“O movimento ecuménico está a criar cada vez mais bases de confiança” – Pastora Ilse Berardo

Semana de Oração pela Unidade dos cristãos decorre até ao dia 25 de janeiro

Este ano, devido ao agravamento da pandemia, não terá lugar a habitual celebração ecuménica da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (18 a 25 de janeiro). Para assinalar este evento, o Jornal da Madeira falou com a pastora Ilse Everlien Berardo, da Igreja Evangélica Luterana Alemã na Madeira, sobre o significado desta semana de oração e sobre o movimento ecuménico.

Jornal da Madeira: Estamos a celebrar a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, o que se pretende com esta semana de oração, qual é o objetivo desta semana?

Ilse Berardo – Para a nossa comunidade, a Igreja Luterana Alemã, a semana da oração pela unidade dos cristãos tem sempre uma grande importância, porque estamos a viver aqui [na Madeira], digamos, num nicho. Nós temos a base bíblica como o nosso lema que a igreja é um corpo, com membros diferentes. Também aqui na Madeira, a Igreja Cristã é um corpo, e nós somos um membro deste corpo, e por causa disso estamos a estimar muito esta semana, vivemos muito esta semana, preparamos sempre esta semana de oração. 

Em primeiro lugar, a oração é a base da vida cristã. Para nós, é a comunicação com as outras igrejas, o que em português diz-se Ecumenismo. Eu ponho sempre um certo cuidado em dizer que a vida ecuménica não é um “ismo”, tem de se praticar e não ter só uma ideia, porque gosto de regressar às origens e a igreja ecuménica é a igreja cristã no seu todo no mundo, como S. Paulo disse na primeira Carta aos Coríntios, capitulo 12, “É um corpo com muitos membros”, o que significa que temos de respeitar esses membros, temos de ver a necessidade de comunicar com os diferentes membros. A base da vida Cristã, para nós, é a comunicação. Não é um estatuto fixo: é um movimento, um processo, um diálogo. Isto é exatamente o que nós praticamos naquela semana: o diálogo, o movimento, é uma coisa fluida, como o Espírito Santo. Temos que traduzir isso na nossa vida como comunidade. 

A pandemia trouxe restrições, mas nós temos as ferramentas digitais para comunicar. Assim, há uma comunicação da nossa comunidade com a Igreja católica, mas também com igreja anglicana e com a igreja presbiteriana.  Todas as igrejas se encontram sempre nesta semana. Quem não quer participar, não quer, o que não significa que alguém tenha sido excluído. 

“a vida ecuménica não é um ´ismo´, tem de se praticar e não ter só uma ideia, porque gosto de regressar às origens e a igreja ecuménica é a igreja cristã no seu todo no mundo”

Jornal da Madeira: Tem notado esse movimento e esse diálogo na questão ecuménica ao longo do tempo que está na Madeira?

Ilse Berardo – São trinta e três anos. Já posso falar de um certo espaço no tempo. Ao longo destes trinta e três anos, o movimento ecuménico está a criar cada vez mais bases de confiança. Em criança aprendi que a base da fé cristã é a confiança em Deus, em Jesus. Esta foi a minha base, e também temos de traduzir isso para as nossas comunidades, e ter respeito pelo outro, porque a igreja cristã existe na diversidade. Não temos o objetivo de construir, através desta semana, uma uniformidade. O que nós queremos é o diálogo e ver quais são as nossas diferenças, mas, em primeiro lugar, o que temos em comum, que é a oração. Quando estamos a rezar juntos não há conflitos e sabe porquê? Porque Jesus está no meio de nós. Ele é a cabeça que manda, de facto, uma coordenação entre os diversos membros. 

Gosto muito da linguagem bíblica porque é uma linguagem em imagens, em símbolos. Por exemplo, o símbolo para o movimento, o processo ecuménico, é um barco em cima das ondas e o mastro é a cruz. Lógico que não se pode caracterizar o vento: o vento é o Espírito Santo que nos leva para novos horizontes. A [tripulação] no barco tem funções diferentes, tem habilitações diferentes. Este símbolo para o movimento ecuménico é o símbolo certo. Devíamos refletir muito mais: “qual é o meu lugar neste barco?”. Se cada um de nós quer ser o comandante, não vai dar em nada. Se alguém pensa ser ainda mais do que o comandante, então é o vento! Isso vai dar uma confusão, a [tripulação] não vai avançar, vai haver um naufrágio. E na história da igreja já aconteceram alguns naufrágios. 

Este tempo da pandemia ensina-nos também algumas coisas, e uma das coisas que talvez dói um pouco é a humildade. Na igreja cada um tem o seu lugar, tanto homem como mulher, e cada denominação tem o seu lugar. E nós vamos avançar só com forças que estamos a juntar, e não a separar. O primeiro passo é o respeito.

