Bispo do Funchal exortou os fiéis a viver a Quaresma para se tornarem mais cristãos e mais humanos

Foto: Duarte Gomes

O bispo do Funchal presidiu esta quarta-feira, dia 17 de fevereiro, na Sé do Funchal, à Missa da Quarta-feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, afirmando que este deve ser um tempo de reconhecimento de que somos pecadores e de que temos um caminho a percorrer, de modo a chegarmos à Páscoa “mais humanos, mais cristãos, mais divinos, mais vivos”.  

Não se trata, disse o prelado, de “ignorar as nossas qualidades, nem tão-pouco o caminho que já realizámos. Trata-se, isso sim, de nos darmos conta de como é importante o caminho que ainda precisamos de percorrer; aquelas realidades que necessitamos de mudar no concreto da nossa vida, para nos irmos aproximando e vivendo, cada dia mais e melhor, o amor de Deus que veio ao nosso encontro em Jesus de Nazaré”, frisou.  

É por isso que, “como o atleta que diariamente treina e que, num determinado período do ano, “entra em estágio”, também nós começamos hoje este verdadeiro tempo de estágio, de retiro cristão que é a Quaresma”, explicou D. Nuno.  

Na sua homilia, cujo ponto de partida foi precisamente a súplica de Quarta-feira de Cinzas “pecamos, Senhor, tende piedade de nós!”, D. Nuno Brás refletiu sobre o estado da sociedade atual, lembrando que se espera que uma sociedade constituída na sua maioria por cristãos, “tenha um rosto cristão”, o que não acontece.  

Na verdade, frisou, “vivemos numa sociedade que promove o egoísmo”, onde “muitos não têm o suficiente para viver”, que vive “para ter e não para ser”, em que “o valor supremo é o consumo” e onde “muito facilmente a vida humana é espezinhada, desde o ventre materno ao seu fim natural”.  

É por estas razões, entre outras que enumerou, que D. Nuno Brás defende que “a nossa vida em sociedade precisa, também ela de conversão. Precisa, também ela, de Quaresma!”.  

“Sabemos, por experiência, que nem tudo ficará resolvido ao chegarmos à Páscoa do Senhor. Mas sabemos, igualmente, que o caminho se faz caminhando, e que importa deixar que o Espírito do Senhor, vindo aos nossos corações, vá moldando o nosso existir e o torne mais semelhante a Jesus”, desenvolveu D. Nuno Brás.  

O prelado, que lamentou o facto de nós cristãos sermos “tão pouco Igreja”, de “mostrarmos tão pouco ao mundo a felicidade de ser cristão”, concluiu desejando que “o Senhor nos ajude a não desistir a meio do caminho por causa do cansaço, de modo a chegarmos à sua Páscoa mais semelhantes a Ele — que o mesmo é dizer: mais humanos, mais cristãos, mais divinos, mais vivos.”  

Após a homilia, decorreu bênção das Cinzas e a sua imposição. Este ano, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos (Santa Sé) emitiu disposições que foram seguidas pelo celebrante no rito de imposição das Cinzas, para evitar a propagação da Covid-19.  

De referir que esta Eucaristia, que marcou também o segundo aniversário da tomada de posse de D. Nuno como bispo do Funchal, foi concelebrada pelos bispos eméritos e por outros sacerdotes, e que nela participaram o presidente da Assembleia Legislativa Regional e os jovens que desde o passado dia 15 estão a participar na primeira Missão País que a Diocese do Funchal recebe e sobre a qual o Jornal da Madeira irá falar-lhe num outro apontamento. 

Dirigindo-se à assembleia e a todos quantos o ouviam e viam através do PEF e do Facebook da Sé D. Nuno pediu que rezassem por ele, para que “o Senhor me ajude e assista, me dê coragem e persistência para ser para vós esta Sua presença e convosco fazer também uma caminhada cristã”. 

Leia na íntegra a homilia do bispo diocesano:  

QUARTA-FEIRA DE CINZAS 

Sé do Funchal, 17 de fevereiro 2021 

“Pecámos, Senhor, tende piedade de nós!”

  1. “Pecámos, Senhor, tende compaixão de nós!” — esta é a súplica que hoje, cada um de nós dirige a Deus. E, connosco, toda a Igreja.

Somos pecadores. Diante dos nossos olhos, surge o Crucificado, Cordeiro levado ao matadouro, Servo sofredor que carrega o peso do pecado do mundo, manifestação do quanto cada um de nós é importante para o Pai.

Diante de nós, surge Deus que não hesita em viver a morte para nos oferecer a vida. Deus que rasga o muro que nos separava dele (o muro que nos condenava aos limites do mal), para, finalmente, podermos entrar na glória — na Sua glória! Deus que vive o abandono dos condenados à morte para, através da graça do batismo, nos reunir a todos no único corpo de Cristo.

Diante do amor de Deus que se manifesta em Jesus crucificado, descobrimos quem somos e a vocação divina que cada um traz dentro de si (a vocação à santidade). Ao mesmo tempo, percebemos a nossa falta de amor, e de como ela vai corroendo a nossa vida. E percebemos, ainda, que não podemos ficar parados no que já somos (e, muito menos, no que já temos). Diante do amor de Deus que assim se manifesta, como poderia cada um de nós negar o convite para percorrer, com Jesus e com os irmãos, o caminho da Quaresma?

  1. Diante do amor assim manifestado, cada um de nós percebe-se pecador. Em pensamentos e palavras, em actos e omissões, como reconhecemos no início de cada Eucaristia. Pecamos nas nossas atitudes para com Deus, para com os nossos semelhantes e para connosco mesmos. Pecamos no segredo dos nossos pensamentos, dos juízos que realizamos; pecamos nas palavras que dizemos e que tantas vezes matam o nosso próximo; pecamos nas nossas acções, nas atitudes, naquilo que fazemos; pecamos porque omitimos, porque esquecemos, porque nos demitimos, preferindo o nosso conforto pessoal.

