“Nós estamos sedentos de Deus”

Jovens universitários realizaram a primeira Missão País na Madeira.

Pedras Vivas 28 de fevereiro de 2021

Durante uma semana, 35 jovens universitários realizaram, pela primeira vez na Madeira, uma Missão País. O contexto obrigou a diversas adaptações nas iniciativas programadas para os dias 15 a 22 de fevereiro. Mesmo com as restrições impostas pela pandemia foi possível realizar esta missão, que recorreu com criatividade às plataformas digitais para a realização de parte das atividades. 

No domingo, o Jornal da Madeira encontrou-se na Escola Teológica do Funchal com os chefes gerais da missão, Joana Freitas e João Pinto, e os missionários Catarina Nunes e João Pestana. 

“Nós estamos sedentos de Deus. E arranjar a coragem de se sentar à frente do computador todas as manhãs, em Zoom, e abstrair-se de tudo o que existe em casa, o computador que está mesmo à nossa frente, o telemóvel que está mesmo ali ao lado, abstrair-se disso tudo para poder entrar dentro de nós mesmos e rezar, é a maior missão que tivemos esta semana”, partilhou João Pinto, 23 anos. 

Joana Freiras

Joana Freitas | Foto: Jornal da Madeira

Perfil

Sou a Joana, tenho 22 anos, sou chefe geral da Missão País Madeira, vivo no Funchal, estudo na Universidade da Madeira, em Ciências da Educação, no terceiro ano. O meu processo cristão não começou logo… foi um processo. A minha família não é católica praticante, mas respeitam e gostam de ter uma filha tão próxima da igreja, quanto eu. O meu percurso passa muito por um testemunho vindo de pessoa para pessoa, em grupos de jovens. Comecei por ser animanda e depois comecei a animar, e desde que entrei na Universidade, entrei na Pastoral Universitária, muito por causa do Pe. Carlos. 

Onde era o Grupo de jovens?

Joana Freitas – Era nos Salesianos, na paróquia de Fátima, mais propriamente. Aqui estou eu à frente de uma missão e acho que é muito graças aos testemunhos que eu tive, e às pessoas que sempre me mostraram o caminho a seguir. 

“A Missão País é um grande sonho de muitas pessoas envolvidas (…) de uma Pastoral Universitária dinamizada por jovens” (Joana Freitas)

O que é ser chefe de uma Missão País?

Joana Freitas – Bem, a nossa Missão País não nasceu já. O meu testemunho enquanto chefe começou o ano passado, com a criação da “Missão Aqui”. Essa missão foi feita com os moldes da Missão País. 

A Missão País é um grande sonho de muitas pessoas envolvidas: os nossos estudantes lá fora, o Pe. Carlos, o nosso próprio bispo; de uma Pastoral Universitária dinamizada por jovens. A “Missão Aqui” foi um sonho muito bem concretizado e agora temos a Missão País. 

Na criação da “Missão Aqui” nós fomos chamados para ser chefes pelo Pe. Carlos e pela Irmã Teresa Pinho, que é uma irmã da Verbum Dei que nos acompanha. Ao nível de chamamento acho que é um chamamento lá de cima, porque nós fomos efetivamente escolhidos e sortudos por estar cá e organizar tudo para estes missionários. 

Como foi o vosso programa ao longo desta semana?

Joana Freitas – Os moldes desta semana passaram muito por uma adequação aos nossos tempos. Sem Covid seria muito mais comunitária e neste momento estaríamos no Campanário, que foi a comunidade que nós escolhemos para fazer missão. Na impossibilidade de lá estarmos, adequamos muito a nossa missão ao nível online, havendo também alguns momentos presenciais. Durante toda a semana tínhamos a parte da manhã ocupada no Zoom com a oração da manhã, com vários quebra-gelos e tele-desafios e o Angelus ao meio dia. Da parte da tarde voltávamos presencialmente. Tínhamos uma atividade de quebra-gelo, fizemos voluntariado e a Missa diária. Na Quarta-feira de cinzas, como é um dia especial, fizemos um peddy-paper que foi a subida ao monte. Não ao nosso Monte, literalmente, mas subimos até ao Castelo de São João, onde o peddy-paper nos conduziu a vários postos na cidade, onde eram feitas orações, reflexões e dinâmicas com os responsáveis dos postos, e depois tivemos Missa.

Como era constituído o grupo? 

Joana Freitas – Somos universitários e vamos para universitários. Abrimos as inscrições a nível nacional, onde temos várias pessoas do continente a fazer missão connosco. Seria muito melhor sem Covid, sem os distanciamentos e sem a máscara mas, na impossibilidade, estamos juntos na mesma através do Zoom. 

