Vaticano: Mensagem e oração por ocasião do Domingo do Mar (texto integral)

D.R.

Mensagem e oração do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral por ocasião do Domingo do Mar, 12.07.2020

Queridos irmãos e irmãs em Cristo, amados capelães, voluntários, amigos e apoiadores da Stella Maris, O Domingo do Mar deste ano deveria ser una celebração de alegria em vista do centenário marcado para o próximo mês de outubro em Glasgow, Escócia (agora adiado para 2021). Em vez disso, ocorre em um momento anômalo e particularmente difícil, que Papa Francisco expressou com as seguintes palavras: “À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos” [1].

Pensamos nos parentes e amigos das inúmeras vítimas do coronavírus (entre as quais muitos marítimos) e nos sentimos angustiados e desorientados com a incerteza do futuro.

A pandemia da COVID-19 forçou muitos países a impor um lockdown e a fechar muitas empresas na tentativa de impedir a difusão do vírus. Todavia, a indústria marítima continuou a operar, acrescentando uma infinidade de desafios à vida dos marítimos, já por si problemática, colocando-os na vanguarda da luta contra o coronavírus.

Os navios que transportam cerca de 90% dos produtos que nos são necessários para continuar a viver normalmente nessas circunstâncias difíceis, como os produtos farmacêuticos e os equipamentos médicos, continuaram a navegar. Antes de parar completamente, a indústria de cruzeiros lutou para convencer os governos e as autoridades portuárias a manterem os portos abertos onde poderiam desembarcar com segurança seus hóspedes. Ao mesmo tempo tentou freneticamente encontrar o modo de conter a difusão da infecção entre os passageiros e a tripulação de navios que se tornaram incubadoras da COVID-19.

Apesar do papel fundamental desempenhado pelos marítimos na economia global, um papel de grande importância e necessidade que organizações e instituições tentaram enfatizar durante a crise causada pela COVID-19, as legislações atuais e a política predominante apenas os consideraram.

Por este motivo, o Domingo do Mar é uma oportunidade para reavaliarmos o papel dos marítimos e lembrar alguns dos problemas que afetam negativamente suas vidas e que agora são agravados pela suspeita e pelo medo de contaminação.

Em uma situação como essa sem precedentes, os tripulantes, que já haviam passado de seis a dez meses a bordo, tiveram que sofrer o grande inconveniente de prolongar seu período de trabalho, com consequência de um aumento de fadiga pessoal, da ausência prolongada de seus familiares queridos e do conforto de seus próprios lares. Os 100.000 marítimos que, segundo as estimativas, todos os meses concluem seu turno contratual e esperam ansiosos para voltar para casa, não conseguiram fazê-lo devido a propagação da COVID-19 e ao consequente fechamento das fronteiras nacionais e ao cancelamento de voos. Como consequência, milhares de marítimos que estavam prontos para partir para a rotatividade necessária ficaram bloqueados em hotéis e dormitórios em todo o mundo, limitados a depender de instituições de caridade para suas necessidades básicas, como alimentos, produtos de higiene pessoal, cartões SIM, etc.

Devido à impossibilidade de sair dos navios e do acesso limitado ao porto a fim de efetuar visitas a bordo, os marítimos do navio sofrem isolamento e estresse psicofísico grave que leva muitas tripulações à beira do desespero e infelizmente, de cometer suicídio.

Temos relatos de muitos marítimos com condições médicas graves e com risco de vida, não relacionados a COVID-19. Todavia estes precisam de atendimento médico urgente nos hospitais locais, tratamento que, infelizmente, lhes foi negado ou atrasado até que precisassem ser transportados em macas para tais hospitais. Além disso, os marítimos que retornam para casa após uma viagem longa e dramática foram submetidos a quarentena e sofreram discriminações em seu próprio país por serem considerados portadores do coronavírus.

