Preparar em casa um “cantinho de oração” para a “liturgia familiar”

A proposta do Pe. João Carlos para a Quaresma em tempo de pandemia

Capa das Pedras Vivas de 14 de fevereiro de 2021

Para uma maior vivência do tempo Quaresmal, o padre João Carlos Gomes, membro do Secretariado Diocesano da Liturgia e pároco do Livramento e Imaculado Coração de Maria, apresentou o itinerário proposto pela Diocese do Porto com o tema: “Todos juntos na Arca da Aliança”. Nesta caminhada, as famílias são convidadas a criar em casa um “cantinho de oração” para realizarem uma “liturgia familiar” em cada domingo. 

“É um convite, neste tempo de confinamento, a cada família a tornar-se verdadeira Igreja doméstica. Lugar onde os pais, os filhos, os netos, os avós, as crianças, todos juntos, se sentem importantes. Todos a cuidar de todos, todos unidos em oração”, disse o sacerdote, especialista em Liturgia. 

Na próxima quarta-feira vamos iniciar o tempo da Quaresma. O que é a Quaresma? 

Padre João Carlos – O tempo da Quaresma é um tempo de preparação para a festa da Páscoa, que é a festa mais importante do calendário litúrgico. Depois temos 50 dias da Páscoa, para celebrar o grande acontecimento da Páscoa, como se fosse um único dia de festa. 

O Papa diz que é preciso desligar o telemóvel, desligar a televisão, para abrir a Sagrada Escritura. No domingo da Palavra, o Papa dizia para a Palavra de Deus estar na bolsa, no bolso e no coração de cada um. Hoje temos uma grande possibilidade de acesso à Palavra de Deus, mas muita gente ainda tem uma grande dificuldade em sentar-se, em meditar um bocadinho a Palavra de Deus. Isso falta muito nas nossas comunidades cristãs. Ainda há um déficit, as pessoas têm muita dificuldade em ler. Que este tempo de confinamento seja um tempo para sentar-se, 5 minutos, 10 minutos, para aprofundar a Palavra. 

A Quaresma é um tempo de deserto, encontro com Deus. O deserto é um tempo de silêncio, não é de balbúrdia, não é de confusão. O deserto não é lugar de morte, é lugar de vida. 

“A minha mãe tem 90 anos, eu faço sempre o esforço para estar com ela. Eu vejo o esforço que os outros irmãos fazem, e todos trabalham. Para que ela se sinta acarinhada, mimada”.

A experiência de confinamento nem sempre significa silêncio. Pelo contrário, também em casa pode haver muito barulho.

Padre João Carlos – Na Quaresma, falamos também de jejum. O Papa diz mesmo que esse jejum é muitas vezes saber renunciar a coisas vãs, ao supérfluo, para ir ao essencial. É procurar a beleza das coisas simples. Neste tempo de confinamento é importante olhar o essencial. Passamos muito tempo à frente da televisão. Os idosos que estão o dia inteiro diante da televisão, diante de canais que muitas vezes só trazem notícias muito negativas. É preciso filtrar. Há também tantos programas televisivos muito construtivos e que podem ajudar estas pessoas. 

Era bom também que cada pessoa procurasse na sua casa esse silêncio, o deserto, que muitas vezes parece que é ausência, mas é aí que Deus quer se encontrar com o homem. 

Por outro lado, o deserto é também um lugar de solidão. Há muitos desertos perto de nós, que são os mais velhos, os idosos, que vivem completamente afastados, que são silenciados, que nem podem falar, que são descartados. O seu silêncio fala. Falar deles não dá audiências. O tempo de deserto deve-nos conduzir a eles. 

Há várias iniciativas para este tempo da Quaresma. Um programa engraçado é o da Diocese do Porto: “Todos em família, todos irmãos”. É um convite, neste tempo de confinamento, a cada família tornar-se verdadeira Igreja doméstica. Lugar onde os pais, os filhos, os netos, os avós, as crianças, todos juntos, se sentem importantes. Todos a cuidar de todos, todos unidos em oração, por uma aliança de amor que nos abraça a todos, que nos une, nesta nova aliança que é Jesus.

Padre João Carlos Gomes | Foto: P. Giselo Andrade

Pedras Vivas 14 de fevereiro de 2021 (A4)

Pedras Vivas 14 de fevereiro de 2021 (A3)

Pode explicar em que consiste essa caminhada Quaresmal proposta pela Diocese do Porto?  

