“Proximidade, relação e amor são também formas terapêuticas” – Padre Bonifácio

O capelão do Hospital Dr. Nélio Mendonça apresenta a mensagem do Dia Mundial do Doente

No próximo dia 11 de fevereiro, a Igreja celebra o Dia Mundial do Doente. O padre Bonifácio Santos, capelão do Hospital Dr. Nélio Mendonça e assistente espiritual do Secretariado Diocesano da Pastoral da Saúde partilhou com o Jornal da Madeira a sua reflexão sobre a mensagem do Papa Francisco para este dia e outros temas da atualidade, como a eutanásia e os desafios que a pandemia deixa à Igreja.

Como leu a mensagem do Papa para o Dia Mundial do Doente? 

Pe. Bonifácio – A mensagem do Papa chama a atenção para pontos fundamentais. Este ano o Papa volta à figura do Bom Samaritano, que já estava presente na mensagem do ano passado. A figura do Bom Samaritano é apresentada como uma espécie de terapia, ou de remédio para uma certa hipocrisia, daquilo que o Papa apresenta como “os que dizem e não fazem”. Propõe a atitude do Bom Samaritano como a atitude do homem e da mulher de hoje que estão ligados à Pastoral da Saúde. Nessa linha, o Papa chama à atenção para três pontos fundamentais: a proximidade do doente, porque cada doente tem um rosto, tem uma história; a relação que não é apenas a de uma terapia mais fisiológica, mas uma relação que tenha uma visão mais holística da pessoa do doente; e depois o desafio do amor. Proximidade, relação e amor são também formas terapêuticas da pessoa doente. Porque infelizmente, e talvez acentuado pela pandemia, a pessoa doente vê-se só, não tem visitas da família e precisa de um rosto amigo, alguém que escute, que “perca tempo” e que a valorize. 

Na mensagem, o Papa fala em ultrapassar uma certa hipocrisia. O que significa?

Pe. Bonifácio – Na minha perspetiva, o Papa chama a atenção para os que “dizem e não fazem”. No episódio do Bom Samaritano, o sacerdote e o levita passam ao lado e depois aparece o bom samaritano que não diz nada, não fala, mas faz, numa atitude de proximidade. Sentiu compaixão, aproximou-se, limpou as feridas. Deixou-se incomodar pela pessoa do outro. Num tempo em que se cultiva a superficialidade, o individualismo, o egoísmo em que a pessoa do outro incomoda como um rival, como um adversário, como um concorrente, e não se olha ao rosto do irmão. Há esse risco de se falar muito nas redes sociais e nos meios de comunicação, mas falar para que os outros façam, não para que eu faça. Porque a pandemia pôs a nu muitas fragilidades, a vários níveis, a melhor resposta é sempre a resposta do Bom Samaritano, daquele que se faz próximo do outro. Há o risco de aumentar a exclusão, o isolamento, o afastamento, com a desculpa do perigo do contágio ou da infeção. 

“Às vezes também nos faltam as palavras e só resta o silêncio, como partilha de perguntas para as quais não é fácil encontrar uma resposta.”

Como é que os doentes veem o capelão?

Pe. Bonifácio – A pandemia dura há quase um ano. Bem sei que houve tempos em que era permitido a visita de pelo menos um familiar. Agora nem isso é possível, exceto nalguns casos pontuais. Para além do pessoal técnico e pessoal auxiliar, agora só o capelão é que lá está. Percebo que há necessidade de um rosto diferente daqueles a que estão habituados. Além disso, e como diz o Papa, a experiência da doença é uma dura experiência da fragilidade humana e que às vezes coloca perguntas como o sentido da vida, o sentido do sofrimento e aí há necessidade de alguém que os escute, que converse, que esteja, que segure na mão, que aproxime o copo ou a garrafa da água. Hoje sinto isso muito mais. Às vezes também nos faltam as palavras e só resta o silêncio, como partilha de perguntas para as quais não é fácil encontrar uma resposta. 

