Cancelamento de procissões reduziu produção da fábrica de velas em 60 por cento

Foto: Duarte Gomes

Quando chegamos ao nº 158 da Estrada dos Moinhos, no Caniço, o espaço ainda estava fechado. Se fosse noutra altura já por ali haveria de andar gente pronta a dar início a mais um longo dia de trabalho. Mas a pandemia também mexeu com este negócio.

Rui Noronha, abre a porta e convida-nos a entrar. As narinas detetam logo o cheiro familiar da cera. Porém, só mais tarde com o decorrer da conversa e da visita guiada, percebemos o porquê do odor constante: a cera encontra-se em reservatórios que a mantém quente, o que faz com que o cheiro não desapareça.  

Infelizmente esta não é, de todo, a melhor altura para se falar de produção de velas, cirios e dos demais ex-votos, o que à letra, se traduz como ‘por causa de um voto’, ou seja, algo que se dá, ou que se faz, por causa de um voto, de uma promessa que se fez. E não o é mesmo quando estamos a falar da única fábrica que, na ilha, se dedica a tal produção e que, em ano normal, ultrapassaria eventualmente as 20 toneladas de velas.

E também não foi “o melhor ano para fazer o grande investimento que fiz aqui”, confessa Rui Noronha, um dos sócios da “Velas Alves, Noronha, Lda”. Apesar de não ter parado a laboração por causa da pandemia, o certo é que o negócio sofreu “uma quebra de 60 por cento”, com o cancelamento das procissões e o adiar do pagamento de milhares e milhares de promessas. 

10 horas e mais de trabalho

Mas então, como seria um dia de trabalho na “Velas Alves, Noronha”, se este fosse um ano e um mês de agosto normais? Os olhos de Luís ficam mais pequeninos por causa do sorriso, que nem a máscara esconde. “Num mês de agosto normal não chegam as oito horas de trabalho. Temos de fazer 10, 12, 15 horas aqui dentro, para poder dar resposta aos pedidos”. Neste momento, os pedidos são tão poucos que “sozinho dou conta do recado”. 

Ainda assim, os quatro postos de trabalho da fábrica, nos quais se incluem os de Rui e da sua sócia, mantêm-se, na esperança de melhores dias.

Mas se os pedidos diminuíram em quantidade, os clientes, esses, continuam a ser mais ou menos os mesmos. São sobretudo as paróquias espalhadas pela ilha, que mais compram e é a elas que Rui vai depois buscar a cera para reciclar, sendo que a cera que vem das igrejas é reutilizada e volta para as mesmas igrejas. 

No dia em que fomos visitar a fábrica Rui estava a fazer velas para a Sé e para a Paróquia dos Canhas. 

Tirando as paróquias, a fábrica também produz para “as lojas dos trezentos e para loja onde se vendem artigos esotéricos”. Além disso também vende para alguns particulares.

Negócio centenário

Rui Noronha explica à reportagem do Jornal da Madeira que aprendeu a fazer velas com a sogra. A fábrica, com “mais de 100 anos”, pertenceu à família da ex-mulher, até passar para as suas mãos e da atual sócia. Primeiro funcionou em Santa Cruz e só depois passou para o Caniço, onde hoje se encontra, onde funciona já há 20 anos.

Nessa altura, recorda, o trabalho era muito mais demorado. “Pendurava-se o pavio e com um canjirão ia-se deitando a cera. Esperava-se que arrefecesse e repetia-se a operação” sempre e tantas vezes quantas as necessárias para ficar com o diâmetro pretendido. 

Hoje o processo é muito mais simples, sendo usado o “sistema de mergulho”, em que “o pavio vai sendo mergulhado no depósito da cera uma e outra vez até ficar com a espessura desejada”. Depois, “com a ajuda de uns calibradores, com o diâmetro da vela, são retirados os excessos, seguindo depois para o corte”, que agora já é feito com a vela fria.

Mas a grande diferença está mesmo no número de velas que se consegue produzir usando um e outro método. “Antigamente eu conseguia fazer 100 velas por dia, hoje faço três rodas daquelas o que dá 600 velas à vontade”.

Outra particularidade é que há depósitos de matéria prima – parafina e estearina – que permanecem ligados 24 horas, o que facilita o recomeçar do trabalho. 

“O branco, o preto, o das velas da igreja e tudo aquilo que tem mais saída fica ligado constantemente. O resto é tudo derretido a gás”. Nesse caso os depósitos têm de ser “ligados às 9 horas da manhã, para se começar a trabalhar às 4 da tarde e depois em duas horas, fazer a roda”, ou seja, 208 velas.

À parafina e à estearia, Rui explica que “junta um pouco de cera reciclada porque esta, ao ser queimada, perde parte da sua oleosidade, o que depois ajuda a endurecer as velas novas”. Neste caso a cera reciclada vem, por exemplo, do Largo da Fonte, no Monte. “As pessoas acendem lá muitas velas e eu costumo comprar essa cera. Todas as semanas trago à volta de 120, 150 quilos de cera reciclada de lá”.

O processo de mergulho garante ainda que as velas duram mais tempo na hora de queimar. “Uma vela branca normal, de supermercado, arde em duas, três horas. Uma vela das minhas, do mesmo tamanho, demora seis, sete horas a arder, sem derramar e sem fazer fumo”. 

Pernas, as cabeças e meninos

Tirando as velas para as igrejas e os círios, que no máximo medem 1,60 metros e pesam 950 gramas, a fábrica também produz velas para batizados e casamentos (decorativas) e para o Natal, presépios. Além disso, também se fazem as chamadas promessas de corpo – mãos, pernas, cabeças, etc. e meninos de dois tamanhos.

Aqui já são usados os moldes. Mas, mesmo assim, o trabalho exige atenção. “Nós deitamos a cera, quando ela começa a arrefecer tiramos o excesso, deitamos água para arrefecer e só depois abrimos o molde”, explica.

Neste caso, as pernas, as cabeças e os meninos são as figuras mais procuradas pelos devotos, que as entregam em agradecimento pela graça alcançada.

E será que quem fabrica todos estes artefactos, também costuma pagar promessas? Rui Noronha ri-se, enquanto confirma que sim. “Também tenho por hábito acender as minhas velas e também tenho as minhas promessas”.