Padre João Carlos – Aquilo que é sugerido nessa caminhada de Quaresma é fazer na nossa casa a chamada liturgia familiar, que é na nossa casa arranjar um cantinho, um espaço para a oração e colocar nesse espaço, a palavra Deus, a cruz e uma arca. Esta arca lembra-nos a arca da aliança. Dentro da arca colocamos nove “papiros”, nove rolinhos de papel, onde está escrito o tesouro de cada domingo da Quaresma. 

Em cada domingo deve-se retirar da arca o respetivo “papiro” que importa descobrir, que importa valorizar. No primeiro Domingo é “a nossa casa”; no segundo “as nossas raízes”; no terceiro “a educação”, no quarto, o “perdão”; no quinto “o matrimónio; no Domingo de Ramos, a “fidelidade”, na Quinta-feira Santa, a “Eucaristia”; na Sexta-feira Santa, a “Cruz” e depois tem a Páscoa. 

Em cada domingo, um membro da família vai retirar da arca o tesouro correspondente e escolher um objeto associado, para colocá-lo na arca. 

“os mais velhos, os idosos, que vivem completamente afastados, que são silenciados, que nem podem falar, que são descartados. O seu silêncio fala. Falar deles não dá audiências. O tempo de deserto deve-nos conduzir a eles”

Há sugestões sobre quais os símbolos a colocar nessa arca do tesouro? 

Padre João Carlos – Existem várias sugestões: 

  • No primeiro domingo, apresentar um vaso com sementes. Há muitos bolbos bonitos que se compram, para dar a ideia da vida, quer os junquilhos, quer outras plantas. A lembrar-nos o cuidado que devemos ter para com a nossa casa. O cuidado pelo mundo começa sobretudo em nossa casa. 
  • No segundo domingo devíamos colocar no tesouro, uma espécie de álbum, que tem a ver com as raízes, com os antepassados, com os avós.
  • No terceiro domingo, colocamos um objeto escolar. Pode ser um diploma, ou qualquer coisa que nos ligue, em gratidão, aos nossos educadores. 
  • No quarto domingo são as mãos unidas, ou um gesto que lembre o perdão.
  • No quinto domingo, um coração onde estejam escritas as qualidades das pessoas da nossa família. É um domingo para encontramos qualidades dentro da família. Agora que há o confinamento, há muitas crises, muitos problemas e conflitos nas famílias.
  • No Domingo de Ramos, podemos colocar um vaso com uma semente já germinada.
  • Na Quinta-feira Santa, o pão e o vinho, para lembrar a Eucaristia.
  • Na Sexta-feira Santa, a cruz, que deve ser decorada. 

É sugerido também, a partir de Quarta-feira de Cinzas, um “plano de privação”, que tem a ver com o jejum, cuja poupança possa reverter para uma obra social ou para a ajuda de uma família. Com a situação da pandemia, são muitas as famílias… eu conheço muitas famílias que necessitam. Todas as semanas vêm buscar alimentos, roupa. Porque não têm trabalho e encontram só portas fechadas. O último recurso é a Igreja.

Qual o motivo da escolha do conceito de “aliança”? 

Padre João Carlos – O tema da aliança é um tema dominante na Sagrada Escritura, aparece 287 vezes e está presente nas leituras do tempo da Quaresma. Para explicar o sentido da aliança e da fidelidade de Deus à sua promessa, os profetas procuram na experiência humana outras analogias, por exemplo, a do amor entre os esposos. Em contraluz aparece a idolatria, a recusa de Deus, o pecado, que são vistos como a infidelidade do Povo à aliança selada no Sinai. 

Pode apresentar algumas pistas para a oração em família? 

Padre João Carlos – Sim, posso fazer uma explicação muito breve sobre o tema de cada Domingo. 

Primeiro Domingo da Quaresma

A primeira leitura do Primeiro Domingo da Quaresma oferece a narrativa da Arca de Noé. Noé teve de fechar-se numa arca, numa condição de isolamento, espacial, social, existencial, como muitos de nós estamos a viver neste tempo de pandemia. E teve de inventar uma pequenina comunidade biológica, seres humanos e animais, sendo-lhe confiado um novo modelo de convivência. Vai ter de se adaptar aí. Ele guarda a família e a criação, numa experiência de reclusão, dentro da arca durante quarenta dias e quarenta noites, os dias necessários para fazer com que o ser humano mudasse. 

Podemos ver aqui um convite também a viver todo este sofrimento de confinamento como uma oportunidade, de mudança, para reforçar os laços de aliança. É claro que o tempo de confinamento é um tempo doloroso, mas é um tempo também para uma nova vida, para repensar um outro mundo. É uma oportunidade de mudarmos os nossos comportamentos.

