Saúde mental, covid-19 e crises sistémicas

D.R.

Dia da saúde mental (10.10.2020) pede reflexão e ação saudável. Pede não às alienações, desorientação e confusões sistémicas. Mas como? São várias as áreas de saúde e doença mental a que se associam crises de quase tudo. A saúde mental o ano passado já era muito deficiente por falta de meios e agentes. Este ano, temos um feixe de crises à volta da pandemia; muitos problemas.

Já imaginou o que é a confinamento de quem já está confinado pela doença, não poder ter visitas por perto nem frequentes? Já experimentou, sozinho, e ficar privado de apertos de mão de técnicos, auxiliares, voluntários, amigos e familiares? Eram quase os únicos gestos de afetividade relacional para alguns. Agora torna-se um confinamento dentro doutro. O de não poder circular nem dentro dos espaços internos das instituições nem nos passeios exteriores, em grupo ou, para alguns, com familiares e amigos. E será tudo? Nem por sombra. Leitor, espere; mesmo agora uma pessoa chama, gostava que fosse falar com ela cinco ou dez minutos, que não tem por ali ninguém […]. Foi um bate-papo de máscara que a aliviou.

A saúde mental fora de muros é afetada por outros fatores. Os familiares próximos deixam de se visitar por medo de contágio e de contagiar. Mais um ou mais outro. E quando se visitam, ficam à distância, a falar por baixo das máscaras e a fazer-se entender muito mal. E outros a desejar que este e aquele familiar não venha visitar, e ele também encontra razões para não ir, nem quer ficar em casa do familiar ou comer à mesa com ele (a). E não é tudo.

As ameaças à saúde mental vêm também da epidemia da crise económica com empresas fechadas, desemprego, falta dos salários e nuvens sombrias que pairam para amanhã. E as ansiedades dos que tem filhos e netos a frequentar escolas? Será contagiado? E se adoece e trás os vírus para casa? Os lares, para muitos, não têm sido focos de inquietação para os idosos e para os familiares; e para os serviços sociais e de saúde? Todos os dias as notícias avivam e aumentam as feridas da crise. Há também a insegurança, incertezas e contradições nas informações de especialistas, profissionais de saúde, autoridades governativas e líderes religiosos. Dos de perto, de longe e do estrangeiro. Muitos procuram tranquilizar dos alertas dos outros; estes dizem que a sabem de uma maneira para logo outros sábios dizerem que a sabem doutra maneira, ou que não se sabe. E a saúde mental das pessoas aguenta tantos ventos de incerteza, dúvida, contradição e desmentidos? Recorre-se às redes sociais à busca de segurança e ainda se fica mais inseguro com tantas fontes e fakenews. Nada é seguro; sobre pouco há consensos. São mais a manipulações, guerras de desinformação e de blá, blá, que certezas tranquilizadoras. 

Sim, alguns doentes, confusos, estão nos hospitais psiquiátricos; outros, muitos, medrosos, ansiosos, inseguros e confusos, andam pelas ruas, lugares de trabalho, estudo e lazer. Nem faltam os que se sentem perdidos, presos 10-15h/dia a máquinas de redes sociais labirínticas que lhes roubam o tempo, liberdade, o pensar próprio e a tranquilidade. Serão cerca de 25% assim “infetados” (cf. Maria Joana Caetano, Dilema das redes sociais…DN 19.set.2020). E outros amarrados às raspadinhas e máquinas de jogo, iludidos que elas lhe vão dar o dinheiro que não lhes vem do trabalho e salário, que não têm. Enfim, doenças nervosas de um cérebro e dos neurónios dependentes de obsessões de prazeres e ânsias a exigir repetição constante das mesmas promessas de prazer ilusórias…a viver ansiedades à maneira das do álcool e das drogas…Quem se admira que faltem profissionais para tanta (falta) saúde mental? Deixem-me sugerir também os meios espirituais da oração, como um amigo psicólogo ateu (dizia), me surpreendeu por telefone e carta: Aires, andas em stresse, a querer ajudar a todos. A oração do terço pode descontrair-te e reduzir o teu stresse. Como padre, é o que sugiro para estes dias de outubro e peregrinação do dia 13.