Ilse Everlien Berardo, pastora da Igreja Evangélica Luterana Alemã na Madeira | Foto: Jornal da Madeira

Pedras Vivas 24 de janeiro de 2021 (leitura A4)

Pedras Vivas 24 de janeiro de 2021 (impressão A3)

 

Jornal da Madeira: Quando fala no caminho de confiança ao longo destes 33 anos, como nota essa confiança? 

Ilse Berardo – Na pandemia, a Igreja presbiteriana, que é também a nossa casa – por causa do espírito ecuménico da igreja presbiteriana – tem lugares para 25 pessoas. Mas sabendo que somos mais pessoas da nossa comunidade e também alguns turistas. Nós pedimos ao Sr. Bispo D. Nuno, se fosse possível, para ter a nossa celebração de Natal numa igreja da Diocese. E, sem hesitar, D. Nuno confiou-nos a igreja de S. Pedro, uma bela igreja. Nós ficamos muito felizes porque uma igreja relativamente grande permitiu a presença de um coro. Porque para nós, neste momento, é interdito cantar por razões sanitárias… mas Natal sem os nosso hinos?… Impensável! Assim, tivemos um coro madeirense da maestrina Dr.ª Zélia Gomes, e para nós eram vozes de anjos. Isto é o processo ecuménico: ter confiança, sabendo que nós temos o mesmo mestre. Por causa disso, talvez foi fácil a decisão de D. Nuno ao dizer “a nossa casa é também a vossa casa”. Isto é mais do que uma ideologia sobre o processo ecuménico, isso é um ato real.

O apóstolo Paulo, na carta aos Gálatas, descreve tão bem o que são os frutos do Espírito Santo, e nós estamos sempre a falar do Espírito Santo como se fosse um fenómeno muito distante da nossa postura na vida diária, mas não! O apostolo Paulo diz, claramente, “Tu tens que deixar-te tocar pelo Espírito Santo! Abre o teu coração! Entrega-te ao Espírito Santo e isso muda os teus atos. Tu ficas mais alegre, tu ficas mais gentil. Tu és uma outra pessoa. És a pessoa em Cristo”.

Jornal da Madeira: O tema desta semana de oração fala de frutos. É baseado no Evangelho de S. João: “Permanecei no meu amor e produzireis muitos frutos”.

Ilse Berardo – São João fala da videira. Tem a videira na mente. A videira tem ramos. Então nós somos os ramos. Se nós estamos a pensar que os ramos são mais importantes do que a videira, vamos secar, não vamos dar aquele fruto delicioso que é a uva, o vinho. 

É importante falar das imagens do Evangelho, da Bíblia, porque o nosso cérebro pensa em imagens e compreende logo o que S. João e o apóstolo Paulo querem dizer. Mas temos que fazer um pequeno esforço, porque neste momento estamos a viver muito do visual, mas o visual também precisa da reflexão. “O que significa esta imagem para a minha vida?”. 

A comunidade religiosa de Grandchamp, na Suíça, é uma comunidade que tem membros de 50 nações, de denominações e confissões diferentes, e tenta viver exatamente isso. Cada um tem a sua tradição, mas na nossa comunidade, estamos a formar um corpo. Formando esse corpo deixamos entrar o espírito de Cristo, sabendo que Cristo está a unir-nos.  Nós temos muitas vezes a ideia que a nossa capacidade de criar “ismos” é o essencial da fé. Mas, para mim, o essencial da fé é manter o coração aberto e deixar-se mover por Cristo. 

“O Papa Francisco aponta sempre para a humildade, e a humildade conduz a uma mudança no nosso comportamento ambiental”.

Jornal da Madeira: Em 2016 o Papa Francisco participou na cerimónia ecuménica na Suécia, por ocasião dos 500 anos da Reforma Protestante. Como viu essa participação?

Ilse Berardo – São sinais essenciais para o caminho ecuménico. Só através da vida ecuménica, a Igreja como um todo pode sobreviver. O Papa Francisco tenta este caminho, que não é um caminho fácil, porque cada denominação [confissão religiosa] pensa que sabe mais e melhor do que a outra, mas isso é a vaidade humana. O Papa Francisco aponta sempre para a humildade, e a humildade conduz a uma mudança no nosso comportamento ambiental. Porque se pensarmos que estamos a dominar esta terra, vamos arruiná-la. Um pouco mais de humildade. 

Jornal da Madeira: Neste sentido, o papa também falou sobre a fraternidade na última encíclica. Somos todos irmãos…

Ilse Berardo- A fraternidade tem de mudar o nosso comportamento entre povos, entre culturas, para com o ambiente, com a terra e também com a economia. 