Este tema da aliança é um lugar de guarda dos nossos tesouros mais preciosos e, por isso, também serve de inspiração à descoberta das nossas famílias como verdadeiro património da humanidade, com todos os tesouros que ela encerra, em todo o arco da vida e na arca da própria vida, em aliança com Deus. 

O Papa insiste muito na valorização dos mais idosos. Os nossos avós são autênticas bibliotecas, ou memórias vivas. 

A Pontifícia Academia para a Vida [organismo da Santa Sé], publicou nestes dias um documento sobre os idosos onde dizia que é necessária uma nova abordagem no cuidado para com os mais velhos no sentido de integrá-los mais no ambiente familiar e se possível, cuidá-los em casa. O que pensa disto? 

Padre João Carlos – Pela experiência que eu vejo, como capelão hospitalar e na experiência como pároco, as pessoas gostam do seu espaço. Muitas vezes elas sentem-se desenraizadas. 

Segundo Domingo da Quaresma

No segundo domingo da Quaresma, fala-se das “nossas raízes”, os nossos ascendentes, os nossos avós, os nossos bisavós, como o verdadeiro tesouro de família. Muitas vezes eles são colocados de lado. Quando estamos com eles o seu silêncio fala, vemos quanto sofrimento há em tantas pessoas que não queriam estar nos lares. Eu noto alguns utentes que eram pessoas muito calmas, muito serenas e tornaram-se muito rebeldes, com uma grande raiva interior, e temos de fazer um trabalho que leva tempo, para tentar amolecer aqueles corações, porque alguns deles foram enganados, iam a uma consulta médica e acabaram por ficar internados. É preciso que os próprios filhos tomem consciência desse grande património que receberam. O seu pai e a sua mãe, que nunca tiveram férias na vida para dar um curso ao seu filho, à sua filha, e de um instante para outro os filhos vão colocá-los longe e eles [pai e mãe] sentem que são colocados à margem. Era bom que cada um cuidasse das suas raízes, porque aquilo que nós somos devemos às nossas raízes. Muitos sentem-se privados até dos próprios netos. 

Considera que deveria haver mais apoio da parte da sociedade para que fosse possível esse cuidado dos idosos nas famílias? 

Padre João Carlos – É um problema também de mentalidade, exige de todos um esforço e uma mudança grande, porque os filhos entre si podem-se revezar. Hoje também há tantos grupos que podiam fazer acompanhamento familiar.

A minha mãe tem 90 anos, eu faço sempre o esforço para estar com ela. Eu vejo o esforço que os outros irmãos fazem, e todos trabalham. Para que ela se sinta acarinhada, mimada. 

Muitos dos nossos idosos estão dentro dos espaços e muitas vezes também não têm nada que fazer. Era preciso que houvesse, mesmo dentro dos nossos lares, mais investimento na animação, no gerir o tempo. É doloroso ver a pessoa que está ali, parece que está à espera da morte. Deviam haver iniciativas, espaços de convívio. Em muitos dos lares, não há um espaço de convívio, improvisou-se uma sala pequenina. Podia haver mais grupos que fossem pelos lares e fizessem esse trabalho de animação ao longo do ano. Em que o próprio idoso tivesse sempre atividades. Não é infantilizar o idoso, não é pôr o idoso só a pintar um coelhinho, isso é infantilizar o idoso. 

Tirar da arca coisas boas que eles têm, a sabedoria. Nesta altura da Páscoa ou no Natal, eles sabem tantas receitas, cânticos ao Menino Jesus, orações tão bonitas que eu nunca aprendi na Universidade, tradições, as próprias configurações das freguesias como eram antes. Tudo isso estamos a esquecer. Tudo isto é desvalorizado em nome da modernidade. Eles têm um grande legado para nos dar, uma grande herança, e não estamos a aproveitar. 

“jejum é muitas vezes saber renunciar a coisas vãs, ao supérfluo, para ir ao essencial. É procurar a beleza das coisas simples”

Será que o problema também está na mentalidade atual que tem dificuldade em parar e escutar?

Padre João Carlos – Este tempo em que os idosos estão privados das suas famílias e das visitas, sem contacto uns com os outros, é muito doloroso. Sentem-se completamente abandonados. Com as visitas há espaço para o acolhimento, para soltar umas gargalhadas.

Este segundo domingo da Quaresma é sobre a questão das raízes. Construir neste espaço [de oração] a nossa árvore genealógica, olhar para a nossa família, buscar fotos antigas. 

Terceiro domingo da Quaresma

O terceiro domingo é o tema da educação, exprime-se nas 10 palavras [mandamentos], cujas regras protegem a fidelidade à aliança, porque nos vai ensinar a viver e a crescer, e a viver na liberdade do amor. 

