D. Nuno agradece testemunho das irmãs que estiveram 57 anos na Fundação Zino 

Foto: Duarte Gomes

“Um dos grandes dramas do mundo contemporâneo é a falta de testemunhas credíveis da ressurreição de Jesus. De homens e de mulheres que vivem de tal forma, que mostrem de tal forma a sua fé que quem contactar com eles seja capaz de reconhecer que, verdadeiramente Jesus ressuscitou”. A constatação é do bispo do Funchal e foi feita no passado dia 3 de julho, durante a homilia de uma Eucaristia, na Capela da Fundação Zino. 

No dia em que a Igreja celebrava S. Tomé Apóstolo, o Santo que não acreditou logo na notícia da ressurreição de Jesus Cristo, D. Nuno Brás também foi deixando várias interrogações ao longo da sua reflexão, nesta que foi uma celebração de ação de graças pela presença, de 57 anos, das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena naquela instituição.

A primeira questão deixada por D. Nuno Brás foi precisamente “em quem acreditamos nós hoje”. Acreditamos, disse, “naqueles que garantem que a fé cristã é a mesma de Pedro, de João, de Tiago, de Tomé”. E ser como os apóstolos testemunhas da ressurreição é, frisou, “o grande convite que é feito a todos nós cristãos”.

As irmãs, que agora deixam a instituição, souberam entender esse convite e pô-lo em prática ao assumirem a missão de, “com todas as dificuldades, com todos os pecados, serem testemunhas da ressurreição”. Uma missão pela qual, frisou, “todos nós estamos gratos”.

“Queremos dar graças a Deus por aquilo que foi o testemunho das irmãs ao longo de todos estes anos. Pela forma como a sua vida ajudou a mudar a vida de tantas raparigas ao longo destes anos”, disse ainda D. Nuno Brás que voltou às perguntas, agora sobre o porquê das irmãs se irem embora. A questão da falta de vocações é a justificação, mas é preciso perceber a razão dessa falta.

“Nos anos 90 éramos uma ilha florescente em quantidade e qualidade de vocações, mas de repente, no espaço de 20 anos, deixaram de existir vocações”, lembrou D. Nuno, para logo sublinhar que é preciso perceber “o que é que aconteceu na nossa vida cristã”.

Ficou por isso o pedido para que “o Senhor faça surgir vocações de consagração, que possam continuar a obra destas irmãs” e também para que “esta instituição, mesmo sem a presença das irmãs, continue sempre a ser uma instituição que saiba acolher, que saiba formar, que saiba ensinar todos quantos por aqui passam a olhar o mundo com os olhos de Deus”.

Parceria de 57 anos

Antes da benção final, coube à Irmã Alzira Ferreira, superiora provincial de Portugal, ler um texto preparado por si e pelas Irmãs Adelaide e Fátima para a ocasião. 

Depois de sublinhar que “as grandes obras ou instituições nascem “em contextos concretos de respostas sociais e religiosas urgentes e necessárias”, referiu que “foi neste contexto de solidariedade” que surgiu a Fundação Zino, cuja história se cruza com a das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena em 1963.

“Foi uma parceria de 57 anos ao serviço da população mais frágil e mais vulnerável da ilha: as nossas crianças”, lembrou. Um ciclo que agora se “completa” e que conheceu “dores e vitórias”.

“As irmãs não podem continuar a apoiar fisicamente a fundação, mas ela continua no coração de Deus e no da Madre Teresa de Saldenha, que continuará a olhar por esta obra tão bonita e que tanto faz em prol destas crianças”, frisou a Irmã Alzira que agradeceu “tudo o que recebemos da família Zino, de todos os colaboradores, amigos e benfeitores” e também à diocese e à paróquia da Nazaré “todo o apoio que deu a esta comunidade e a cada irmã que por aqui passou”.

Terminou mostrando a sua confiança de que esta obra irá “escrever uma nova etapa na sua história”, mas continuando “a sua missão a favor das crianças, como sempre tem feito, com muito zelo e dedicação, ensinando e cultivando os valores cristãos que as irmãs tanto ensinaram nesta casa”. É, de resto, para que assim seja que “unidas continuaremos a rezar, pedindo que também rezem por nós”.

Em nome das 13 crianças e jovens que a casa acolhe neste momento falou a Sofia. Um testemunho emocionado, que deixou muitos dos presentes com a lágrima ao canto do olho.

Às irmãs a jovem deixou “um bem haja por este amor incondicional, que nos faz sentir importantes neste percurso a que chamamos vida”, frisando ser difícil encontrar palavras para exprimir o que sentem neste momento. As saudades vão existir, reconheceu, mas “guardamos memórias de todos os momentos que transformaram a nossa vida”.

Depois de lembrar a importância de “termos pessoas assim nas nossas vidas”, a jovem agradeceu às irmãs por “terem mudado tantos corações”. 

“A estas irmãs que dedicaram a sua vida por todas nós, simplesmente, obrigado”, concluiu.

A terminar o bispo diocesano voltou às perguntas, neste caso sobre o que nos faz feliz, adiantando que a resposta “é fazer o bem”, e fazer o bem, como dizia Santa Catarina de Sena, ‘sempre que seja possível’.

Emoção na hora da despedida

À margem desta celebração o bispo diocesano manifestou ao nosso jornal a sua tristeza pelo facto das irmãs deixarem a instituição ao fim de tanto tempo. Uma instituição que a própria fundadora queria que tivesse à frente uma congregação religiosa, mas que agora fica privada desse desejo, sem que a diocese possa fazer algo para mudar essa realidade.

“A instituição é uma instituição que vive por si própria, tem os seus estatutos e os seus órgãos e certamente continuará a fazer o bem de acordo com a vontade da fundadora, nesta nova situação”, explicou ao Jornal da Madeira D. Nuno Brás, que sublinhou no entanto que “a diocese estará sempre disponível para prestar apoio a esta instituição”.

Já as Irmãs Adelaide e Fátima que agora deixam a instituição não esconderam a “tristeza” que está por detrás desta decisão. Afinal, não é fácil deixar para trás uma obra como a Fundação Zino e 57 anos de trabalho e de dedicação.  

Desse longo período, tal como acabara de dizer a Sofia na Eucaristia, solenizada pelas crianças da casa, ficam as memórias e a certeza, como nos disse a Irmã Fátima, “de que alguma coisa fizemos de bom, e elas aproveitaram”. De resto, o testemunho deixado por esta jovem é sinal inequívoco de que “é de coração que falam e isso também é gratificante para nós”.

“Vamos tranquilas, fizemos aquilo que pudemos e tudo que estava ao nosso alcance”, já nos havia dito anteriormente a Irmã Fátima ela que, para além do trabalho, deixa na instituição uma outra marca da sua passagem: a enorme pinheira que existe no jardim e que foi por si plantada. 

“A minha passagem pela instituição aconteceu por fases, a primeira nos anos 80, em que cá estive 5 anos. Desta última vez fiquei 18, quase 19”, explica a religiosa que costuma “dizer com orgulho que dei a terça parte da minha idade a esta instituição”. 

Quanto à irmã Adelaide, também ela diz que “não é fácil este momento”, no entanto, “como nós nos comprometemos com a missão, para nós desenvolvê-la aqui ou ali é algo para o qual estamos preparadas”.

A instituição, diz, deixam-na “em boas mãos”, que “é o que nos interessa”. Quanto ao futuro, a irmã Adelaide explica que vai passar um período no continente, mas que depois volta à ilha, pelo que “a minha despedida não é tão dolorosa como a da irmã Fátima que já cá está há mais tempo, e tem esta obra no coração”.