A Quaresma à luz da neurociência do pecado

D.R.

Deveria antes dizer a ciência do pecado (Jack Lewis) em quarta-feira de cinzas. É só o começo da Quaresma. No seu capítulo 6, S. Mateus parece ter feito profecias sobre a neurociência dos sete pecados como filhos do orgulho. Orgulho, mas ela diz narcisismo, ego excessivo, que pode ser megalomania e alcançar o delírio da grandeza e a loucura de ser o maior, ser Deus. A leitura de Mateus ajuda o exame: fazer boas obras para ser visto; dar esmola e ser filantropo com toque da trombeta para ser louvado; orar nas praças para ser reverenciado; pôr a máscara da tristeza depois de jejuar para parecer santarrão. Virá tudo isto de ser orgulhoso? E será científico? Vem o neurocientista faz umas perguntas (inventário de narcisismo) pede respostas de introspeção ao sujeito examinado com ressonância magnética e fica a observar o cérebro a cintilar, aqui e ali. Cá está! Afinal pode-se estudar cientificamente o orgulho, a vaidade, a mania de grandeza. E será que deixará de ser pecado e de pedir humildade e conversão na Quaresma?

Se a grande loucura pode não ser culpada, mas na pequena pode haver erro e pecado. Os neurocientistas não estudam só a soberba orgulhosa. Vão até ao século VII perguntar a Gregório Magno, que pelos vistos era um sábio, para decidir se os pecados capitais são mesmo sete e se se pode concluir que o orgulho é a raiz de todos. E Gregório diz que sim; e, depois dele, outros chegaram ao mesmo consenso. E, hoje, os neurocientistas que dizem? No meio do silêncio e da tendência em denegrir os valores da cultura judaico-cristã, é surpreendente que alguns (por exemplo, Jack Lewis) tenham descoberto valor científico nas literaturas históricas sobre os pecados mortais do catecismo. Será que a avareza e ganância, a luxúria sexual e outras, a inveja das grandezas dos outros, a violência da ira e raiva por eles serem maiores, a gula gastronómica e a de consumos sumptuosos, a preguiça de indiferença e negligência — brotam das raízes da vaidosa soberba? E haverá ciência para descobrir? Parece que este cientista encontrou evidências que sim. Os neurocientistas estudam os desejos (e hábitos maus) irresistíveis e descobrem que vêm da mesma raiz de querer ser os maiores, como o cristianismo milenar o afirma. Não apenas querer ser rico, riquíssimo, mas situar-se entre os mais ricos; e até ser o mais rico, pelo menos no seu país ou na sua área de mercado, lucros e corrupção. Nas conversas de todos os dias, há maneiras simples de dizer o mesmo: quer ser o maior, pensa que é o maior, fala como se fosse o mais santo, vende-se por preço exagerado, julga-se um deus. E o cérebro confirma isso para os sete pecados.

Ainda estamos só no princípio da Quaresma e já os sete pecados! Desejos irresistíveis, tentações da vaidade, hábitos dependentes, viciosos e incorrigíveis, pretensões de ser como Deus, pôr-se à frente dos outros; numa palavra, dependências patológicas em psiquiatria, antigas e modernas; ou então, hábitos vistosos e vergonhosos.Todos vão desfilar ao longo da Quaresma em leituras intemporais de sabedoria-ciência. Venham os neurocientistas e os seus aprendizes estudar o cérebro e responder: «porque escolhemos fazer o que não devemos» e ajudem a fazer a introspeção do exame de consciência. Na verdade! De contrário, vem o vírus coroado propor ou forçar um pouco de humildade no meio do caos, (a cinza da 4ª f. também pede humildade).

É já a segunda Quaresma em que o vírus-rei se mantém a impor essa virtude. No primeiro domingo, (dia 21), releem-se algumas razões dos desejos desordenados destes pecados; e os estudiosos dos meandros do cérebro ajudam com as suas explicações científicas. Jesus aguentou essas tentações durante quarenta dias e nós podemos ter de lhes resistir quarenta e oitenta anos. Resistir à mentira de querer mostrar que se é poderoso como Deus quando se trata de comer sem trabalhar; desejar pôr Deus ao próprio serviço para ser visto, louvado e adorado; e querer o ser o mais rico do mundo. Só isso; ser o mais rico, a troco de nada: adorar o diabo, como o deus do rico. Afinal tentações que brotam da pride/ raiz dos pecados. Já chega de pride/vaidade em vez de verdade e humildade.

Os cientistas do cérebro propõem-se controlar os desejos irresistíveis: ajudar a liberdade ou fazer robots? Veremos depois como. E a Quaresma que propõe? Boa Quaresma e cuidem-se na pandemia!