Na pandemia “têm aumentado os pedidos de ajuda” – Diamantino Santos

Diamantino Santos fala da missão das Conferências de S. Vicente de Paulo

Pedras Vivas - 21 de fevereiro de 2021

No primeiro domingo de Quaresma, a Família Vicentina costuma reunir-se na escola da APEL para um dia de encontro, reflexão e oração. Este ano, por força da pandemia, o Dia Vicentino foi cancelado. No entanto, os 500 membros das 33 Conferências de São Vicente de Paulo da Madeira e Porto Santo continuam a sua missão em atender às carências diversas provocadas por esta pandemia, particularmente a nível da alimentação, saúde, habitação e educação, atuando muitas vezes, onde mais nenhuma instituição está presente no terreno.

O presidente do Conselho Central do Funchal das Conferências de São Vicente de Paulo, Diamantino Santos, partilhou com o Jornal da Madeira a ação dos Vicentinos. 

O que é o Dia Vicentino?

Diamantino Santos – Na estrutura da própria Sociedade de São Vicente de Paulo, o encontro é sempre um momento forte, por isso é que as próprias conferências e o conselho se devem reunir. Um dos princípios da regra diz que durante o ano haja dois momentos de maior reflexão. O dia Vicentino é um momento para as próprias pessoas se conhecerem, porque as Conferências estão distribuídas geograficamente num espaço que parece pequeno mas é grande. O dia Vicentino é também troca de experiências. Além da reflexão que normalmente acontece na parte da manhã, havia na parte da tarde um breve momento em que as Conferências davam testemunho daquilo que iam sentido e fazendo nas paróquias. 

Decidimos reservar o primeiro domingo da Quaresma para este Dia Vicentino. Inicialmente o encontro realizava-se no Hospício, mas como o número de Conferências foi aumentando tivemos a graça de encontrar a APEL. Um espaço ótimo e uma abertura muito grande, desde o senhor padre David até ao senhor padre Fernando.

Na reflexão para a parte da manhã normalmente convidamos um sacerdote, ou alguém com experiência na formação dos cristãos, para apresentar um tema ligado à pastoral do Papa, mensagem da Quaresma ou outros temas. 

O outro momento de encontro realiza-se no final do mês de outubro. Nesse há um momento mais administrativo, de balanço. Tem sido no Hospício Dona Maria Amélia. Apesar da pandemia, conseguimos realizar esse encontro no ano passado. 

Na festa de Cristo Rei também nos reunimos no monumento no Caniço. Também é um momento especial. A presença do senhor bispo também engrandece esse momento, com grande colaboração da paróquia do Caniço, do pároco e da Conferência do Caniço. 

Também costumamos fazer o retiro, no penúltimo ou no último domingo de janeiro. Este ano não foi possível realizar-se devido ao confinamento. 

“O essencial é ir ao encontro do irmão que está mais carenciado (…) Detetar na própria comunidade onde a Conferência está inserida os casos de maior necessidade e poder ajudar de uma forma discreta”

Qual é a ação das Conferências de São Vicente de Paulo?

Diamantino Santos – Na Madeira e Porto Santo existem 33 Conferências, com o envolvimento de cerca de 500 membros. O essencial é ir ao encontro do irmão que está mais carenciado, em diversas áreas. Detetar na própria comunidade onde a Conferência está inserida os casos de maior necessidade e poder ajudar de uma forma discreta, e encaminhar. As conferências não têm verbas disponíveis e, portanto, muitas vezes o nosso papel é acompanhar, visitar. Nesta pandemia, o que mais nos atraiçoou foram as visitas. Porque a visita domiciliaria é muito difícil de fazer. A visita é a essência da própria conferência. Mas o visitar não é só ir e bater á porta. Podemos visitar de tantas maneiras, telefonando ou conversando na rua, ou acolhendo uma pessoa que se dirige a nós. Ao nível dos apoios, as Conferências ajudam sobretudo a nível da alimentação, saúde, habitação e educação.

Diamantino Santos, presidente do Conselho Central do Funchal das Conferências de São Vicente de Paulo | Foto: P. Giselo Andrade

Pedras Vivas 21 de fevereiro de 2021 (A4)

Pedras Vivas 21 de fevereiro de 2021 (A3)

Na Madeira, para além das Conferências nas paróquias, também há uma Conferência Vicentina na Escola Francisco Franco. Como surgiu essa ideia?