Somos pecadores. Não se trata de ignorar as nossas qualidades, nem tão-pouco o caminho que já realizámos. Trata-se, isso sim, de nos darmos conta de como é importante o caminho que ainda precisamos de percorrer; aquelas realidades que necessitamos de mudar no concreto da nossa vida, para nos irmos aproximando e vivendo, cada dia mais e melhor, o amor de Deus que veio ao nosso encontro em Jesus de Nazaré.

Pecámos, Senhor, tende piedade de nós!

  1. Mas cada um de nós faz parte de uma sociedade. Integramo-la; contribuímos para a sua existência e para a sua vida. Quem dá a uma sociedade os valores, o seu modo de ser e de viver são aqueles que nela vivem e que a constroem. E — não tenhamos dúvidas — assim como recebemos tanto desses valores, herdados de quantos viveram antes de nós, do mesmo modo cada um e todos somos responsáveis pelo mundo que deixaremos àqueles que hão de viver depois de nós.

A sociedade em que vivemos: o seu modo de viver, os valores que regulam as relações entre os seus membros nos vários domínios da vida humana são, em grande parte, inspirados no cristianismo. Até as suas festas têm, em grande parte, uma origem cristã… Os ritmos da nossa sociedade ocidental encontraram na sua maioria, a razão de ser no cristianismo! Idealmente, estas festas e ritmos sociais deveriam ajudar-nos a viver como cristãos, a caminhar como cristãos e a transformar, a converter o coração daqueles que ainda não têm fé.

Como cristãos, contribuímos para a vida e o desenvolvimento social. Somos nós, cristãos, que votamos; somos nós, cristãos, quem escolhe o programa de televisão que vemos, e as redes sociais que frequentamos; somos nós, cristãos, que trabalhamos, produzimos, convivemos.

Mas, também aqui, não podemos deixar de reconhecer o pecado. A nossa relação com Deus não passa apenas pelo segredo da nossa consciência. A nossa relação com Deus passa por toda a nossa existência. E, por isso, passa também pela vida da sociedade em que nos inserimos, em que vivemos e que nos ajuda a viver.

De uma sociedade, como é a nossa, constituída na sua maioria por cristãos, espera-se, necessariamente, que tenha um rosto cristão. E devemos reconhecer que, paradoxalmente, este mundo contemporâneo que nós, cristãos, ajudamos a construir e no qual vivemos, se encontra muito longe do Evangelho, dos seus valores e da sua vida, da sua proposta.

Basta olhar um pouco mais atentamente.  Com facilidade, descobrimos que, afinal, vivemos numa sociedade que promove o egoísmo. Vivemos numa sociedade onde muitos não têm o suficiente para viver. Vivemos numa sociedade onde muito facilmente a vida humana é espezinhada, desde o ventre materno ao seu fim natural.

Vivemos numa sociedade que vive para ter e não para ser; uma sociedade em que o valor supremo é o consumo. Uma sociedade em que o importante é aquilo que aparece, o que se diz, o que se mostra. Uma sociedade que despreza o coração, que ignora a procura da Verdade.

Vivemos numa sociedade onde a própria criação se encontra em risco. Vivemos numa sociedade sem horizontes, que se tornou deus para si mesma e onde o verdadeiro Deus tem muito pouco lugar. Vivemos numa sociedade que se esqueceu de Deus. Que o relega para os momentos de aflição ou para aqueles onde Ele fica socialmente bem. A nossa vida em sociedade precisa, também ela de conversão. Precisa, também ela, de Quaresma!

  1. Mas, como cristãos, somos membros do corpo de Cristo presente no mundo. Com Jesus e o Seu Espírito, somos a Igreja, a forma que Ele quis para se fazer encontrado por cada homem e mulher do nosso tempo.

E também aqui, no nosso concreto viver como cristãos, como Igreja, temos que reconhecer o nosso pecado. A Igreja é radicalmente santa porque traz consigo a Jesus e ao Seu Espírito. Mas é constituída por pecadores. E nós, cristãos, somos tão pouco Igreja! Mostramos tão pouco ao mundo a felicidade de ser cristão! Contentamo-nos com as nossas orações, os nossos ritos. Mostramos pouco a Jesus e ao seu amor. Vivemos pouco a fraternidade que nos vem de sermos batizados, membros do único Corpo de Cristo.

Pecámos, Senhor, tende piedade de nós!

Esta súplica que hoje se eleva da terra ao céu há-de guiar-nos ao longo do caminho destes 40 dias de penitência que agora iniciamos. Pecámos como indivíduos, como sociedade, como cristãos. Manchámos a veste branca que recebemos no nosso baptismo. Manchámos a túnica imaculada de Jesus Cristo.

Sabemos, por experiência, que nem tudo ficará resolvido ao chegarmos à Páscoa do Senhor. Mas sabemos, igualmente, que o caminho se faz caminhando, e que importa deixar que o Espírito do Senhor, vindo aos nossos corações, vá moldando o nosso existir e o torne mais semelhante a Jesus.

Como o atleta que diariamente treina e que, num determinado período do ano, “entra em estágio”, também nós começamos hoje este verdadeiro tempo de estágio, de retiro cristão que é a Quaresma. Que o Senhor nos ajude a não desistir a meio do caminho por causa do cansaço, de modo a chegarmos à sua Páscoa mais semelhantes a Ele — que o mesmo é dizer: mais humanos, mais cristãos, mais divinos, mais vivos.