A “Casa da Capela” de Filipa Venâncio

A exposição que “recupera” imagens roubadas 

A Capela da Boa Viagem, ou de Nossa Senhora da Oliveira, localizada em Santa Maria Maior, acolhe até ao dia 2 de abril a exposição “Casa da Capela”, da pintora madeirense Filipa Venâncio. O Jornal da Madeira falou com a autora do projeto, que nos indicou no próprio espaço da capela as referências que a inspiraram.

Como surgiu este projeto?

Filipa Venâncio – Eu comecei a pensar neste projeto no verão de 2019. Foi quando tive o convite da parte da direção da Divisão de Cultura e Turismo da Câmara Municipal do Funchal para desenvolver um projeto neste espaço. Fiquei a pensar como é que iria intervir neste espaço. A questão do próprio espaço sempre me interessou. Nos projetos anteriores, a questão da arquitetura e dos espaços foram assuntos que sempre me interessaram, e muitas vezes trago os espaços do sítio onde estou a expor para o território da pintura. Isso aconteceu, por exemplo, numa exposição que eu evoco na folha de sala. Uma exposição que aconteceu em 2009, no Museu de Arte Contemporânea, onde intervim em todas as salas do museu, incluindo as celas, e fiz de conta que era uma moradia, habitada. Trouxe para a pintura a estrutura de cada sala, mas com possibilidades de moradia, com mobílias. As salas do rés-do-chão eram salas de jogos, aparece uma mesa de ping-pong, mesa de bilhar.

Essa ideia de integração do espaço na própria pintura também está patente nesta exposição?

Filipa Venâncio – De certa forma, aqui foi o recuperar um pouco essa ideia e trouxe também algumas referências que me interessam do ponto de vista do cinema e da literatura. Aqui há dois elementos que fizeram despontar todo o enredo, que foram justamente estas duas portas [ver fotografia]. Aquela que é um pouco mais enigmática [porta que fica ao alto]. Eu sei que esta capela já teve uma casa anexa, mas estas portas dificilmente seriam as originais. Estamos a falar de uma capela do século XVII. Estas portas possibilitaram um devaneio. Eu lembrei-me de um filme que tinha determinadas portas, que ficavam mais ou menos no mesmo sítio. O cenário de um filme italiano, relativamente recente, que se chama “Call me by your name” e que se passa numa “Villa”, na Lombardia. O que existe em comum entre este espaço e essa casa apalaçada, que foi feita a partir de uma fortificação do século XVI. Essa casa que se chama “Villa Albergoni”, cenário do filme, é do século XVII. Trouxe não só mobiliários, mas também locais da própria casa, nomeadamente esta lareira que aqui aparece [ver fotografia].

O cenário do filme serviu de inspiração para esta exposição?

Filipa Venâncio – Procurei também criar uma espécie de saltos, não só geográficos, mas também temporais e fílmicos. O filme, que é de 2017, passa-se no início dos anos 80. Há uma estética em alguns objetos que tem a ver com essa época. 

O elemento artístico está muito presente nestas obras. Vemos o piano, os quadros, os livros…

Filipa Venâncio – Um elemento muito subtil que aqui está, que aparece no filme, é o cartaz da 39ª edição da bienal de Veneza [ver fotografia]. Nessa altura eu tinha 15 anos, foi quando decidi optar pelas artes. 

Não fui buscar elementos só a esse filme. Interessou-me também outro filme, pela questão das plantas. É um filme sobre um pintor primitivista da Geórgia, do fim do século XIX, que é o filme “Pirosmani”. O filme é muito bonito visualmente, não só pelas pinturas do Niko Pirosmani, mas também pela envolvência. É uma estética que me agrada. A primeira cena prendeu-me logo. É um filme belíssimo. 

Nesta exposição, vemos a presença dos vários santos. Qual a razão desta referência? 

Filipa Venâncio – No quadro número 2 que representa um dos quartos da “Villa Albergoni”, decidi colocar a imagem de Nossa Senhora do Monte das Oliveiras, sobre uma cómoda, deslocando-a para a Lombardia.

Enquanto eu estava a construir toda esta narrativa, aconteceram episódios, e um deles foi o roubo de São José da igreja do Carmo. Depois, no Facebook, eu vim a saber que também tinha sido subtraído da igreja do socorro o Menino Jesus de Praga. Estes dois episódios, que eu soube através do facebook e de notícias que sairam nos jornais, achei que fazia sentido trazê-los para aqui. Estive a analisar o tamanho de cada um deles, a procurar imagens, e decidi colocar o São José, e curiosamente este é o ano de São José. 

Da mesma maneira que Nossa Senhora deu um salto a Itália eu decidi colocar ali o São José, e depois decidi colocar o Menino Jesus de Praga, da Igreja do Socorro. Soube também de um outro episódio um pouco mais antigo, que remonta a 2018. Outro roubo. Neste caso, em Santa Cruz, de Nossa Senhora dos Remédios. Coloquei-a aqui neste nicho, nesta biblioteca que pertence ao “Call me by your name” [ver fotografia]. Aqui está o espaço na capela de Nossa Senhora dos Remédios, em Santa Cruz, com o espaço vazio, onde Nossa Senhora já não está. Mas mantive estes arranjos com antúrios da capela de Nossa Senhora dos Remédios.