“Porque temes”, é Jesus que nos pede para ir para dentro do barco e avançar porque há caminho que tem que ser feito”(João Pinto)

Pedras Vivas 28 de fevereiro de 2021 (A4)

Pedras Vivas 28 de fevereiro de 2021 (A3)

Quaresma com São Tiago – Semana II (A4)

João Pinto

João Pinto | Foto: Jornal da Madeira

Perfil

Eu sou o João Pinto, tenho 23 anos, estudo enfermagem, estou a acabar o primeiro ano agora e a fazer algumas cadeiras do segundo. O meu percurso cristão já vem de família, somos uma família bastante crente. Como jovem, não ligava a nada disso. Não me fazia diferença. Entretanto, juntamente com a Joana, estive nos Salesianos, no Funchal, e a partir daí fui cultivando a semente da fé, até me questionar sobre a vocação, indo à procura dessa resposta. Estando na Universidade da Madeira, fui abordado pelo Pe. Carlos para poder fazer parte do Departamento da Pastoral do Ensino Superior e a partir daí criar uma missão que envolvesse todos os jovens, para realmente mostrarmos que a fé é vida e que Cristo vive dentro da Universidade da Madeira. 

Este ano fomos contactados pela Missão País, que perguntou se queríamos mesmo fazer a Missão País aqui na Madeira. Dissemos logo que sim e a partir daí foi uma aventura. 

Quais foram os desafios que encontraste para esta missão? 

João Pinto – Foram bastantes. Nomeadamente, os moldes. A Missão País é uma missão muito comunitária. Nós íamos para o Campanário, tínhamos falado com o pároco, com o presidente da Junta, e tínhamos pensado fazer a semana de missão mesmo com as pessoas da comunidade. Sempre estivemos atentos ao parecer da DGS sobre avançar ou não com a missão. Não queríamos prejudicar as comunidades. Atendendo ao que a DGS dizia, decidimos não realizar a Missão País a nível nacional. Contudo, foi sempre deixado à liberdade de cada missão conseguir conciliar as duas coisas. Nesta semana, houve 22 missões que fizeram a sua semana de missão nos moldes que eram possíveis. Aqui na Madeira, graças a Deus, conseguimos ter alguns momentos presenciais, de partilha, obviamente com as distâncias, máscaras e tudo mais e também a oportunidade de celebrar a Eucaristia porque, de facto, é o foco. Tendo esta oportunidade, todos os desafios que fomos encontrando passaram ao lado. 

O grande desafio foi conseguir adaptar e conseguir que esta missão fosse realizada e bem preparada.

“O facto de sermos todos jovens faz-nos pensar que também existem outras pessoas da mesma idade que também vão à missa, também rezam. Eu não estou sozinha” (Catarina Nunes)

Pode explicar o lema que vos acompanha e que está nas vossas t-shirts?

João Pinto – Em dezembro tivemos um retiro chamado retiro expansionário online, direcionado às novas missões. Esse retiro foi, em primeiro lugar, o lançamento do hino, da cor e do lema, que é um momento de grande emoção. Tivemos todos os chefes reunidos, no paço episcopal, a fazer esse retiro e a aproveitar para criar uma boa relação entre a equipa. Quando o lema sai, diz: “Porque temes? Sou Eu”, e a cor verde. É o verde da esperança. Uma esperança que Deus realmente está connosco. Um Deus que se fez homem e continua a querer fazer caminho connosco. “Porque temes”, vivemos num período de aflição onde, se calhar, não conseguimos ver um Deus que é Pai, que é Amor, que está presente no meio de nós. “Porque temes”, é Jesus que nos pede para ir para dentro do barco e avançar porque há caminho que tem que ser feito, mas ao mesmo tempo é um Jesus que sobre o mar diz-nos: “Não temas, sou Eu, caminha para mim, estou aqui”. E nós cheios de pujança vamos atrás Dele. Ao longo da semana fomos destruturando este evangelho e percebendo que é um convite e uma resposta. Foi uma bela dinâmica, muito bem preparada pela nossa equipa de oração, que nos ajudou a rezar e meditar este lema, que é muito querido para nós. 

Como estão organizadas as equipas dentro da Missão País?

