Há sempre luz 

A jovem poetisa Amanda Gorman declamou o poema "A colina que subimos" no Capitólio | Foto: AP Photo/Patrick Semansky

“Porque há sempre luz se formos suficientemente bravos para a ver, se formos suficientemente bravos para o ser”, recitou Amanda Gorman no momento da tomada de posse de Joe Biden e Kamala Harris, no dia 20 de janeiro. 

Amanda, de 22 anos, foi a mais jovem poetisa a declamar na tomada de posse de um presidente dos Estados Unidos da América. 

O poema “A colina que subimos” foi lido no Capitólio, lugar onde quinze dias antes o mundo viu o “maior atentado à democracia nos EUA”, quando um grupo de manifestantes o invadiu para impedir a ratificação do resultado da eleição presidencial.

“Nós vimos uma força que fragmentaria a nossa nação em vez de a partilhar, que destruiria o nosso país ao adiar a democracia. E quase conseguiram. Mas se a democracia pode às vezes ser adiada, não pode nunca ser permanentemente derrotada”, declarou Amanda no poema. 

No dia do ataque ao coração da democracia americana, a jovem poetisa que estava a terminar o texto, tomou novo fôlego, “agora, mais do que nunca, os Estados Unidos precisam de um poema inaugural. Temos de enfrentar estas realidades, se queremos avançar”, afirmou ao jornal “New York Times”. “Aquele dia deu-me uma segunda onda de energia para terminar o poema. O poema não é cego. Não vira as costas às evidências de discórdia e divisão”, referiu à estação de televisão americana ABC.

“Para colocar o nosso futuro em primeiro lugar temos em primeiro lugar que colocar de lado as nossas diferenças. Nós abandonamos as armas para darmos as mãos uns aos outros”, escreveu.

A referência às “escrituras” no poema “A Colina que subimos” permite descobrir a imagem bíblica contida no capítulo quarto do livro de Miqueias em que o profeta fala nas promessas de restauração e reunião dos povos. “As escrituras dizem-nos para imaginarmos que ´todos se sentem debaixo da sua própria vinha e figueira e que ninguém os faça recear.’”.

Os gritos dos radicais que semearam o caos no Capitólio no dia 6 de janeiro, foram calados pela voz de uma “pequena rapariga Negra descendente de escravos e criada por uma mãe solteira” e “que pode sonhar ser presidente e logo ver-se a declamar para um”, leu Amanda. Sim, a poesia e a palavra dizem-nos que, mais forte do que as sombras e para além delas, há sempre luz.