Idosos em férias inter-ativas cá dentro (I)

Alfaiates, Sabugal | D.R.

Vem aí o Dia Internacional do Idoso, 1.10.2020. Não basta insistir no envelhecimento ativo. Os idosos precisam de interatividade para o seu bem-estar. Estas linhas sobre miniférias de três idosos são apenas um exemplo. No início de setembro praticaram interatividade a partir de Alfaiates. Tarefas de guia, condutor, cronista, cozinheiro, mapista (mapa à mão), tudo previsto e imprevisto em atividade espontânea do “logo se vê”. Fugir a cidades ruidosas e vias rápidas, para ler camadas de história por aldeias e vilas sossegadas, quase “mortas”, ruas de silêncio e vestígios de muitos séculos. De dia contemplavam-se os barrocais graníticos, as espécies arbóreas dos planaltos e das serras até mil, dois mil metros; à noite os astros, a dizer: estamos aqui há milhões de anos, reparem em nós.

Por calçadas de granito duros, castelo e vestígios históricos, a dizer: leiam-me; igreja, misericórdia e o seu lar, a lembrar a identidade cristã e a apelar a visitar amigo idoso, quase esquecido regressado do Brasil.

Visita, oferta de livro, ao portão, aberto para a foto, por ser em tempo de pandemia. Aldeia de 350 moradores (já foram cerca de 10 mil), possui também a Igreja de Nossa Senhora de Sacaparte, ruinas do convento-hospital a evocar o cuidado aos agonizantes, (ainda haverá agonizantes, hoje?), a caridade hospitaleira de um dos santos patronos dos doentes, S. Camilo de Lélis, e a sua Ordem, extinta em Portugal pelo liberalismo cristianófobo, em 1834. Recinto imenso coroado por cruzeiro a proclamar Cristo.

Vagueou-se por aquele Sabugal de dezenas de aldeias com as áreas de carvalhos, castanheiros, pinheiros e flores a enfeitar lameiros e rodear as casas; as Quintas de S. Bartolomeu onde não se viu viva alma; Torre com o busto do ilustre dominicano, Frei João Domingos Fernandes; visita em Aldeia da Ponte um colégio em obras, onde os Irmãos de S. João de Deus, assistiram órfãos pobres em 1892-1897; Ruvina para visitar o presidente da Câmara, em sua casa, e troca de livros, sem omitir passagem pelas novas termas do Cró. Na vastidão da Beira Alta e do Riba Coa, a partir do tratado de Alcanizes (1297), sobrepõem-se marcos de identidade nacional, raízes cristãs e marianas em santuários, igrejas e castelos. Mais ao norte, a Praça forte de Almeida chama os anciãos a visitar a original “Casa da Memória”.

Entretanto, pelo caminho, um dos guias, narra a suas andanças e encontros com colegas médicos. Uma delas rezava assim: perguntava, à vez, um deles: de quem é que vamos falar mal, hoje? As narrativas de humor não param nos tempos de recreio. Mas, falava eu da Casa da Memória. O que é? Uma Casa nobre da história de Almeida, restaurada a rigor e mobilada por um Professor da História da Arte. Valeu a pena esta novidade na Praça Forte. Tinha cavalariça para 12 cavalos, sala de trono (!), capelinha, esconderijo… O cronista do grupo repetiu o gesto de oferecer o seu livro, Mensagens de Quarentena, ao amigo, criador deste projeto cultural, Augusto Moutinho Borges. 

O guia-mor teimou que haveria atividade fora. A famosíssima “Nuestra Señora da Penha de Francia” em pináculo de 1800 metros esperava a nossa visita, a uns 80 kms. Cenário de maravilha, de sol sem nuvens, a deixar ver, do miradoiro, cordilheiras da serra da Estrela a Ávila. Convite ao enlevo pelas alturas e abóbada celeste em que Nossa Senhora reina sobre os seus territórios, desde que foi encontrada ali a sua imagem por Simão Vela em 1434, e os protege apesar de tantas de guerras e pandemias da natureza.

No cimo, capela da imagem aparecida, igreja, mini-mosteiro, hotel, restaurante e cafetaria. Dezenas de turistas jogavam à defesa contra o virus: põe máscara, tira máscara, mantém distância! À imagem de Maria acendem velas e rezam, talvez a pedir graças de eternidade.

Conta-se uma aflição: numa das subidas àquela montanha abençoada: inesperadamente, disse o contador, um nevão, sem avisar, quase ao cimo, impedia o carro de avançar e de recuar. Valeu o acolhimento “quente”, no edifício da TV e o socorro de limpa neves. Na descida faz-se piquenique saboroso junto a fonte, antes de visitar, ali perto, a cidade típica de La Alberca, famosa por ter nas ruas um porco, a criar para a festa anual (só vi o de pedra); e dezenas de lojas cheias de presuntos de pata negra. Estranha cidade, original pelas suas arcadas e pelas suas paredes e sacadas de pedra e madeira de carvalho e castanho.

Na igreja medieval românica, a Virgem Maria e o altar acolhem as orações de alguns cristãos. Fotos na praça do cruzeiro e do porco, e, já pelas estradas de regresso, contam-se mais narrativas inter-ativas autobiográficas, ao desafio, sobre sítios visitados por estes idosos: Índia, Egito, Coreia, Austrália, Brasil… Voltamos com mais leituras ativas e recordações num segundo apontamento.  

 Riba Coa, 1-3.09.2020