Não só trouxe as plantas da Georgia, como também decidi trazer as plantas de cá. Se bem que as plantas da Geórgia são muito as nossas. 

Há aqui umas pistas. Interessa-me não só o aspeto mais ou menos atrativo que as pinturas possam ter, mas também interessa-me fazer pensar através delas.

Estamos numa época onde a casa, ganha uma nova importância, por causa do confinamento. Nesta exposição vemos este ambiente doméstico, uma biblioteca, um quarto, uma sala. De alguma forma a nossa casa pode também ser lugar da presença do sagrado?

Filipa Venâncio – A casa, o elemento casa, enquanto objeto, enquanto arquétipo, sempre me interessou. O meu trabalho de pintura anda sempre à volta de casas, mesmo quando não são casas que pinto. Por exemplo, fiz há alguns anos atrás uma exposição no Museu de Arte Sacra, em 2018, que foi uma espécie de visitação de uma outra exposição que já tinha feito 10 anos antes, na Quinta Palmeira. Nessa altura, o dono da quinta convidou-me para fazer um trabalho a partir de um engenho, pois era o centenário desse engenho. Aquela peça industrial per si não me interessava muito. Pensei logo fazer a fábrica do açúcar. Pintei, fiz um conjunto de pinturas. É sempre um conjunto, é sempre uma sequência, uma narrativa, mais ou menos linear, com aspetos dos escritórios, das fachadas principais, e acabei por pintar o engenho Harvey. Dez anos depois, o Museu de Arte Sacra quis apresentar a exposição, mas decidi fazer um trabalho novo e o que fiz foi um camião cheio de canas. Foi pintado mesmo lá e ficou o camião a relacionar-se com as outras pinturas. Depois algumas pinturas ficaram a dialogar com a pintura flamenga. Isto para dizer que, mesmo quando pinto outros objetos ou viaturas, motas, carros, camiões, a casa é sempre o meu assunto. 

Para si, o que é a casa? 

Filipa Venâncio – É tudo isto que tenho vindo a representar ao longo destes 30 anos. Nasci numa casa. Na minha altura nascia-se em casa, sou filha única. Estive sempre muito ligada à casa. Gosto muito de ver casas e interior de casas. Às vezes são casas muito estranhas, com muitos anexos.

“O meu trabalho de pintura anda sempre à volta de casas, mesmo quando não são casas que pinto”.

Também reflete a própria história?

Filipa Venâncio – Esse interesse pela casa sempre aconteceu. É curioso que tenho estas pinturas relativamente pequenas, com muitos detalhes, com muitos pormenores, muito povoadas de objetos, de mobílias, de pinturas. Neste momento, numa outra galeria, a Galeria Marca d’Agua, há uma exposição que decorre lá que tem a ver com uma espécie de diálogos no feminino, com a artista Sónia Delaunay. Foram convidadas várias artistas. No meu caso, optaram por três pinturas grandes de 2002 que já tinham sido adquiridas. Não fiz um trabalho de novo para aquela exposição. São telas de 2002, são muito grandes, são casas vistas de fora e em que domina o vazio. É paradoxal porque aqui é tão pequeno e são povoadas, mas nas outras são enormes e estão vazias.

Uma capela que é vazia, enche de símbolos, objetos, referências ….

Filipa Venâncio – Aqui fazia todo o sentido que fosse representado o interior. Não só vario muito nos formatos, às vezes são telas muito pequenas, outras vezes são telas bastante grandes, mas vou oscilando sempre entre a representação da casa vista de fora e vista por dentro. Por exemplo, há uns anos atrás convidaram-me para expor na Casa das Mudas, e fiz uma espécie de viagem, do Funchal à Casa das Mudas, na Calheta, pela estrada antiga, como se não existissem túneis. O que aparece nessa exposição é um conjunto de situações, aparecem casas, aparecem pessoas, aparecem cães a andar, aparecem viaturas encostadas, enfim, uma série de elementos vistos do exterior. Aqui fazia sentido optar pelo contrário.

O conceito de viagem também está presente nesta exposição?

Filipa Venâncio – Neste caso o que proponho é uma espécie de viagem a determinados territórios dum filme que se passa na Itália, num filme que se passa na Geórgia. Estes trabalhos podem fazer despontar na nossa imaginação outras viagens. 

E a escolha de objetos dos anos 60 e anos 80?

Filipa Venâncio – É uma questão estética. Por exemplo, a casa que foi escolha para ser o cenário parcial do filme é uma casa apalaçada, mas, no filme, a casa aparece como sendo uma casa de alguém que já não tem possibilidades para a manter. Então a casa tem um aspeto um pouco desalinhado, isso também me interessa.

[atualizado às 22:30h]

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