Ministério do sacerdote em questões

Missa Crismal, Sé do Funchal, 19.06.2020 | Foto: Duarte Gomes

As Ilhas do SS. Sacramento da Madeira, assim chamadas desde o povoamento, sugerem esta reflexão em tempos das festas do Corpo de Deus, S. Coração de Jesus e do Imaculado C. de Maria.

Desta festa, na narrativa evangélica sobre Jesus, aos 12 anos, no templo, vem a questão de Nossa Senhora: «Filho, porque procedeste assim connosco?» Jesus responde com duas questões: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?» (Lc 2, 48-50). Jesus antepõe o Pai à família de Nazaré, como dirá: o meu reino, neste mundo, não é deste mundo.

Celebrar 60 anos de sacerdote, no meu caso, ou 25, 50, 60, 70 e 75, doutros padres, dia 19, na Sé com D. Nuno Brás, convida a relacionar a fé eucarística em tempo de pandemia com o ministério sacerdotal.

O relativismo e a pandemia interpelam a quem e a quê dar a prioridade: Evangelho, oração, sacramentos, serviço da caridade. Antepor a ação social à celebração de Jesus-Eucaristia?

Recentemente a jornalista Constance T. Hull, em Newsletter online sobre a pandemia nos USA, abordava a pouca participação na missa dominical no pós-pandemia. E interpelava sacerdotes e bispos que insistiram na obrigação de pôr a saúde à frente da participação nas missas. E dizia que padres e bispos, contudo, participavam em manifestações contra o racismo, sem olhar aos riscos de contágio, como a dizer: manifestação com risco, sim; missa e sacramentos com risco de contágio, não.

O equilíbrio pediria, antes, atenção à saúde em ambos os casos e deixar claro que a missa não é menos importante que a manifestação política, social e pastoral(?). Que primazias do ministério sacerdotal? A vida da fé cristã ainda se avalia pelos critérios de Cristo e da Igreja? Em situações de conflito, homens de Deus, santos vivos na Igreja, pastores ou leigos, podem ajudar a discernir, mas hoje serão pouco visíveis.

Todos sabem o que é um futebolista, um governante, um jornalista, mas é difícil identificar batizados santos nas comunidades cristãs que ajudem em tempos difíceis como os de hoje. Noutros períodos atribulados teriam sido mais visíveis.

Hoje, visível é o exemplo dos mártires que, de semana a semana, não temem «os que matam o corpo» e dão, na fé, a vida por Cristo. As festas do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria convidam ao arrependimento e reparação das ofensas e abusos sexuais gravíssimos de sacerdotes e bispos; e não menos das blasfêmias e sacrilégios de Jesus Cristo na Eucaristia e das ofensas a Nossa Senhora?

Sem a adoração eucarística reparadora o clima de descrença favorece a apostasia nos batizados católicos. Não há que surpreender-se, como referia essa autora, se nos Estados Unidos 70% dos católicos americanos, declarem, em sondagens religiosas, que não acreditam na presença real de Jesus na Eucaristia.

O Cardeal de Colónia deplora em entrevista que só uns três milhões de católicos alemães participam na missa dominical. Como será por cá? O público da Igreja ainda considerará que os sacerdotes vivem da e para a Eucaristia, (cf. S. João Paulo II, “A Igreja da Eucaristia”, n.26), pois esta faz a Igreja e a Igreja faz a Eucaristia. Jesus Cristo fê-la e pediu que a “fizessem” em sua memória celebrativa. Sem ela, os sacerdotes podem ser bons assistentes sociais de “órfãos, as viúvas” e outros necessitados (cf.At. 6), mas põem o mandamento do amor do próximo antes do amor de Deus sobre todas as coisas.

Jesus recomendou: procurai em primeiro lugar o Reino de Deus; uma só coisa é necessária, o homem vive de toda a palavra que sai da boca de Deus. E ensinou o Pai Nosso com duas partes; primeira e segunda, embora inseparáveis. E deixou claro: quem comer o pão do meu Corpo não terá mais fome e terá a vida eterna.

Perante as lamentações da falta de sacerdotes pode perguntar-se: escolhidos por Quem, para quê e para quem? Serem poucos ou muitos faz lembrar a narrativa de Gedeão (Juizes, 6 e 7). Os voluntários do exército eram demasiados para a missão de defesa contra os madianitas idólatras de Baal; havia o risco de esquecerem a Aliança, se orgulharem e atribuírem a vitória a si mesmos caindo na auto-idolatria. Chegaram 300 em vez de 30 mil.

Também no dia sacerdotal (19 de junho), D. Nuno Brás pediu aos sacerdotes na Missa Crismal que se deixem «interrogar não só pelo modo como vivemos e como saímos deste tempo de confinamento, e como, sobretudo, pelo lugar que Jesus nos convida a ocupar, e pelo anúncio que Ele nos confia neste mundo que agora recomeça a movimentar-se» (sublinhamos).

Nossa Senhora não entendeu logo as questões de Jesus estar ao serviço na casa do Pai, mas terá entendido quando Jesus disse: vamos para Jerusalém, suspendamos este modo de cuidar dos pobres e doentes, lá darei a vida e o meu corpo e sangue por todos. E quando na cruz pediu a Maria para ser a Mãe a todos.