João Pinto – A equipa de chefes da missão é constituída por oito pessoas, sempre rapaz e rapariga. Os chefes gerais, que sou eu e a Joana, e dois chefes de serviço, que são o Johnny e a Mariana, que tratam de toda a logística. Depois temos uma equipa de teatro, a Jacinta e o Hugo, que recebem um guião de um teatro feito por uma equipa nacional. Este ano não houve esse teatro, mas arranjamos um modo de fazer uns vídeos em casa e juntar tudo. Temos também a equipa de oração, que são a Carolina e o Pedro Pita, que nos ajudaram imenso a rezar. O trabalho deles foi muito exigente este ano, pelas condições que foram, mas de facto foi uma missão muito grande, porque nós estamos sedentos… nós estamos sedentos de Deus. E arranjar a coragem de se sentar à frente do computador todas as manhãs, em Zoom, e abstrair-se de tudo o que existe em casa, com o computador que está mesmo à nossa frente, o telemóvel que está mesmo ali ao lado, abstrair-se disso tudo para poder entrar dentro de nós mesmos e rezar, é a maior missão que tivemos esta semana e foi, de facto, muito boa. 

Catarina Nunes

Catarina Nunes | Foto: Jornal da Madeira

Perfil

Sou a Catarina Nunes, tenho 19 anos, sou madeirense, estudo em Lisboa na Universidade Europeia, onde frequento o segundo ano de Direito. A minha relação com Deus começou nos Salesianos, onde frequentei do primeiro ao nono ano, mas criou-se devido ao grupo de jovens MJS. 

Como soubeste desta missão?

Catarina Nunes – Desde o primeiro ano que entrei na faculdade, sempre quis fazer a missão. Em Portugal Continental têm mais consciência desta Missão País e está muito vincado nas faculdades e nas pessoas com quem me cruzei. Não fiz no primeiro ano. Tinha vinte e cinco dias de férias e pensei “fogo, vou perder as férias para fazer missão e quero estar em casa com a minha família”, porque também é o primeiro ano, tempo de adaptação, então optei por não fazer. Este ano, mal soube que havia na Madeira, pensei que era a melhor oportunidade de fazer missão e, ao mesmo tempo, fazer em casa. 

Valeu a pena?

Catarina Nunes – Vale sempre a pena, principalmente cá na Madeira, que é o primeiro ano, é a primeira experiência, e é todo um mundo novo. Claro que é uma pena não ser nos moldes que era suposto ser. É mais difícil ser nestes moldes, mas vale sempre a pena.

O que mais te tocou nesta semana?

Catarina Nunes – Primeiro, o evangelho que refletimos durante esta semana, porque efetivamente Jesus chama Pedro a andar sobre as águas, e há uma parte em que ele duvida e começa a afundar-se, e a nossa relação com Deus também é isto. Eu acho que ninguém acredita a 100%. Toda a gente tem dúvidas, toda a gente também se afoga e é preciso reconhecer e deixar-se ser ajudados. Esta semana foi sobre isso que nós refletimos. 

O facto de sermos todos jovens faz-nos pensar que também existem outras pessoas da mesma idade que também vão à missa, também rezam. Eu não estou sozinha. Juntos é sempre tudo mais fácil.

“Nós, nesta semana, abdicamos de quase tudo o que tínhamos e fomos viver a fé, trazer às pessoas a Palavra de Deus. Tivemos um papel de discípulo e isso foi incrível” (João Pestana)

João Pestana 

João Pestana | Foto: Jornal da Madeira

Perfil

Sou o João Pestana, estou cá a estudar na Madeira, tenho 19 anos, estou no segundo ano de Medicina. A minha vida católica devo muito a uma catequista que tive, que é a professora Isabel Silva. Tive catequese com ela na igreja de São José. Sempre nos incentivou a praticar o cristianismo de uma forma mais ativa. Havia sempre muita ajuda à comunidade e ao próximo. E depois tive o Pe. Carlos, que eu acho que é uma mais valia para a Madeira, porque é um padre que se aproxima dos jovens. Os chefes também tiveram um papel fundamental, sempre prontos a ajudar. Tiveram um papel muito difícil porque houve muitas adaptações, mas tentaram sempre arranjar uma solução.

Como viveste a missão?

João Pestana – O que quero destacar desta missão: acho que esta missão foi incrível porque é como nós sentimos o verdadeiro cristianismo. Destaco o que D. Nuno nos disse na homilia, de que estamos a fazer o verdadeiro papel do discípulo. Isso enquadrou perfeitamente no que eu estava a achar que era esta missão. Nós, nesta semana, abdicamos de quase tudo o que tínhamos e fomos viver a fé, trazer às pessoas a Palavra de Deus. Tivemos um papel de discípulo e isso foi incrível.