Infelizmente, devemos lamentar o facto de que, enquanto os marítimos, com dedicação e às custas de enormes sacrifícios pessoais, estão trabalhando para manter as cadeias de abastecimento em funcionamento, alguns armadores, agências de recrutamento e gerentes sem escrúpulos usam a desculpa da pandemia para revogar suas obrigações para com eles, recusando-se de garantir seus direitos trabalhistas, salários adequados e a promoção de ambientes de trabalho seguros para todos.

Segundo um relatório, os primeiros três meses de 2020 registraram um aumento de 24% nos ataques e tentativas de sequestros de piratarias em comparação com o mesmo período de 2019. Aparentemente, o coronavírus não interrompeu assaltos à mão armada que continuam sendo uma ameaça para os marítimos, aumentando a ansiedade e apreensão a existências, que já estão sob pressão devido à incerteza causada pelo vírus.

Além das experiências acima mencionadas dos marítimos, que descrevem uma forma perigosa de subsistência, devemos agora considerar a ameaça real de perder até mesmo essa forma precária de renda, porque para muitos isso significará a perda total de renda e como consequência a incapacidade de assumir responsabilidades sociais e domésticas, como por exemplo, pagar as contas, educar os dependentes e o bem-estar da família.

À luz do exposto, a celebração do Domingo do Mar, especialmente pelos cristãos, deve convidar todos nós a exercer “uma opção preferencial pelos pobres”, marítimos, uma opção de viver em solidariedade com eles. São João Paulo II definiu a solidariedade uma virtude e chamou de “compromisso indispensável para o bem-estar do próximo”.

Essa deve ser a nossa atitude em relação a esses marítimos, pois as pessoas que não são pobres apenas porque constantemente expõem suas vidas ao perigo, mas que fazem isso para garantir a circulação de mercadorias para uma economia global saudável, realmente merecem nossa atenção, estima e nossa gratidão.

Por este motivo queremos relançar a mensagem do Secretário Geral da IMO Kitack Lim: “Não estais sós. Ninguém vos abandonará”.

Não estais sós: os capelães e voluntários da Stella Maris vos acompanham onde quer que estejais, não necessariamente no topo da passarela, mas através de uma “capelania virtual” que vos mantém em contato através das Mídias sociais, sempre prontos para atender à vossa chamada, para oferecer um ouvido compassivo e rezar pelo vosso bem-estar e pela segurança de vossa família.

Ninguém vos abandonará: os capelães e voluntários da Stella Maris vos acompanharão nos próximos meses, quando a vossa capacidade de resiliência for colocada à prova, eles tentarão responder às vossas necessidades materiais e espirituais. Eles sempre estarão ao vosso lado, aliviando as vossas preocupações, defendendo os vossos trabalhos e os vossos direitos, e, combatendo a discriminação.

Não estais sós. Ninguém vos abandonará: no mês de agosto, a intenção da oração universal, que expressa a grande preocupação do Papa Francisco pela humanidade e a missão da Igreja é dedicada ao mundo marítimo. Todas a comunidades católicas do mundo serão convidadas a rezar por todos aqueles que trabalham e vivem no mar, incluindo marítimos, pescadores e suas famílias.

Confiamos a Maria, Estrela do Mar, o bem-estar da gente do mar, o compromisso e a dedicação dos capelães e voluntários e invocamos Nossa Senhora para que nos proteja de todos os perigos, em particular da calamidade da COVID-19

Cardeal Peter K.A. Turkson
Prefeito

Geralmente o Domingo do Mar é celebrado no segundo domingo do Mês de julho para lembrar e rezar de maneira especial pela gente do mar que trabalha longe de seu país, de seus familiares e da Igreja local. Estamos ciente de que, devido à difícil situação criada pela difusão global da COVID-19, algumas Stella Maris nacionais decidiram adiar a celebração para uma data posterior. Por esta razâo, esta mensagem pode ser usada em qualquer momento.