“Se o mundo abraçasse Deus como Deus nos abraça, éramos felizes” – Irmã Maria Lúcia Felicidade

As bodas de ouro de consagração religiosa foram celebrados na paróquia do Santo da Serra

Na Semana dos Consagrados, o Jornal da Madeira falou com a Irmã Maria Lúcia Felicidade, da Congregação das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena. É natural da Ribeira de Machico e foi batizada na igreja de Santo António da Serra. Celebrou as bodas de ouro de consagração religiosa no sábado, dia 23 de janeiro, na paróquia do Santo da Serra. A data, que devia ter sido assinalada no ano passado só foi celebrada este mês, devido à pandemia.

Como é que irmã descobriu a congregação das irmãs dominicanas há 50 anos atrás, quando estas irmãs não eram muito conhecidas e como nasceu a vocação à vida religiosa? 

Irmã Lúcia – Eu desde criança tive uma educação cristã, os meus pais eram cumpridores das leis do Senhor e tive uma formação religiosas familiar. Os meus pais nunca se deitavam sem rezar o terço e muitas vezes via a minha mãe a bordar, que era o pão de cada dia, e a rezar o terço e o meu pai ajoelhado aos pés de Nossa Senhora. Eu já não era assim, pedia à minha mãe: “posso ir deitar-me, tenho muito sono, rezo na cama”. Algumas vezes sim, outras vezes não. Mas o normal era rezarmos o terço em conjunto. Vivíamos na Ribeira de Machico e íamos à Missa ao Santo da Serra, era única igreja que havia, a pé ainda se levava uns três quartos de hora, sempre a subir. 

A minha mãe sempre me falou da vida religiosa, mas não percebia muito bem o que era. Eu via as “irmãzinhas”, como eles chamavam, neste caso eram as irmãs Vitorianas que iam à Missa na igreja do Santo da Serra. Às vezes na minha casa também apareciam umas irmãs que não me lembro bem se eram Vitorianas ou da Apresentação de Maria. Nessa altura a minha mãe dizia: “Queres ser uma irmãzinha como esta? Como só as via a rezar na igreja respondia: “acho que não quero”. 

Mais tarde passaram umas irmãs da Caldeira, porque o convento tinha ardido e elas precisavam de alguém para transportar as esmolas que lhes davam, eu aí gostava muito de acompanhá-las para trazer os sacos. Pelo caminho, uma senhora perguntou-me: “não queres ser irmã, como aquelas”? Disse: “Pode ser que eu venha a pensar nisso”.  Depois ela acrescentou, “mas olha que elas rezam muito”. “Então já não quero”. 

Foi o meu primeiro contacto com irmãs e eram as únicas que conhecia. 

Mais tarde vieram umas irmãs dominicanas para abrir a Fundação Cecília Zino em maio de 1963, para tomar conta do hospital pediátrico. A congregação já estava presente na Madeira, dez anos antes, no abrigo de Nossa Senhora de Fátima.

Na Ribeira de Machico eu tinha uma colega que trabalhava na fundação Cecília Zino e que tinha uma irmã que foi hospitalizada nesse hospital. Perguntei-lhe se não me arranjava um lugar lá para experimentar. Logo que houve uma vaga, veio buscar-me. 

Quando cheguei à fundação, vi aquela casa grande e bonita, mas não tinha visto as irmãs. Quando as vi fiquei surpreendida porque eram muito diferentes das outras, de branco e muito sorridentes. Baixei a cabeça com vergonha, porque não estava habituada. Quando volto a olhar pensei: “Ai, as mangas”. 

“Quando cheguei à fundação e vi essas mangas, as amarras soltaram-se, eu fiquei livre. “Ai as mangas”, Deus prendeu-me pelas mangas”.

Num testemunho que li, publicado na internet, a irmã disse: “Deus prendeu-me pelas mangas”. O que significa essa expressão?

Irmã Lúcia – As mangas porquê? Porque no Santo da Serra eu tinha uns 8 anos, eu fui confessar-me, enquanto rezava a penitência ajoelhei-me aos pés de Nossa Senhora que tinha um fato muito comprido, umas mangas compridas. Do outro lado estava São Francisco Xavier com as mangas compridas e um fato comprido embora com cores diferentes e Santo António ao centro no mesmo estilo. E pensei: “eu também gostava de ter um fato destes, assim comprido e com estas mangas largas”, mas depois refleti, “isto não é para mim, isto é só para os santos, eu não posso ter isto”. 

