Instrução e a catequese a partir da beleza artística (2)

Capela Sistina | D.R.

Por sua vez, o Papa Emérito, Bento XVI, no já referido discurso aos artistas na Capela Sistina afirmava que:

«A beleza que se manifesta na criação e na natureza e que se expressa através das criações artísticas, precisamente pela sua característica de abrir e alargar os horizontes da consciência humana, de remetê-la para além de si mesma, de aproximá-la ao abismo do Infinito, pode tornar-se um caminho para o Transcendente, para o Mistério último, para Deus. A arte, em todas as suas expressões, no momento em que se confronta com as grandes interrogações da existência, com os temas fundamentais dos quais deriva o sentido do viver, pode assumir um valor religioso e transformar-se num percurso de profunda reflexão interior e de espiritualidade. Esta afinidade, esta sintonia entre percurso de fé e itinerário artístico, confirma-a um número incalculável de obras de arte que têm como protagonistas as personagens, as histórias, os símbolos daquele imenso depósito de “figuras” – em sentido lato – que é a Bíblia, a Sagrada Escritura. As grandes narrações bíblicas, os temas, as imagens, as parábolas inspiraram numerosas obras-primas em todos os sectores das artes, assim como falaram ao coração de cada geração de crentes mediante as obras do artesanato e da arte local, não menos eloquentes e envolvedoras»1. 

A Igreja propõe a Via Pulchritudinis2 experiência simples de encontro com a beleza, que causa assombro e emoção3. A Assembleia Plenária do Pontifício Conselho da Cultura ajuda a Igreja a transmitir a fé em Cristo, mediante uma pastoral que responda aos desafios da cultura contemporânea4. Deste modo, a presente Assembleia apresenta-se com projetos e propostas concretas para ajudar a todos a seguir a Via Pulchritudinis, como caminho de evangelização das culturas e de diálogo como os não-crentes, conduzindo-os a Cristo que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6)5. Na verdade, a presente Assembleia corresponde a um caminho já iniciado e percorrido em 2002, com o tema “Transmitir a fé no coração das culturas, novo millennio ineunte” e posteriormente em 2004 com o tema “A fé cristã na aurora do novo milénio e o desafio da descrença e da indiferença religiosa”.

Também nessa dimensão da arte, a Igreja aceita o desafio de obedecer à missão, de levar os homens a Jesus Cristo mediante os meios ao seu alcance. A Via Pulchritudinis apresenta-se como um itinerário privilegiado para atingir muitos dos que se sentem sérias dificuldades para receber o ensinamento6. O Caminho da Beleza, simples experiência do encontro com a beleza, pode abrir a estrada da procura de Deus e dispor o coração e a mente para o encontro com Cisto, Beleza da Santidade Encarnada, oferecida por Deus aos homens para a sua salvação7. Da beleza sensível vai-se à Beleza Eterna. 

Abordando a Via Pulchritudinis, há que clarificar que se trata da beleza que permite a transmissão da fé mediante a sua capacidade de atingir o coração das pessoas, de exprimir o Mistério de Deus e do homem; trata-se de uma genuína “ponte”, onde os homens e mulheres do nosso tempo podem aprender a apreciar o belo, e a encontrar a beleza do evangelho de Cristo8. A Via Pulchritudinis é um excelente caminho de evangelização9. A beleza «contemplada com ânimo puro», «fala diretamente ao coração, eleva interiormente da estupefação ao maravilhamento, da admiração à gratidão, da felicidade à contemplação»10. Além disso, a Via Pulchritudinis responde ao desejo íntimo de felicidade, que se esconde no mais profundo do coração humano, abrindo-lhe novos horizontes, fazendo-o passar do «efémero instante que passa» ao Transcendente e ao Mistério»11. No seu desejo de felicidade e de absoluto, o homem pode encontrar nessa beleza original «o próprio Deus, criador de toda a beleza criada»12. Diz São João Paulo II, que a arte «constitui uma espécie de ponte que leva à experiência religiosa», «o artista torna-se a voz da esperança universal de redenção»13. 

A arte é, efetivamente, um meio privilegiado de evangelização14. A Via Pulchritudinis, partindo do objeto artístico, tem, como se afirmou, essa virtualidade de atingir o homem no seu âmago, conduzindo-o do apreço pela beleza visível à perceção do mistério de Deus e do seu próprio mistério humano15. Nesse esforço contínuo de ajudar os homens e mulheres do nosso tempo a passar do simples encontro com o belo ao encontro com a beleza do Evangelho de Cristo, aí a Igreja pela sua missão, anuncia a Boa Nova do Evangelho a todos os homens de boa vontade. Quando se apresenta ao público uma obra de arte inspirada pela fé, enquadrada na sua função religiosa, esta revela-se como uma «via» ou um «autêntico caminho de evangelização e de diálogo»16, uma vez que ela, além de ser expressão do património vivo da Igreja, traduz o próprio mistério da fé cristã 17.    

 O Papa Bento XVI convidava a utilizarmos os «tesouros da arte que exprimem a fé e nos exortam à relação com Deus»18, presentes no mundo inteiro, não só como ocasião de enriquecimento cultural, mas sobretudo como «um momento de graça»19, permitindo que «o raio de beleza que nos atinge, que quase nos “fere” no íntimo», nos conduza a elevarmo-nos «rumo a Deus»20.