Diamantino Santos – No passado, na história das Conferências, elas existiam nas escolas, nas oficinas. Principalmente no norte do país, na área metropolitana do Porto, a indústria têxtil, as fábricas, o calçado, tinham Conferências. 

A nossa Conferência na escola nasceu em 1988. Nasceu porque havia uma discrepância na época entre o liceu e a escola industrial. Graças aos professores, foi possível criar esta Conferência. Hoje, toda a escola apadrinha a Conferência. Neste tempo de pandemia fizemos duas feiras na escola, quando a escola era presencial. Uma feita pela própria Conferência da escola e outra dinamizada pelo grupo dos professores de inglês. O grupo de filosofia também organiza uma feira por ano. Com estes apoios, a nossa Conferência consegue ter uma base de sustentação para ajudar os alunos, essencialmente na alimentação, mas também a nível da saúde, alunos que precisam de consultas, essencialmente da vista, ou fazer exames. Há uma ligação forte com o conselho executivo, que ajuda e promove, por exemplo, os jantares de natal. No natal passado naturalmente não foi possível.

“Neste período que vivemos têm aumentado os pedidos de ajuda, devido ao agravamento das condições económicas e sociais das famílias, ao aumento do desemprego, à solidão e ao número dos doentes”.

Considera que os efeitos da pandemia vêm tornar a presença dos Vicentinos ainda mais necessária?

Diamantino Santos – Neste período que vivemos têm aumentado os pedidos de ajuda, devido ao agravamento das condições económicas e sociais das famílias, ao aumento do desemprego, à solidão e ao número dos doentes. Mas o papel das Conferências vai depender muito do dinamismo da própria Conferência e dos seus elementos. O papel dos párocos também é determinante. 

Atualmente estamos em muitas paróquias, mas gostaríamos de estar em outras mais, até porque a realidade está a exigir uma maior presença.

No Natal, muitas instituições deram cabazes, isso é bom, mas um cabaz é muito pouco para uma família com grandes dificuldades. 

Eu penso que as Conferências atuam ao longo do ano desde que tenham disponibilidade. Aquelas que dão produtos alimentares, dão ao longo do ano e também fazem o acompanhamento da própria família. 

Algumas Conferências têm a preocupação de estabelecer parcerias, até com a Junta de Freguesia e Casa do Povo. Também acontece, quando uma Conferência tem excesso de produtos, partilhar com outra que precisa. 

Quando as Conferências têm maior dificuldade financeira recorrem ao Conselho Central. No ano passado, das 33 Conferências, 20 pediram ajuda. 

De onde vêm os recursos das Conferências?

Diamantino Santos – Algumas conferências recebem apoio do banco alimentar, outras organizam peditórios, pequenas feiras, e outras recebem donativos de produtos alimentares colocados em cestos nas igrejas. Por exemplo, no Natal algumas Conferências fizeram uma lapinha de escada com a ajuda da catequese ou outros movimentos da paróquia, onde as pessoas podiam levar os produtos para doação. No passado, a diocese, no Dia Vicentino, deu-nos uma ajuda. 

“As Conferências atuam ao longo do ano desde que tenham disponibilidade”.

No momento presente, como vê as conferências?

Diamantino Santos – Nalguns casos, as Conferências estão mais enfraquecidas. Temos dificuldade na renovação dos próprios elementos. 70% dos ativos nas Conferências têm mais de cinquenta anos. Não quer dizer que não entre elementos novos, e algumas Conferências têm essa dinâmica, mas a maioria não tem. Por exemplo, nas Preces [Machico] vai tomar posse a nova direção, há uma dinâmica. Em novembro fomos a Santa Cruz. 

O que se poderia fazer melhor? 

Diamantino Santos – Esta dinâmica pode falhar quando falta a reunião, se não houver o dinamismo e o compromisso de reunir e de fazer aumentar e motivar o próprio grupo. É fácil pedir para ajudar na distribuição, mas as Conferências implicam mais do que isso. Um dos momentos da reunião é a reflexão espiritual, em que se faz uma leitura do boletim de São Vicente de Paulo ou da mensagem do Papa. A oração é importante porque vem unir e consolidar.