Padre Bonifácio Santos | Foto: P. Giselo Andrade

Pedras Vivas 07 de fevereiro de 2021 (A4)

Pedras Vivas 07 de fevereiro de 2021 (A3)

Qual o seu comentário sobre a aprovação da lei da eutanásia na Assembleia da República?

Pe. Bonifácio – O facto da eutanásia ser aprovada no parlamento, não sei se fazia parte da agenda do próprio parlamento e por acaso calhou nesta altura, ou se há aqui uma estranha coincidência. Numa altura em que só se houve falar em número de infetados, número de internados, número de cuidados intensivos, número de óbitos diários por Covid e por não Covid. Num contexto destes, em que se exige mais aos serviços de saúde, mais capacidade de enfermarias, mais técnicos, mais enfermeiros, mais médicos, mais ventiladores… aprova-se a eutanásia! Há aqui uma hipocrisia, ou uma contradição, que se calhar é típica do nosso tempo. 

Outra coisa curiosa, é ver esta guerra por causa daqueles que passaram à frente na receção da vacina quando não eram prioritários.

Todos nós sabemos qual é a posição da Igreja em relação à eutanásia. Eu penso que tal como acontece com uma pessoa que tenta o suicídio, é o ponto de chegada de toda uma caminhada de degradação por vários fatores, pessoais, familiares e sociais, que levam a este ponto de rutura. A própria pessoa, pela doença, pelo sofrimento ou pela dor, porque é incurável, querer antecipar a morte, é também um ponto de chegada de outras mortes que já aconteceram. Há necessidade de investir mais, como diz o Papa, que a pandemia pôs a nu as carências e a fragilidade dos sistemas sanitários de todos os países. É claro que os países mais pobres sentem mais essas carências do que os países mais ricos, mas tanto uns, como outros, se viram a braços e se sentiram impotentes para enfrentar a situação. Há a necessidade de apostar mais nos cuidados paliativos, cuidados continuados, criar mais condições, mais espaços para cuidar destes doentes que têm um rosto e têm uma história.

Na sua experiência já encontrou pessoas que estavam nesse ponto de rutura? 

Pe. Bonifácio – Não. Até agora ainda não encontrei alguém que me tivesse dito: “Eu quero morrer, eu quero antecipar a minha partida”. Sei que há pessoas que se sentem abandonadas pela família e que vivem uma certa tristeza. Mas, mesmo com essas mortes afetivas, ainda não encontrei ninguém que queria antecipar a partida. 

“O doente faz parte de uma família, faz parte de uma comunidade cristã, e não pode sentir esse desamparo”.

A pandemia fez com que a doença e a dor saíssem do âmbito hospitalar. Muitas vezes os doentes permanecem nas suas casas. Como é que a Igreja chega até a essas pessoas?

Pe. Bonifácio – É o caso das pessoas que estão infetadas e que não estão internados no sistema sanitário. Fazem a recuperação, em isolamento, em casa. A casa é uma mini enfermaria.  

Há aqui um grande desafio. Quando o Papa fala da proximidade da relação com a pessoa do doente, há um desafio que nos é colocado que não é só na relação do capelão, do voluntário, do ministro extraordinário da comunhão, dos nossos hospitais. 

Esta proximidade deve compreender um campo muito mais amplo, que é a ligação entre o hospital e a comunidade à qual a pessoa pertence. Falta-nos esse contacto, e isso também faz parte da proximidade. A paróquia, os ministros extraordinários da comunhão, os visitadores, Legião de Maria e a Conferência São Vicente de Paulo, têm habitualmente contacto com as pessoas idosas e pessoas doentes, mas quando, a certa altura, elas precisam de ser internadas, no hospital ou num lar, muitas vezes rompe-se o contacto. É necessário criar uma rede, talvez mesmo, meios e estruturas em que haja uma maior e mais rápida comunicação, quer no caso da capelania em relação às paróquias e às comunidades de origem, quer nas comunidades de origem em relação ao capelão. O doente faz parte de uma família, faz parte de uma comunidade cristã, e não pode sentir esse desamparo. O cristão, seja ele a participar na Eucaristia dominical na sua comunidade, seja ele doente no hospital, não deixou de ser membro da comunidade cristã e esta ligação é importante até para desenvolvermos, de facto, aquilo que o Papa diz, que é uma relação de proximidade, de amor cristão. Temos que dar passos nesse sentido. É um desafio que temos de ter, a nível de paróquia, a nível de arciprestado, a nível dos movimentos e a nível da capelania [hospitalar].

