O cónego Fiel de Sousa presidiu na manhã de sexta-feira, dia 21 de agosto, à Eucaristia dos 512 anos da Cidade do Funchal. Na oportunidade, o vigário geral da diocese defendeu que “não podemos esquecer os nossos deveres de cidadania” e que “estes deveres devem ser a prioridade daqueles que são os primeiros responsáveis na condução dos destinos desta cidade e extensiva a todos os munícipes”.
Mas na homilia desta celebração, que contou com a presença das autoridades Municipais, e representantes das principais entidades regionais, o cónego Fiel começou por lembrar que, nos tempos que correm, se “ousa dizer erradamente que não é necessária a intervenção das forças divinas na vida dos homens, pois essa mesma humanidade já ultrapassou essa fase de acreditar em algo superior”. Porém, ao “celebrarmos o dia da cidade queremos fazer memória agradecida do trabalho humano realizado pelos nossos antepassados e atualmente por nós, com a força e a ajuda do altíssimo”.
De resto, disse, “a vida e o progresso das nossas ilhas são fruto desta simbiose, homem e Deus”. E “quer negá-lo, seria contradizer a génesis e a essência de toda a nossa vivência de ilhéus”.
O vigário geral lembrou ainda que a “tentação dos homens de se demarcarem de Deus”, não é nova, mas “redundou sempre em fracasso”. A mãe natureza, tal como diz o ditado, “prega partidas por vezes muito dolorosas, como a que estamos a viver neste tempo de pandemia”.
Nestas alturas – de aluviões, incêndios e pandemias – “os cidadãos madeirenses e portosantenses jamais deixaram de evocar Cristo, Nossa Senhora e todos os Santos”. A prova é que “a urbe funchalense e com ela toda a Diocese do Funchal preparam-se para celebrar, no próximo ano 2021, os 500 anos de São Tiago Menor para protetor da cidade do Funchal”.
Mas este povo que pede é também um povo que sabe agradecer. E essa gratidão “manifesta-se não numa atitude de altivez, mas na humildade”, como aconteceu com o leproso estrangeiro de que nos falava o Evangelho, o único de 10 que voltou atrás para agradecer a cura. Esta é, “a atitude de quem reconhece que tudo o que fazemos, por obras ou palavras, deve ser tudo em nome do senhor Jesus”.
Embora tenha reconhecido que a Cidade do Funchal, como tantas outras, “vive momentos dramáticos e de incertezas, perante o futuro, devido a esta pandemia”, o cónego Fiel defendeu que os tempos não devem ser, no entanto, “de desespero e de desânimo”, nem tão pouco de dúvidas relativamente ao valor da fé.
“Há muita gente que questiona o valor da fé e a intervenção divina nesta situação de pandemia, nos acidentes de causas naturais ou de outra espécie, com feridos e mortos”, constatou o vigário geral, para logo acrescentar que “a fé não contradiz a razão e a ciência nem a importância da colaboração humana”. Quer isto dizer que “Deus conta sempre com o homem”, e neste caso “com aqueles que estão na linha da frente, sobretudo, as autoridades políticas e médicas para prevenir e curar as doenças”, a quem, de resto, agradeceu.
O cónego Fiel terminou desejando que, mesmo neste tempo atípico, não nos esqueçamos dos “deveres de cidadania” os quais, frisou, devem “ser a prioridade daqueles que são os primeiros responsáveis na condução dos destinos desta cidade, extensível a todos os munícipes”, e em conjunto “trabalhemos com o objetivo de ver um futuro brilhante e radioso”.
A terminar uma referência para o Coro de Câmara da Madeira, sob a direção da maestrina Zélia Gomes, que solenizou esta Eucaristia com a qual se iniciaram oficialmente os festejos do Dia da Cidade do Funchal.
Leia na íntegra a homilia do vigário geral da Diocese do Funchal:
DIA DA CIDADE, 21 de Agosto de 2020
“Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?”
Hoje, como já é habitual no dia da cidade, começámos pela manhã a bendizer ao Senhor, Deus do Universo, que realiza grandes coisas em toda a terra. No nosso caso, esta cidade do Funchal, encravada neste belíssimo anfiteatro que rodeia a nossa capital, convida nos ao Louvor e Ação de Graças. Com todo o júbilo, louvamos a Deus pelos 512 anos da criação da nossa Cidade. Nos tempos que correm, ousa-se dizer erradamente que não é necessária a intervenção das forças divinas na vida dos homens, pois essa mesma humanidade já ultrapassou essa fase de acreditar em algo superior.
