Voluntária Maria José Castro: “Não gosto de dizer às pessoas que tenham paciência”

Foto: Duarte Gomes

Chama-se Maria José Castro, é voluntária e vai ser homenageada pela Cáritas Diocesana do Funchal este domingo, dia 7 de março, no final da Eucaristia do meio dia na Igreja do Colégio. Uma homenagem singela a quem há 38 anos se dedica ao voluntariado nesta instituição, que diz que aprendeu muito com o sofrimento dos outros e que não gosta de dizer às pessoas que tenham paciência dando-lhes a ideia de que não se pode fazer mais nada por elas e que elas se devem resignar a esse facto. 

Jornal da Madeira – Como e quando é que nasce a sua ligação à Cáritas?

Maria José Castro – Inicialmente eu não tinha a ideia de trabalhar fora de casa, mas um belo dia recebi um convite para ser voluntária da Cáritas e aceitei, ainda que um pouco renitente. No dia marcado lá fui até à sede. Aí, fui apresentada a uma senhora que percebi logo que era a presidente. Ela mostrou-me todo o trabalho que era feito ali e encarregou-me de atender as pessoas.

Jornal da Madeira – Portanto ficou a fazer atendimento?

Maria José Castro – Sim. Mas o atendimento nessa altura era assim muito fraco, muito formal. Eu praticamente não falava com as pessoas, apenas as encaminhava para o sítio onde estavam os cabazes e o vestuário. Só depois, na segunda direção, é que já foi um bocadinho diferente. Já eu atendia as pessoas de outra maneira. E com o tempo, fui percebendo que elas tinham mais alguma coisa para me dizer, que tinham necessidade de falar. Eu punha-as à vontade. Dizia-lhes que podiam confiar em mim, que o que era ali dito, ali ficava.

“Se houve uma coisa que nunca gostei de dizer foi para as pessoas terem paciência, no sentido de se conformarem com as suas situações”.

Jornal da Madeira – Nestas lides a questão da confiança e do sigilo são muito importantes…

Maria José Castro – Muito, muito. Mas, felizmente, conseguia que elas percebessem isso e se abrissem comigo.

Jornal da Madeira – Deve ter ouvido muitas histórias de sofrimento?

Maria José Castro – Sim, fui confrontada com muitas situações de sofrimento e aprendi também com elas. Sofria com as pessoas. Eram múltiplas carências: morais, financeiras. E em troca eu só lhes podia dar uma palavra de conforto, de esperança e lhes falar de Cristo, porque isso também fazia parte. As pessoas ficavam tão gratas que estavam sempre ansiosas por voltar a falar comigo. Sentiam que tinham alguém para as escutar. Se houve uma coisa que nunca gostei de dizer foi para as pessoas terem paciência, no sentido de se conformarem com as suas situações. Sempre entendi que dizer a uma pessoa ‘olhe tenha paciência’ era uma forma de a descartar. No fundo, acho que lhes dava um pouco de amor e isso fazia a diferença. 

Jornal da Madeira – É curioso falar de amor, porque o lema desta Semana Nacional da Cáritas é precisamente ‘É o amor que transforma’…

Maria José Castro – Não tenho a menor dúvida que sim. O amor que pode ser manifestado em palavras e em gestos, como um simples sorriso, é o bastante para a pessoa passar melhor o dia e ter mais disposição para enfrentar situações menos agradáveis.

Jornal da Madeira – Ao longo de todos estes anos certamente que houve episódios que a marcaram?

Maria José Castro – Sim, muitos. Mas há um de que me recordo particularmente. Era uma mulher que tinha ficado viúva há pouco tempo e que andava desnorteada, muito em baixo. Num dos dias que ela lá foi ter comigo eu tinha visto, na estante dos livros que tínhamos lá para oferecer aos utentes, um livrinho do Novo Testamento. Perguntei-lhe se ela sabia ler, ao que ela me respondeu que sim. Disse-lhe que levasse o livro e que lesse todos os dias um bocadinho e refletisse naquilo que tinha lido, porque a ia ajudar a sentir-se melhor. Na vez seguinte, mal ela chegou, deu-me um grande abraço e em lágrimas disse-me: a senhora não sabe o bem que me fez. A senhora era católica, mas disse-me que não ia à igreja porque ficava longe. Eu até lhe disse que nem só quem vai à igreja reza. Podemos rezar até no caminho…