Somos irmãos, mas sabemos muito bem que em cada família também há zangas entre familiares. Viver em família também é um processo de aprendizagem e de respeito, porque cada um tem que articular na família a sua ideia no todo que é uma família. 

Somos todos irmãos. Eu gostaria de juntar mais uma palavra: somos todos irmãos e irmãs. Este mundo não existe só em irmãos. Os irmãos têm de respeitar as irmãs e vice-versa. 

Jornal da Madeira: Qual o lugar da Palavra de Deus no seu caminho de fé?

Ilse Berardo- Eu aprendi muito cedo a rezar em casa, na família, e depois na escola dominical. Após a Missa dos adultos, o pastor lia uma história da bíblia e aos domingos dava-nos uma imagem para compreendermos quem eram os atores principais da história bíblica e também para rezar. Eu gostava de levar essa imagem para casa. Por exemplo, à frente estava a imagem de Noé com a arca e atrás a descrição. 

Quando entrei na faculdade em Marburgo foi o meu grande encontro com a filosofia, porque Marburgo está ligado ao grande teólogo Bultmann e ao filósofo Heidegger. Eles foram quase uma equipa de trabalho. Eu vivi esta aura de quase simbiose entre filosofia e teologia. 

Heidegger abriu os meus olhos para a linguagem. A linguagem não é só uma troca de ordens ou informações: a linguagem “fala”. A linguagem é um poder que atinge a alma da pessoa. Exatamente o que devíamos fazer na pregação: não só dar informações, mas   atingir o coração das pessoas. Quando isso acontece, a linguagem tem uma força enorme. 

“devo dizer que, neste tempo da pandemia, os frutos do Espírito Santo devem ser ainda mais visíveis também na solidariedade com aqueles que entraram em situações sociais difíceis”.

Jornal da Madeira: Porquê a sua opção pelo estudo da teologia? 

Ilse Berardo – Eu acabei o secundário e com dezasseis anos eu sabia claramente: “vou estudar teologia”. Mas, naquele tempo, na minha igreja local da região ainda não existia o lugar de pastora. Porque, na maior parte das igrejas luteranas, isso só existe há mais ou menos cinquenta anos. A minha igreja era muito conservadora e não deixava uma mulher subir ao púlpito. 

Quer dizer, eu joguei-me para a frente, para a teologia sem saber depois qual seria a minha colocação. Mas foi um encontro com Deus que tive e a partir daí eu sabia claramente, “eu vou estudar teologia e depois vou dar o meu contributo à igreja”. Eu penso que com as palavras tradicionais pode dizer-se que tive uma visão. Tive uma visão, eu senti-me chamada e um chamamento não se põe em dúvida, mulheres também podem ter um chamamento. 

Estudei teologia. Comecei com o grego e o hebraico e depois notei que estes eram os estudos da minha vida. Estes estudos nunca acabam porque há sempre algum aspeto novo a descobrir na palavra sagrada, e que eu gosto de aprofundar. Estes são os estudos da minha vida, são estudos eternos. 

Acabei a minha licenciatura e depois conheci o meu marido. O meu bispo na Alemanha disse-me, muito gentil: “vamos manter o seu lugar durante um ano, caso você mude de ideias ou se você voltar de Portugal”. Depois eu percebi que a Madeira era o lugar escolhido para mim. Eu nunca quis fazer da minha casa uma “pequena Alemanha”. O meu marido é católico, frequentou o seminário. Nós temos um casamento ecuménico. Assim, através do meu marido, e com a minha abertura à igreja católica, aprendi muito sobre o catolicismo, mas, de qualquer maneira, sou luterana. 

Eu dialogo com muitas pessoas da igreja católica, não só com padres, mas também com fiéis que amam a sua igreja e que gostam também de saber o meu ponto de vista. Temos muitas bases comuns e penso que estes diálogos são também um fruto do Espírito Santo. 

Depois devo dizer que, neste tempo da pandemia, os frutos do Espírito Santo devem ser ainda mais visíveis também na solidariedade com aqueles que entraram em situações sociais difíceis. Por causa disso, a nossa resposta ecuménica neste ano passa por apoiar as organizações que apoiam as pessoas em situações difíceis. Você vê o fruto, não é só o bem-estar dentro de mim: o fruto deve ser também um bem-estar para o outro. 

O fruto do Espírito Santo, de que as irmãs [da comunidade religiosa de Grandchamp] falam, não é unilateral, é bilateral. Eu vivo com este fruto do Espírito Santo, mas este fruto é para os outros participarem, [num] bem que vem de Deus. 

A partilha do fruto ultrapassa o nosso ecumenismo da igreja. Porque este é o ecumenismo da grande família humana. Eu não vou questionar se a pessoa é, [ou não], cristã. Não vou fazer um interrogatório. Eu vejo no outro, na sua situação, que é o meu irmão e a minha irmã, porque somos a família humana.