Ao celebrarmos o dia da cidade, queremos fazer memória agradecida do trabalho humano realizado pelos nossos antepassados e, atualmente, por nós com a força e ajuda do Altíssimo. A vida e o progresso das nossas ilhas são fruto desta simbiose, homem e Deus. Querer negá-lo, seria contradizer a génesis e a essência de toda a nossa vivência de ilhéus.
A luz da misericórdia divina
Assiste-se, na sociedade hodierna, a uma miopia e recusa, cada vez mais crescente, em relação à intervenção divina na vida humana. A liturgia da Palavra, porém, que escutámos, evidencia, na cura dos leprosos, os sentimentos de misericórdia, bondade, mansidão e paciência de Jesus e a ingratidão dos que foram curados, incapazes de voltar atrás para agradecer e dar graças a Deus.
Ao longo da história, esta tentação dos homens de se demarcarem de Deus, acreditando nas suas próprias forças, redundou sempre em fracasso. Diz o ditado: “a mãe natureza prega partidas, por vezes, muito dolorosas, como a que estamos a viver neste tempo de pandemia. Como dizia alguém: “Deus perdoa sempre, os homens algumas vezes, mas a natureza nunca perdoa”.
Se alguém tem respeito pela natureza são os habitantes das nossas ilhas. E nos momentos mais difíceis, como as aluviões, os incêndios e pandemias, os cidadãos madeirenses e portossantenses jamais deixaram de invocar Cristo, Nossa Senhora e os Santos.
A urbe funchalense e com ela toda a Diocese do Funchal preparam-se para celebrar, no próximo ano 2021, os 500 anos da escolha de São Tiago Menor, para protetor da cidade do Funchal, que estava a ser atingida por uma terrível peste, que então dizimava a Europa e a nossa cidade.
S. Tiago Menor – Protetor da cidade
Rezam as crónicas de então, que reunido o cabido, os sacerdotes e todas as autoridades e povo de Deus, foi pedido a uma criança de nome João, com sete anos de idade, para tirar à sorte, entre os vários santos escritos em pequenos pedaços de papel, colocados num barrete, o Santo Protetor para esta cidade do Funchal.
No evangelho de hoje encontramos dez leprosos, que foram curados, mas só um, e por sinal estrangeiro, voltou atrás para agradecer. Na Bíblia, há três classes de pessoas que merecem uma atenção especial: os estrangeiros, as viúvas e as crianças órfãs. São os que estão mais dependentes dos outros, menos poderes possuem na sociedade ou que menos contribuem para o progresso económico e social. Por sinal, são, também, aqueles que têm um coração humilde e sabem agradecer
Não é o momento oportuno, neste dia da Cidade, fazer uma leitura mais aprofundada deste gesto de ser uma criança a tirar a sorte de São Tiago, e num barrete, o nosso ex-libris do vestuário, e não num vaso de prata. Mas este gesto simboliza profundamente a alma deste bom povo madeirense, que na sua dependência e resiliência, devido a tantas contingências geográficas, jamais deixou de ser aquele que sabe agradecer. Esta gratidão manifesta-se, não numa atitude de altivez, mas de humildade, como o leproso estrangeiro do evangelho, que voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz e prostrou-se de rosto por terra aos pés de Jesus para lhe agradecer. Talvez muitos acham esta atitude de submissão, própria do senhor- escravo. Pelo contrário, significa uma atitude de quem reconhece que tudo o que fazemos por obras ou palavras, deve ser tudo “em nome do Senhor Jesus, dando graças, por ele a Deus Pai”.
Se é verdade que os nossos barretes, como símbolo identificativo do nosso vestuário ao longo dos séculos, defendendo-nos do frio e protegendo do sol nestes 600 anos, também o é na história de fé dos Madeirenses. Foi num simples barrete que foi escolhido, há 500 anos, o protetor da nossa cidade do Funchal.
Uma cidade e diocese protegidas pela Senhora do Monte
A nossa cidade, como tantas outras, vive momentos dramáticos e de incertezas, perante o futuro, devido a esta pandemia. A cidade do Funchal foi um deserto em tempos de confinamento, como dizia o nosso Bispo na festa de Nossa Senhora do Monte, no dia 15 de Agosto. Mas Maria venceu o Dragão, nesse mesmo deserto, que lhe queria devorar o Filho varão. Os tempos são difíceis, mas não de desespero e desânimo. Dizem que os demónios conseguem adeptos, não nos grandes pecadores, como seria natural, mas sim nos que desanimam, nos que já deixaram de lutar, de viver, de encontrar sentido para a vida, no meio deste crise económica, distanciamento social e desconfortos, a todos os níveis, que esta situação acarreta.
