Câmara de Lobos: A devoção a São Pedro não diminuiu mesmo sem a habitual festa exterior – D. Nuno Brás

Foto: Duarte Gomes

D. Nuno Brás presidiu ao fim do dia deste domingo, dia 28 de junho, a uma Missa Campal no Cais de Câmara de Lobos, em honra de São Pedro.  

Uma oportunidade para o bispo diocesano refletir sobre quem é este homem. Um homem que percebia muito de pesca, mas que nem grande instrução tinha e que, ainda assim, se tornou no primeiro Papa da história, tendo deixado tudo para seguir Jesus. 

Pedro, tal como nós, tinha as suas limitações. D. Nuno comparou-o mesmo a uma pedra e explicou porquê: “Este Pedro é verdadeiramente uma pedra, naquilo que a pedra tem de melhor e de pior. É uma pedra no sentido da fidelidade, no sentido de alguém sobre quem se pode construir, mas também era um ‘calhau’, com dificuldade em entender e em viver”. Uma pessoa comum, que falha tantas vezes e “tantas vezes diz coisas ao lado” ao ponto de Jesus lhe dizer ‘afasta-te de mim Satanás, tu não queres aquilo que Deus quer, mas aquilo que os homens querem’. 

Mas São Pedro passou por um processo de conversão. Passou de “um homem que acha que sabe tudo, que pode tudo e que é capaz de tudo, para um homem que se deixa conduzir pelo próprio Deus”.  

Aquele que negou Jesus três vezes foi, no entanto, “capaz de reconhecer o seu pecado e de chorar”. Mais do que isso. Ele “foi capaz de assumir o seu pecado e de querer uma nova vida”.  

“Pedro não é, portanto, o super homem. Longe disso. Pedro não é um homem sem pecados. Longe disso. Pedro é tão simplesmente um homem que foi capaz de aprender de Deus a amar. Nisso está a sua diferença”, explicou o prelado. E foi isso que “interessou a Jesus Cristo: Pedro e a sua capacidade de aprender a amar, de se deixar conduzir por Deus. E esse é verdadeiramente o primeiro Papa. Esse é verdadeiramente a pedra”. 

Hoje, “a nossa fé a mesma de Pedro”, ou seja, “também nós queremos que Jesus nos ensine a amar”. Hoje, o que nós queremos é “pedir ao Senhor que, como a Pedro, nos ensine o que é o amor e o que é amar”. E isto porque o amor, lembrou D. Nuno, não é muitas vezes aquilo que achamos ser. “Muitos acham que já sabem o que é o amor. Chamam amor a tudo. Chamam amor ao egoísmo, chamam amor às paixões. Precisamos, como Pedro, que o Senhor nos ensine a amar e de, como Pedro, deixar que na nossa vida seja Deus e a sua vontade a conduzir-nos”. 

O prelado terminou a homilia desta Eucaristia, concelebrada pelo Pe. Manuel Neves, Pároco de São Sebastião, e pelo Pe. Carlos Almada, exortando os fiéis a seguir o exemplo de vida Cristã de São Pedro, pois ele “verdadeiramente é aquele pescador que compreende os homens do mar e da pesca, verdadeiramente compreende, porque é pecador, as nossas faltas e os nossos pecados. É aquele santo, aquele discípulo, aquele cristão que constantemente nos diz converte-se e deixa de ser auto suficiente, deixa que Deus seja verdadeiramente aquele que te conduz deixa que Deus te ensine a amar”. 

Percebemos que “não podemos tudo” 

Antes do início da celebração, em declarações aos jornalistas, tanto D. Nuno Brás como o presidente do Município de Câmara de Lobos, falaram sobre o momento excecional em que esta festa acontece.  

Em ano normal, os festejos em honra de São Pedro seriam motivo para uma grande concentração de pessoas em Câmara de Lobos, coisa que este ano não acontece.  No entanto, como diz D. Nuno Brás, “o importante é não se deixar de fazer festa, mas fazendo a festa que é possível e a que é possível é esta”.  

De resto, frisou D. Nuno, “mesmo sem uma festa exterior tão ruidosa e tão brilhante como é habitual, tenho a certeza que a festa interior, que a devoção a São Pedro e a toda esta presença de Deus no meio destas comunidades não será menor por causa destas medidas”.  

Questionado ainda sobre se a Igreja tem sentido uma maior procura dos fiéis neste momento, D. Nuno explicou que “ao princípio havia muitas pessoas com medo e notou-se uma clara ausência de muitas pessoas, sobretudo dos mais velhos. Depois notou-se um acréscimo de pedidos junto das instituições sociais. Em termos de vida de fé, neste momento, estamos praticamente a retomar dentro de normalidade ainda ‘confinada’”.  

Este momento da pandemia, disse D. Nuno, “foi sobretudo um momento em que nos apercebemos que não podemos tudo, que não somos capazes de tudo e que um pequeno vírus colocou em causa tudo. Creio que nos deu a sensação de que somos frágeis e que nem tudo está nas nossas mãos e na nossa sabedoria”.  

Finalmente e quanto ao facto da Igreja ter, supostamente, perdido receitas com o cancelamento dos arraiais, D. Nuno explicou que “a diocese não é uma espécie de mega empresa, que depois tem filiais em todas as freguesias”. Cada paróquia “tem a sua administração própria e não é do estilo cada semana o bispo vai ao programa informático e vê se as receitas estão a subir ou a descer, ou coisa que o valha, não é, nem quer ser”. É um facto que “os párocos têm feito sentir a dificuldade, até porque no caso de muitos, estas festas davam um pé de meia para a gestão corrente, mas agora isso não é possível, é como é, vamos viver com aquilo que temos e com a certeza de que, para as populações não faltará a assistência dos sacerdotes”. 

Já Pedro Coelho também lembrou que, num ano normal, “tínhamos muita gente, tínhamos a procissão, tínhamos depois as marchas populares, tínhamos o espetáculo pirotécnico, hoje não. Hoje é só a eucaristia porque é uma data religiosa temos e devemos assinalá-la”. 

Como notas de reportagem, de referir que o andor de São Pedro foi levado da Capela de Nossa Senhora da Conceição até ao local da celebração num ‘Xavelha’, embarcação típica de Câmara de Lobos, puxada por quatro pescadores.  

Uma procissão que se fez ao som da Banda Municipal de Câmara de Lobos, também conhecida por ‘Banda Velha’, cujos temas se ouviam nos altifalantes colocados ao longo do percurso já que por causa das normas em vigor, seria impensável ter a banda a tocar ao vivo. 

Uma nota também para a benção dada, por D. Nuno Brás, a todas as embarcações que se encontravam na baía de Câmara de Lobos, a quem Vitor Ferreira, presidente da Confraria do Santíssimo e um dos organizadores destas celebrações, agradeceu. Agradecimentos extensivos a D. Nuno, por ter presidido à Eucaristia, e a todas as entidades que tornaram possível a sua celebração nos moldes impostos pelas entidades de saúde.