João Gonçalves: Ser diácono “é mostrar aos outros que Deus os ama” (Pedras Vivas 20.12.2020)

Suplemento Pedras Vivas de 20 de dezembro

O seminarista João Gonçalves vai ser ordenado diácono pelo bispo do Funchal no domingo 27 de dezembro, na Sé do Funchal. Publicamos a entrevista que o futuro diácono concedeu para a edição do Suplemento Pedras Vivas do dia 20 de dezembro.

Pedras vivas – Como aconteceu a descoberta da tua vocação e a entrada no Seminário Diocesano do Funchal?

João Gonçalves – Geralmente se entende, e bem, que alguém vocacionado é uma pessoa cuja aptidão para determinada área, profissional e não só, é evidente e realizadora. Por outro lado, curiosamente, encontramos na tradição bíblica alguns exemplos que parecem contradizer essa noção mais generalizada, pois, não raras vezes, os chamados para falar (anunciar) eram gagos, ou pouco cultos, parecendo que não eram os melhor preparados para desempenhar tal missão. Penso muito o meu lugar na Igreja como uma continuidade desses que, para espanto dos próprios, foram escolhidos sem perceberem muito bem o porquê de serem eles e não outros. 

Neste sentido, a minha entrada no seminário não se deu por alguma experiência extraordinária. Tal como hoje, era um rapaz comum, procurando encontrar o meu lugar no mundo com as inquietações próprias de quando se tem dezasseis anos. A Igreja foi fundamental nesse enquadramento, pois, a determinada altura, foi o lugar de liberdade onde pude pôr as questões fundamentais do sentido da minha vida. Passados oito anos, olho para esses momentos de crescimento humano, espiritual e intelectual, e percebo agora que não escolhi o caminho que segui, mas antes predispus-me a ser escolhido. Só assim sou capaz de me perceber naquilo que, dentro de poucos dias, virei a ser. 

“percebo agora que não escolhi o caminho que segui, mas antes predispus-me a ser escolhido”.

Pedras vivas – Neste momento estás no sexto ano no Seminário dos Olivais, qual a proposta formativa para este ano?

João Gonçalves O último ano aparece no percurso formativo como uma etapa de síntese, sendo como que o entremeio entre ser aluno do seminário e padre numa diocese.

É um período onde o estágio paroquial se intensifica e, academicamente, debruçamo-nos sobre matérias que se ligam mais directamente à acção da Igreja. 

Pedras vivas – Onde estás a fazer pastoral, como tem sido a experiência?

João Gonçalves Neste momento, estou a fazer o meu último ano de estágio pastoral na paróquia de Monte Abraão (Concelho de Sintra). Tem sido uma experiência muito feliz, sobretudo pelas pessoas que lá conheci. 

É uma paróquia com gente muito generosa, extremamente dedicada ao cuidado dos outros. Ali o amor ao outro é extremamente relevante, visto ser uma zona com vários problemas sociais que aos cristãos daquela paróquia não passam despercebidos. Se pudesse definir o que aquela igreja tem sido para mim, não erraria se dissesse que tem sido uma escola onde tenho aprendido o amor pelos últimos. 

“Penso que ser diácono é isto mesmo, mais do que desempenhar uma função litúrgica é mostrar aos outros que Deus os ama”.

Pedras vivas – Sobre o retiro que realizaste este mês, como correu?

João Gonçalves O retiro é sempre um momento que marca uma diferença qualitativa no espaço e no tempo da vida quotidiana, permitindo sair da parafernália diária para considerar, na acalmia, a vida nas suas tantas dimensões – é particularmente relevante quando se aproxima um dia tão importante como uma ordenação. Assim aconteceu comigo.

É costume dizer-se que, diariamente, falamos de Deus aos homens e mulheres e que, o tempo de retiro, é a hora de falarmos a Deus sobre aqueles homens e mulheres. Como já tive oportunidade de referir, aqueles dias de silêncio e oração serviram também para isso: para lembrar tantos com quem me cruzei na vida e que foram fundamentais para ser quem sou. Para além disso, é revigorante ter a oportunidade de dedicar uma semana para estar inteiramente dedicado a alguém que amamos tanto: Cristo! 

Pedras vivas – Daqui a poucos dias serás ordenado diácono, o que é ser diácono?

João Gonçalves O Papa Francisco tem um entendimento muito belo sobre o diaconado. Diz o Santo Padre que os diáconos são os guardas da caridade, isto é: do amor! Gosto de pensar que a caridade deve ser, na Igreja, guardada com tal intensidade que nos mova a olhá-la como um bem que quase se pode tocar, se é que não a tocamos já quando acolhemos aqueles a quem Cristo chamou de ‘os mais pequeninos’.

Penso que ser diácono é isto mesmo, mais do que desempenhar uma função litúrgica é mostrar aos outros que Deus os ama, gastando tempo com eles, ouvindo-os, acompanhando-os. É necessário gastar tempo com os outros! 

Em situações mais extremas é também missão dos diáconos garantirem o cuidado dos pobres, ajudando a que tenham uma vida digna – esta é uma dimensão que nunca podemos esquecer. É encargo da Igreja não só apontar para a vida depois da morte; urge anunciar a todos, principalmente no drama por que passamos actualmente, que também há vida antes da morte!

“Nunca deixem de procurar uma causa pela qual valha a pena empenhar a vida”

Pedras vivas – Que mensagem aos jovens que se sentem chamados ao sacerdócio ou à vida religiosa?

João Gonçalves Cada caminho é singular não tentem copiar percursos feitos por outros. Por isso mesmo, não desconsiderem as provocações que Deus vos faz por meio daqueles que estão à vossa volta ou nas situações pelas quais estejam a passar ou tenham passado. Nunca deixem de procurar uma causa pela qual valha a pena empenhar a vida; certamente não ouvirão uma voz do alto, o falar de Deus é mais delicado que isso, mas é preciso estar atento. Quem tudo dá a Cristo não perde nada, ganha tudo aquilo pelo qual o seu coração anseia. Deus ama-te, coragem!

 

Pedras Vivas 20 de dezembro de 2020 (leitura A4)

Pedras Vivas 20 de dezembro de 2020 (impressão A3)