O evangelho de hoje fala-nos numa pandemia que era na altura a lepra: vieram ao encontro de Jesus 10 leprosos. As consequências da lepra, naquele tempo, ainda eram piores que as pandemias dos nossos dias, pois além do distanciamento social, eram abandonados à sorte, ao abandono e à morte. É de importante relevância a atitude de Jesus, quando diz aos leprosos: “ide mostrar-vos aos sacerdotes”. Há muita gente que questiona o valor da fé e intervenção divina, nesta situação de pandemia, nos acidentes de causas naturais ou de outra espécie, com feridos e mortos. A fé não contradiz a razão e a ciência, nem a importância da colaboração humana. “Ide mostrar-vos aos Sacerdotes”! Da parte de Jesus significa que ele faz a sua parte, mas não deixa de contar com a inteligência e ação humana, porque eram os sacerdotes que faziam a integração dos leprosos curados, na sociedade. Deus conta sempre com o homem. Também podemos dizer, que conta, no meio desta pandemia, com aqueles que estão na linha da frente, sobretudo, as autoridades políticas e médicas para prevenir e curar as doenças. Como o doente estrangeiro que agradeceu a Jesus, também nós queremos agradecer a todos os que arriscam a vida para salvar os outros.
Jesus está no meio de nós
A grande certeza da fé, é sabermos que Jesus não está ausente, mas está presente no meio de nós para nos ajudar, em todas as situações difíceis da nossa vida. De facto, em cada infetado pelo vírus ou outra doença, Jesus identifica-se com ele, em cada irmão que morre ele morre com ele, em cada recuperado ele recupera com ele, em cada desempregado, Ele vive essa situação e podemos multiplicar tantas e tantas situações. Ele assume a situação de tantos estrangeiros que gostariam de visitar as nossas ilhas e não o podem fazer. Tudo o que é humano e bom, Deus assume todas as realidades humanas menos o pecado.
Nesta celebração deste dia da cidade, atípica, em relação aos outros anos, não podemos esquecer os nossos deveres de cidadania. Estes deveres devem ser a prioridade daqueles que são os primeiros responsáveis na condução dos destinos desta cidade e extensiva a todos os munícipes.
A beleza ecológica das nossas montanhas verdejantes, das nossas serras e jardins, deste anfiteatro, banhado pelo azul do mar e da baía funchalense, convida-nos a olhar até aos confins do mundo e não pode ser ofuscado pelas nuvens do desânimo, da depressão, de ver passar o tempo. Pelo contrário, trabalhemos com o objetivo de ver um futuro brilhante e radioso como o sol, que nos visita em cada dia, bem estampado no amarelo da bandeira da nossa cidade. Que a beleza dos nossos socalcos, construídos com pedras basálticas da nossa ilha, património reconhecido, em todo o mundo, sejam o símbolo da resiliência a todos os obstáculos agora vividos com esta pandemia.
A vida é medida pelo amor
Para nós, que temos fé e para aqueles que não a têm, vamos pedir ao Senhor, como ouvimos na primeira leitura, que “Ele nos dê a alegria do coração e conceda a paz às nossas ilhas e a todo o mundo, agora e para todo o sempre.
São Paulo, na segunda leitura, pede aos cristãos que” acima de tudo, se revistam de caridade que é o vínculo da perfeição”. Literalmente, não se trata de se revestir e munir das batas, fatos e máscaras que os nossos profissionais de saúde vestem, por obrigação, com grande sacrifício e incómodo e que muito agradecemos, para não prejudicar ninguém e defender a sua vida, a vida dos doentes e familiares. As vestes que são Paulo fala, são as vestes que o homem tem de vestir no seu dia a dia, quer em tempos de pandemias ou sem elas. São as armaduras ou as defesas fortes, que devemos possuir para combater as pandemias do egoísmo, das indiferenças, das solidões, do desemprego, de toda e qualquer espécie de violência. Estas vestes evangélicas devem contagiar os outros, pois, com elas, acabam-se as pandemias que viciam as relações humanas e abrem o caminho para a verdadeira paz.
Se aparecer na natureza pandemias como esta, que estamos a sofrer, os sacrifícios que nos são pedidos serão sempre em vista de um bem maior, alimentados pelo vínculo da caridade e do amor. O Papa Francisco lembra-nos de uma forma feliz: “em tempo de pandemia, a vida é medida pelo amor”.
S. Tiago Menor, rogai por nós!
Nossa Senhora do Monte, rogai por nós!



















