O ensaio final

Eduardo Lourenço | Foto: Lusa

Faleceu no 1º de dezembro, o filósofo e ensaísta Eduardo Lourenço, que se destacou pela capacidade de reflexão crítica sobre a cultura portuguesa. Entre as formas de escrita, privilegiou o ensaio, devido ao carácter “híbrido” do género e à liberdade de poder exprimir-se “sobre os assuntos mais diversos, sem ter a preocupação sistemática de uma reflexão propriamente filosófica”. 

Na homilia das exéquias do ensaísta, o cardeal Tolentino recordou que, para Eduardo Lourenço, o ensaio é a tentativa de conter a tragédia inerente à história “nos limites do humanamente aceitável”, é a forma escrita “de uma existência que renunciou às certezas, mas não à exigência de claridade que nelas, em permanência, se configura”. 

Se considerarmos o ensaio como reflexão permanente, “espaço de dúvida”, “lugar de recusa de toda a pretensão a fixar” ou “heterodoxia”, então o ensaio é mais do que um género literário, é a atitude mesma que Eduardo Lourenço adotou perante a vida.

“A Eduardo Lourenço devemos a lição de interrogar não só a vida, mas também a morte com sabedoria, distanciamento e serenidade”, disse Tolentino. 

Conta-nos o cardeal Tolentino sobre Eduardo Lourenço, que só uma vez o viu chorar. “Estamos a falar de textos bíblicos, saltando sem cautelas de uma personagem para outra e, de repente, ele tropeçou, como o apóstolo Paulo terá tropeçado, na palavra Jesus. E os seus olhos se encheram de água e a voz de silêncio e soluços. Passou muito tempo para que me dissesse chorando: ‘Não há nada superior a Jesus. Já imaginou um Deus que diz bem-aventurados os pobres, os humildes, os misericordiosos, os puros de coração, os perseguidos, os que têm fome e sede de justiça, os que promovem a paz’? Não há nada superior a isto”.

No mês de abril, a Igreja católica havia distinguido Eduardo Lourenço com o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes 2020, destacando uma obra que reflete “o humanismo e a experiência cristã”.

Eduardo Lourenço definiu a morte como “essa ausência” que “não pode ser dita, não pode ser descrita”. Pois a sua ausência deixará, certamente, um lugar vazio na cultura portuguesa.