas complicadas…

D. Teodoro de Faria – Sim é verdade, mas foram mais no tempo do D. António Carrilho. Mas faz tudo parte da vida e nós temos de ter muita humildade para receber aquilo que nos custa e assim continuarmos. O primeiro domingo da Quaresma é o domingo da tentação. Jesus foi tentado para vencer e nos ensinar que também nós vamos ser tentados e vamos vencer. De resto, já diz Santo Agostinho: só há vitória quando há luta e, portanto, a vida de um cristão tem sempre essa faceta. E vamos continuar assim, com alegria.

Jornal da Madeira – Não tem então dúvidas que fez a coisa certa ao trazer a Cáritas para a Diocese do Funchal?

D. Teodoro de Faria – De maneira nenhuma. Aliás, mais tarde, a Conferência Episcopal Portuguesa insistia para que todas as dioceses de Portugal tivessem a sua Cáritas. Além disso, sendo uma organização internacional, tinha de haver a Cáritas. Essa senhora não podia desaparecer. E ela fez-nos bem, porque nos deu trabalho e levou-nos a amar os mais pobres e os infelizes. Teve muita gente que se santificou que trabalhou na Cáritas e também nos outros movimentos da Igreja. De resto, e era sempre isto que eu dizia nas reuniões, para se trabalhar na Cáritas é preciso três coisas. A primeira é um grande amor a Deus e ao próximo, a segunda competência e uma terceira união com a Igreja, porque a Cáritas é da Igreja.