“fui confrontada com muitas situações de sofrimento e aprendi também com elas. Sofria com as pessoas”

Jornal da Madeira – A D.ª Maria José também fez parte da direção da Cáritas entre 1999 e 2002 e andou no peditório de rua e na recolha de alimentos…

Maria José Castro – Sim, fiz parte da direção e a dada altura fui convidada também para fazer parte da equipa do peditório. Todos os anos, por esta altura, andava na rua no peditório. Era uma coisa que eu também gostava de fazer, embora que houvesse pessoas que me dirigiam palavras um bocado ofensivas, desagradáveis até, mas eu não dava resposta e seguia o meu caminho. E também fazia recolha de alimentos todos os anos no supermercado. Aliás, eu só deixei de fazer tudo isso por causa desta pandemia. Não fora isso e eu continuava a fazer tudo o que sempre fiz, mas com a minha idade fui obrigada a ficar em casa.

Jornal da Madeira – A D.ª Maria José tem 90 anos?!

Maria José Castro – Sim, tenho 90 anos…

Jornal da Madeira – Qual é o segredo para se manter assim ativa e com um espírito jovem? Sente que o voluntariado a ajudou?

Maria José Castro – Sim, o voluntariado foi muito importante, mas eu costumo dizer que o mais importante é a graça de Deus. Com todas estas restrições há um ano que não entro numa igreja, mas todos os dias leio as leituras do dia e medito um pedacinho. Mas devo confessar que estes tempos que vivemos não têm sido nada fáceis para mim. No princípio até me revoltei. O silêncio era tal, que eu tinha a sensação de estar noutro planeta. As lágrimas corriam-me cada vez que vinha à varanda e nem os pássaros ouvia. Mas depois apaziguei-me, graças também à minha filha que me chamou à atenção e me disse que eu era uma pessoa tão católica, que dava tantos conselhos e agora estava assim. Ela realmente tinha razão e eu até estava a ofender a Deus por não aceitar, porque isto são coisas que a pessoa tem de aceitar. Tem de aceitar a doença. Eu, por exemplo, tenho um grave problema num pulmão, mas aprendi a viver com isso.

Jornal da Madeira – Mas não é fácil e acho que aí todos estamos de acordo…

Maria José Castro – Não é não. Mas temos de facto de aceitar e de manter a esperança de que tudo isto vai passar. Mas confesso que a máscara continua a fazer-me muita impressão, porque gosto de olhar para o rosto das pessoas. Mas vamos ter fé…

Jornal da Madeira – E quando tudo isto passar vai voltar às suas rotinas…

Maria José Castro – Sim, espero bem que sim. E isso significa voltar ao voluntariado, à ginástica que faço há 20 anos, à catequese que dou na Igreja do Carmo. A tudo o que fui obrigada a parar por causa desta pandemia.

Jornal da Madeira – Se antes de tudo isto as pessoas já tinham carências para além da roupa e da comida, agora vão ter ainda mais.  Tem essa noção?

Maria José Castro – Sim, sem dúvida. Acho que as pessoas vão ter inúmeras carências que nem consigo imaginar. Se antigamente, que estava a correr tudo normalmente havia tantas carências agora acho que duplicaram ou triplicaram. As pessoas vão precisar muito da tal palavra de conforto. Mesmo que durante este tempo a Cáritas tenha estado sempre a acompanhar os utentes, nomeadamente através de chamadas, nunca é a mesma coisa do que estar frente a frente. O sentimento de solidão agudizou-se, disso não tenho dúvidas e é preciso combatê-lo. 

“Com todas estas restrições há um ano que não entro numa igreja, mas todos os dias leio as leituras do dia e medito um pedacinho”.

Jornal da Madeira – Adivinham-se dias de muito trabalho…

Maria José Castro – Isso é mais do que certo.  Eu pessoalmente não gosto de mensagens. Falar por telefone, bem sempre é melhor porque sempre se ouve a voz, mas o ideal será mesmo voltarmos aos contactos presenciais para, aí sim, falar e ver as pessoas e perceber quais são as suas reais dificuldades e cumprirmos a nossa missão de as ajudar.