Quando cheguei à fundação e vi essas mangas, as amarras soltaram-se, eu fiquei livre. “Ai as mangas”, Deus prendeu-me pelas mangas.

Passado alguns meses, a irmã Aurora veio ter comigo e diz-me assim: “tu não queres ser freira, não queres ser irmã?” Eu respondi-lhe: “eu queria, mas não posso, os meus pais não podem, são pobres e diz que é preciso dar um dote e eu cá não o tenho”. As irmãs falaram com a madre geral e não foi preciso pagar nada. 

Em 1965 fui para a comunidade como aspirante em Lisboa, no Restelo. Depois, em 1967 entrei no Convento na Quinta do Ramalhão em Sintra, era aí o noviciado. Fiz a primeira profissão a 2 de janeiro de 1970.

No noviciado, quando me perguntaram o que gostaria de fazer na congregação, disse que gostava de ser enfermeira, talvez porque a minha tia era enfermeira, então mandaram-me para um pequeno estágio no hospital ortopédico na Parede, mas depois de professar voltei para o colégio no Ramalhão, onde estive 13 anos.

Depois disso deram-me um trabalho social em 1983, que era o que eu queria, aqui na Madeira. Vim para o Abrigo de Nossa Senhora de Fátima onde estive até 1988. Aí deram-me o trabalho de vigilante (acompanhar as crianças) e colaboradora na paróquia. Gostei muito de lá estar. 

Depois a madre geral lembrou-se de me mandar para a fundação Cecília Zino como superiora e diretora da obra. Isso aí não gostei tanto porque não gosto de estar como superiora, gosto de estar à retaguarda. As coisas correram bem. Estive lá durante seis anos.

Em 1994 pediram-me para ir para os Açores. Depois, de 1998 a 2000 fui para Angola. Só lá estive ano e meio porque adoeci e tive que vir embora. Em Angola fui responsável das postulantes e prioresa da comunidade. 

De 2000 a 2005 estive como prioresa na Casa dos Cardais, que é um convento antigo que existe na Rua do Século. Temos aí uma obra para deficientes que ninguém quer, são os pobres de tudo.

Passei para Portimão onde fiquei encarregue da enfermagem e colaborava também na catequese. Temos aí um internato para crianças e jovens.

De 2008 a 2018 voltei à fundação [Cecília Zino] pela segunda vez. Aí trabalhei na enfermagem e prioresa. 

Em 2018 fui para Aveiro, onde estou como prioresa da comunidade. Uma comunidade com as irmãs mais fragilizadas. 

“O essencial é o amor, é o carinho, fazer para elas tudo o que temos de bom no coração e encaminhá-las para Deus (…) Se o mundo abraçasse Deus como Deus nos abraça não havia tanta confusão e éramos felizes”

Qual o carisma das Irmãs Dominicanas?

Irmã Lúcia – A nossa madre fundadora, quando fundou a congregação, a ideia dela era fazer o bem sempre e onde seja possível, mas deu a primazia à educação das crianças e juventude e também aos doentes, nos hospitais e no domicílio.

Quando a madre Teresa de Saldanha Oliveira e Sousa fundou a congregação em 1868, no princípio, era para ser uma congregação portuguesa para atender às necessidades urgentes da sua terra. Aprendeu com a mãe a visitar os pobres e a acolher os que tinham mais necessidade. Colaborou também com as irmãs da Caridade, como ela chamava, que se dedicavam às escolas e às crianças pobres. 

Pedras Vivas 31 de janeiro de 2021 (leitura A4)

Pedras Vivas 31 de janeiro de 2021 (impressão A3)

Quais são as qualidades essenciais para um bom educador e boa educadora?

Irmã Lúcia – Primeiro tem que ter muito amor, muita ternura, porque estas crianças e jovens precisam de muito carinho. Deve ser uma pessoa com o máximo de dedicação possível e encaminhá-las para o bem. Às vezes é um bocado difícil porque as ideias que nós temos não são as ideias que correm lá fora, às vezes elas não nos entendem ou nós não as entendemos bem. Quem tem filhos sabe muito bem a dificuldade que encontra na educação, por muito amor que lhes dê. O essencial é o amor, é o carinho, fazer para elas tudo o que temos de bom no coração e encaminhá-las para Deus. Infelizmente estamos num mundo onde Deus está desaparecido. Neste momento aquilo que o mundo mais precisa é de Deus. Se o mundo abraçasse Deus como Deus nos abraça não havia tanta confusão e éramos felizes. 