A Pastoral da Saúde tem que ser repensada e constantemente inventada, recriada e atualizada. No fundo, o doente é o rosto de Cristo sofredor e um testemunho, não só da fragilidade, mas também da esperança no mundo de hoje. 

Na sua opinião, quais os elementos que precisamos de melhorar e que aprendizagens devemos levar para um tempo de pós-pandemia? 

Pe. Bonifácio – Às vezes, quando falamos desta pandemia, fala-se também do voltar ao tempo normal. Será que vamos voltar ao tempo normal? O homem que sai desta pandemia será o mesmo que era antes da pandemia? Curioso que no princípio, nos primeiros meses de pandemia, no ano passado, os meios de comunicação faziam eco de determinadas mudanças na atitude das pessoas. Pessoas que tiveram de fechar a sua empresa e que descobriram um novo campo de ação, que era levar uma garrafinha de água, uma sandes, uma peça de fruta aos sem abrigo e outros necessitados. Esta paragem da atividade despertou para o sentido do outro. Ultimamente não se tem falado disso, mas penso que isso continua a acontecer. Não será este sinal de que o homem do pós-pandemia, não vai voltar à vida normal, mas será um bocadinho diferente, mais próximo do outro? Esperemos que o homem seja melhor, mais fraterno. 

A Igreja tenta colmatar as distâncias atuais através dos meios de comunicação, rádio, internet e aplicações. No entanto, será isso suficiente para um doente?  

Pe. Bonifácio – A presença é essencial porque há um rosto. Nós comunicamos muito através do rosto. É sempre diferente quando chega alguém à beira da cama. Esta proximidade é própria do ser humano, é uma fome e uma sede que ele tem. Às vezes anda um bocado disfarçada. Mas como a experiência da doença deixa a pessoa sensível, também fica mais sensível a sua identidade como pessoa.

Uma vez, numa enfermaria de 6 ou 7 pessoas, entrei uma primeira vez e fui à beira de cada um: “Como é que está?” E estabeleceu-se um diálogo. Entrei uma segunda vez e uma terceira vez, sem me identificar como capelão. Quando me identifiquei, disseram: “Ah, eu julgava que o senhor era psicólogo!”. É curioso! Depois destes primeiros contactos as pessoas criam uma determinada imagem e depois ao saberem que é o capelão, sentem a presença da igreja. 

“Há esse risco de se falar muito nas redes sociais e nos meios de comunicação, mas falar para que os outros façam, não para que eu faça”.

Que convite às pessoas para melhor celebrar o Dia Mundial do Doente? 

Pe. Bonifácio – O Dia Mundial do Doente é também uma oportunidade de um reconhecimento e de uma gratidão por todo aqueles e aquelas que dão o corpo ao manifesto, no meio desta pandemia, desde bombeiros, médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar e técnico… uma grande quantidade de gente que está envolvida, pondo a vida em risco para salvar vidas.

O convite já está no evangelho: “Faz aos outros aquilo que gostarias que te fizessem a ti”. Combate aquela hipocrisia de que nos fala o Papa na mensagem. É a atitude do Bom Samaritano. Desenvolve este sentido de relação, de proximidade, do amor pelo outro, seja familiar ou não, cristão ou não, faz com o outro aquilo que gostarias que te fizessem a ti.