A partir dos 10 mandamentos podemos refletir sobre a formação ética dos filhos, a urgente aliança educativa ou o pacto educativo entre as famílias, as escolas e a sociedade.

É uma oportunidade para agradecer aos nossos educadores, aos nossos pais, aos nossos avós, aos nossos catequistas, aos nossos padrinhos, ao nosso pároco, que tiveram influência na nossa vida. Ou então enviar uma mensagem de agradecimento a essas pessoas. 

Quarto domingo da Quaresma 

O quarto domingo é o tema do perdão. Fala-nos da deportação para a Babilónia, o exílio do povo de Deus, o regresso à terra prometida. Em família, podíamos tecer uma corda ou laço com os nomes dos membros da família. Um tempo para as pessoas refazerem os laços e celebrar o dia do pai, oferecer uma pagela pintada à mão com a imagem e oração de São José.

Quinto domingo da Quaresma

No quinto domingo é o tema da aliança. A leitura desse domingo oferece-nos um texto com o anúncio e a promessa da nova aliança que será gravada no coração, como diz Jeremias. O coração novo é a arca do tesouro. “Onde estiver o teu tesouro aí está o teu coração”. Podíamos aprofundar o tema do matrimónio, a aliança conjugal. Para os casais, podia ser visitar o vídeo ou o álbum do casamento, renovar os compromissos do matrimónio. 

Nessa semana é sugerido também desenhar e colocar nesse cantinho da oração o coração da família, no qual podemos escrever três qualidades de cada pessoa, para que não se veja só os defeitos do outro. 

É preciso que o casal seja presente um para o outro. Presente, mas também dom, entrega. Se o casal não se dá um ao outro, se é só a conta gotas, aquilo não vai muito longe. As famílias dentro de casa, sejam criativas, cooperem uns com os outros. Não só para tirar da arca, os dons, qualidades e potencialidades que têm, mas também para colocar lá alguma coisa. Se calhar falta dar mais carinho ao meu filho, se calhar falta mais miminhos à minha mulher. É preciso colocar lá alguma coisa. Este tempo é também rico para isso. 

Domingo de Ramos 

No Domingo de Ramos temos o tema da fidelidade. A aliança no Sinai foi selada com o sangue de animais. Os sacrifícios de animais são substituídos por um sacrifício novo, cujo sangue de Cristo realiza a união definitiva entre Deus e os homens. Em família, podemos decorar a cruz e junto dela colocar o vaso onde germina a semente. Se for possível, nessa semana, realizar uma Via Sacra. 

Tríduo Pascal  

Na Quinta-feira Santa, descobrir o tesouro da Eucaristia para a Igreja, para a família. Podemos colocar junto da arca, no cantinho da oração, o pão e o vinho, ou fazer a bênção da mesa, visitar fotos ou vídeos sobre a Eucaristia, primeira comunhão.

Na Sexta-feira Santa, lembrar a cruz nos dias amargos da família. Há uma união com Jesus abandonado que pode evitar uma rotura e o mistério da cruz transforma as dificuldades e sofrimentos em oferta de amor. O grito lancinante de tantas pessoas afetadas pela pandemia e das suas sequelas de morte, luto, pobreza, exclusão, desemprego, solidão, encontram o seu rosto e a sua voz no grito de Jesus abandonado na cruz. Neste dia podíamos iluminar, adornar, adorar a cruz. Fazer um grande silencio às 15 horas, rezando pelas vítimas da pandemia. Contactar com uma pessoa em situação de luto, oferecendo uma mensagem de consolo. 

No sábado, é o dia do grande silêncio, o dia do grande confinamento. Sentimento de ausência, desejo de voltar ao encontro com Cristo. É um grande sábado, que escava e dilata no coração o espaço para acolher, com espanto e surpresa, o mistério da Páscoa.

À noite, na Páscoa, e a manhã do primeiro dia da semana, inaugura um tempo novo. É o dia propício a descobrir as várias dimensões do dia do Senhor, não só como o dia da nova criação, mas como o dia do Homem e da família, dia da alegria, do repouso e da solidariedade. Neste dia podemos colocar uma fita branca na cruz, recordar a data do batismo, a nossa primeira Páscoa, rezar pelos batizados, anunciar a Páscoa usando os meios digitais.

O que se pede é que cada pessoa, no espaço em que está, nas circunstâncias em que está, quer com doença ou saúde, procure viver com intensidade estes momentos, que são de uma grande riqueza. Este é o tempo de preparação para essa grande festa.