Já que estamos a falar de felicidade, porque se chama Felicidade?

Irmã Lúcia – O meu nome tem uma história. Quando eu fui para o convento eu disse ao meu pai que tinha que mudar o nome, significava uma mudança de vida, uma dedicação total ao Senhor. 

Quando eu nasci os meus pais combinaram que o meu nome seria Maria Lúcia, porque faltava dez dias para eu nascer quando Nossa Senhora peregrina andou aqui na Madeira. Os meus pais tiveram muitos anos que não tiveram filhos. Quando pensavam que já não vinha nenhum filho, Nosso Senhor presenteou-os com a primeira, que fui eu. Mas quando o meu pai chegou à igreja, a minha avó é que me levou à igreja porque era a parteira daquela terra, o senhor padre perguntou: “Como é que se vai chamar a menina”? A minha avó disse: “Maria Lúcia”. Mas o meu pai disse: “Não é senhor padre, é Felicidade”, porque lembrou-se que a madrinha era Felicidade. Então ficou Felicidade. Mas toda a vida, na Ribeira de Machico, onde as mulheres se sentavam com a minha mãe para bordar, toda a vida eu ouvi aquela história: “Era para ser Lúcia mas não foi…”. 

Disse ao meu pai que ia mudar o nome ele ficou muito triste. Na semana que íamos tomar hábito, a madre mestra disse: “vocês vão pensar qual o nome que querem acrescentar ao vosso”. Eu fui para a quinta com as minhas colegas, cada uma a pensar qual o nome que ia acrescentar. Quando estava a pensar lembrei-me da história que a minha mãe contava às colegas daí que escolhi “Maria Lúcia Felicidade”.

“Às vezes fico arrepiada quando elas me dizem “ainda bem que a irmã passou na minha vida, foi consigo que aprendi, a irmã foi uma mãe para mim”. Eu acho que elas estão a ser exageradas (…) porque não merecia isso”.

A irmã, com 50 anos de vida consagrada, considera-se feliz? 

Irmã Lúcia – O meu pai disse-me: “eu pus-te esse nome para seres feliz e agora vais tirá-lo?”. Sim, eu sou, graças a Deus, e tenho sido até aqui, muito feliz. Não quer dizer que não haja contratempos, mas acho que isso toda a gente o tem. Há dias menos felizes que outros, porque a vida nem sempre nos sorri, mas sou inteiramente feliz. Sinto que Deus está comigo, não por eu ser a melhor, não, de certeza que os meus irmãos eram melhores que eu, mas porque ele teve misericórdia de mim, assim vai apagando as minhas fragilidades, as minhas mediocridades que em nada sou perfeita, procuro fazer de bom coração. 

O que se poderia fazer para apresentar a vida religiosa e a vida consagrada como um caminho de felicidade para os jovens?

Irmã Lúcia – Eu penso que primeiro é o testemunho que nós temos que dar, da nossa vida. Mostrar que nós, só por nós, não somos nada e que se descobrirmos que não podemos beber de todas fontes mas da única fonte que é Jesus Cristo nós encontramos a felicidade. É isso que eu procuro fazer, procuro levar um caminho fiel a Jesus Cristo, reconheço que muitas vezes não sou tão fiel assim, mas Jesus também não veio buscar gente perfeita, veio para nos ajudar a aperfeiçoar neste caminho e se nós tivermos a meta como Jesus disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”, eu penso que a felicidade está aí.

Ao ter contactado e acompanhado tantas pessoas ao longo da sua vida, há alguma história que a tenha marcado mais?

Irmã Lúcia – O que tenho mais presente são as crianças, que eu até pensava que devia ter sido mais justa ou carinhosa, e ter um bocado consciência que não fui aquela mãe que elas precisavam. Às vezes fico arrepiada quando elas me dizem “ainda bem que a irmã passou na minha vida, foi consigo que aprendi, a irmã foi uma mãe para mim”. Eu acho que elas estão a ser exageradas, mas testemunhos desses tenho imensos graças a Deus, às vezes até me sinto emocionada porque não merecia isso. 

50 anos de serviço, que lições podemos tirar do contacto com as pessoas, especialmente as mais simples 

Irmã Lúcia – Vale a pena.  Vale a pena arriscar, mesmo com as nossas fragilidades, com as curvas no caminho, vale a pena, porque por detrás das nossas fragilidades está Jesus e está Maria, a ajudar-nos a limar aquilo que nós não fomos capazes.