Como é que o anjo convenceu São José?

São João Crisóstomo
Comentário do Evangelho de São Mateus

São João Crisóstomo (nome que em grego significa “Boca de Ouro”) nasceu em Antioquia em 344 e, após uma experiência monástica, foi ordenado sacerdote e depois nomeado Bispo de Constantinopla, capital do Império romano do Oriente. Posteriormente, foi declarado Doutor da Igreja. Na sua obra Comentário do Evangelho de São Mateus encontra-se alguns dos elementos importante para a piedade e para a doutrina sobre São José. Partindo da pergunta “Como é que o anjo convenceu São José?”, encontramos uma reflexão teológica, espiritual e bíblica sobre o papel de São José na Sagrada Escritura.

Percorrer a História do povo de Israel é o primeiro convite do anjo: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa. Antes de tudo o anjo recorda-lhe David, de quem havia de vir Cristo e não lhe permite estar perturbado desde o momento em que, pelo nome dos seus antepassados mais gloriosos, traz-lhe à memória a promessa feita a todos os seus antepassados. Pois, por que outro motivo mais pode chamá-lo de filho de David?». O convite do anjo é que José faça memória da História do povo de Israel, recordando que a promessa de Deus de que iria nascer um Salvador descente do grande rei David, no entanto o medo continuava a reinar na vida de José, mas o anjo conforta-o ao dizer: «Não temas, dá a entender que José tinha medo de ofender a Deus, guardando consigo uma adúltera. Pois, se assim não fosse, nem sequer teria pensado em expulsá-la de casa. Imediatamente, o anjo expõe José e coloca diante dele o que tinha pensado e o que em sua alma havia sofrido e por este meio manifesta o que vem da parte de Deus». José é um homem justo e as suas inquietações continuam presentes e têm um peso na sua decisão, mas o anjo, ao pronunciar o nome de Maria: «não fica por só por aí, mas acrescentou “Tua esposa”, um nome que o não teria dado se ela se tivesse sido corrompido. “Mulher” quer aqui dizer “prometida”, é o modo com que as Escrituras costumam chamar de “maridos” aos pretendentes antes do casamento». 

O anjo, intermediário de Deus, faz a primeira entrega de Maria para que possa acolher como sua esposa e ao mesmo tempo para a proteger: «E o que significa tomar? Significa tê-la em casa, pois na cabeça dele ela já estava repudiada. «Esta – diz o anjo – que já tens repudiado espiritualmente, guarda-a contigo, pois Deus entregar-te Maria e não os seus pais; e entrega-te não para o casamento, mas para a comunhão, e entrega-te por meio das minhas palavras, como Cristo a entregou mais tarde ao seu discípulo, assim agora se a entrega o anjo à José». 

Há uma dificuldade inicial de José em acreditar no plano de Deus: «Só veladamente o anjo alude ao assunto e, sem nomear a sua dúvida, o anjo elimina-a e revela o que José temia e o que pensava em a expulsar de casa, por isso devia procurar o modo mais nobre e mais conveniente, sendo a causa das dores de José». Diante do sofrimento, Deus revela o seu plano em favor da humanidade ao pedir que José tome e guarde Maria: «toda a sua angústia foi mais do que sobejamente desfeita. Não só lhe diz o anjo que Maria é estranha a qualquer união ilegítima, mas que tem concebido acima de toda a natureza. Não só deve expulsar de si mesmo todo o medo, mas que se deve alegrar abundantemente. “Porque o que nasceu nela é obra do Espírito Santo”. Palavra maravilhosa, que ultrapassa todo raciocínio humano e está acima das leis da natureza! Como pode um homem não acreditar nestas coisas?». 

Do meio do seu povo, José entra na história da salvação e recebe a missão de dar um nome ao filho, quando o anjo lhe diz «Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus» (Mt 1, 21). Neste diálogo com José, podemos depreender as palavras do anjo neste sentido: «Não penses que, embora a conceção de Cristo é fruto do Espírito Santo, tu és um estranho ao serviço da história da salvação, na verdade tu não tens nenhuma parte na geração, permanecendo intacta a Virgem, na verdade, tudo o que dizes ao Pai sem atentar contra a dignidade da virgindade, tudo Deus te entregou. Assim, Deus tem um nome para o Filho, mas tu vais colocá-lo. Embora não o tenhas gerado, vais agir como um pai para ele. Por isso, a partir da imposição do nome, uno-te intimamente àquele que vai nascer». Este filho não se destina somente a pessoa de José, mas «escuta com que precisão o que anjo acrescenta: “Ela dará à luz um filho”. Ele não disse: “Ela dará à luz um filho para ti”, mas o deixou no ar. Ele realmente não entregou para si mesmo, mas para toda a terra. Pela mesma razão, o anjo do céu trouxe o nome de Jesus, dando a entender quão maravilhosa era a sua conceção, devido ao fato de que foi o próprio Deus que, através do ministério de um anjo, enviava a José o nome que devia de se colocar. Não é um nome aleatório, mas um tesouro de bens infinitos». 

Fontes das citações

San Juan Crisóstomo, Obras de San Juan Crisóstomo. II: Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (BAC 141, Madrid 2007) IV, 6-7.

Pensamentos do texto para meditar

  • No início do diálogo, anjo recorda que José é descente de David e, como tal, faz parte de um povo herdeiro de uma promessa. Assim como Maria dá o seu “sim”, José é convidado a dar o seu “sim” ao tornar possível a promessa de Deus aos seus antepassados.
  • A primeira entrega de Maria foi feita por Deus, através do anjo, a São José que deve acolher como sua esposa. A segunda entrega será na cruz onde também o discípulo recebe a mesma missão.
  • Há uma dor e uma incompreensão, mas quando José abre o seu coração à Deus, o mistério da salvação acontece e vence todas as dificuldades, mediante a ação do Espírito Santo.
  • José, ao dar o nome a Jesus, une-se mais intimamente ao projeto de Deus.