Habitar o silêncio

D.R.

No início do mês, a RTP transmitiu uma entrevista a Rui Veloso. Guardei para esta Quaresma uma das suas frases. “A nossa vida tem música a mais. Nós precisamos do silêncio. A figura mais importante da música é o silêncio, que é o intervalo entre duas notas”, disse. 

Parece que o contexto atual de confinamento e maior permanência na própria casa, em vez de reduzir o excesso das palavras, pelo contrário, veio ampliar a tal “música a mais”.

Com muita facilidade ficamos presos nas redes sociais e nos programas televisivos e noticiosos. A informação é ininterrupta, como as águas caudalosas de um rio que não diminui o seu fluxo. Se não conseguirmos fechar essa porta e encontrar um tempo de paragem e reflexão, somos absorvidos pela torrente.

A OMS declarou que a “infodemia”, entendida como “epidemia de informações”, o excesso de informações sobre um assunto específico, designadamente sobre a Covid-19, contribuiu para a desinformação, com graves consequências na saúde pública. “As pessoas podem sentir-se ansiosas, deprimidas, sobrecarregadas e emocionalmente exaustas”. 

Para que Deus faça morada em nós é preciso jejuar, “libertar a nossa existência de tudo o que a atravanca, inclusive da saturação de informações – verdadeiras ou falsas – e dos produtos de consumo”, disse o Papa na mensagem para a Quaresma.

Mies Van der Rohe, um dos nomes que mais influenciou a corrente moderna da arquitetura, gostava de afirmar: “Menos é mais”.

Assumir uma atitude de consumo minimalista em relação aos meios informativos e de entretenimento significa ter menos, para ser mais. 

Recordou Tolentino Mendonça: “Os padres do deserto tinham por hábito acolher numa hospitalidade silenciosa. Quando acolhiam um amigo que não viam há muitos anos, não lhe diziam nada. Explicavam: se o meu silêncio não te acolher, a minha palavra ainda menos”.

Nesta Quaresma basta estar e simplesmente ser. É Deus quem bate à porta. Não é preciso andar à procura de mais explicações ou chaves de leitura. Basta que, no recolhimento de mim, possa habitar o silêncio.