Limpar a história do racismo e esclavagismo?  

Há uns anos, num retiro, o orientador iniciou com apelo de surpresa: ponham de parte a ideia de serem o salvador do mundo. Neste período de confinar/desconfinar, mascarar/desmascarar, mistura-se o furor da limpeza racista.

De repente, em plena pandemia, com a morte violenta de um negro, veio o sobressalto de limpar o mundo e a história de racismo e esclavagismo, pondo em quarentena ou destruindo estátuas de figuras salientes e outros vestígios do passado. Enfim “matar” mortos mas não ligar aos traficantes vivos e poderosos, donos de escravos atuais, crianças, jovens e adultos(as) para orgias, guerrilha e trabalho escravo. Até se aceitam esses traficantes de órgãos de crianças abortadas e se condenam apenas racistas e esclavagistas do passado.

Cria-se a autoilusão de ser puro e ter poder para apontar os impuros desta e daquela fação política, religião e cor, para purificar a história com violências destrutivas. Extremistas de direita e esquerda misturam-se com mascaradas de salvadores puros. Uns atacam os de ontem e defendem os de hoje, outros invertem os alvos; uns e outros para obter ganhos políticos. Contudo, matar e destruir estátuas, por cor, não vai limpar a história e o mundo. Suja mais.

Houve (e haverá) escravatura nos Egiptos, Mesopotâmias, Arábias, Grécias e Romas antigas, nas Índias das castas de ontem e hoje; nas Chinas misteriosas, Áfricas tribais, em impérios e colónias mais recentes.

Houve e há discriminação negativa, tribalismo, xenofobia, racismo. Alguns cristãos, alguns católicos, alguns pagãos dos impérios europeus e dos que os substituíram por todo o lado se mancharam de racismo. Europeus e negros africanos foram cativados, escravizados e traficados por sultões arabo-muçulmanos e pelos próprios negros durante séculos. Eram «aprisionados na África subsariana, por outros africanos que lucravam com o tráfico» (S.Martinez).

O ímpeto de limpar o racismo teria que purificar essa chaga também dentro de cada raça e cor e do colossal tráfico atual de pessoas de diversas idades em todo o mundo, sem esquecer os peles-vermelhas, aborígenes e índios. Não se escravizam só os de fora, também dentro de cada etnia, tribu e casta. Infelizmente! Só há um não racista, o Criador e Pai de todos os seres humanos, seus filhos, criados com a mesma dignidade à sua imagem e semelhança.

Destruir estátuas e outros vestígios de racistas de uma etnia contra os de outra, de um período em relação a outro, não limpa a humanidade destes males e pecados. E pode-se limpar um crime com outro crime? É grande a ilusão de destruir vestígios de gente racista doutros tempos resguardando-se sob telhados de vidro. Essa lógica levaria a um “juízo” universal destruidor de todos os vestígios humanos desde há 5-10 mil anos: grandes pirâmides, templos, objetos de arte, monumentos a reis e imperadores, bibliotecas de história e falsidades… Em nome de quê e de quem, este juízo do quê e quem é digno de existir? E exigiria um código do que é ser bom, correto e do que é errado e mau. Em base a quê e a quem? Autoridade de uma raça sobre as outras, de uma ciência, de uma religião?

O critério seria que algum puríssimo iluminado distinga o bom e o mau; o bom e o mau uso de todos os objetos. Mas, então… Toda a obra humana pode ser bem e mal usada: a faca, o martelo, o explosivo, o carro, o avião, o edifício, a estátua, o quadro e o computador… tudo teria de ser destruído para limpar o mundo.

Alguns proporão que artefactos, obras de arte, filmes, teriam de ser neutros, não ensinarem nada, não dizerem nada e não servirem para nada. Nem admitirem qualquer contextualização ou sentido. Outros dirão que toda a arte é bela, boa, por ser criação do autor. Em base a quê? E quem decide? Em base a algum critério de uma sociedade ou raça? Mas outros poderão contestar que muitas obras humanas são feias, erradas, horrores. E se há desacordo resolva-se o litígio com uma guerra, à medida. É o recurso habitual, repetido. Ou então aceite-se um árbitro, juiz, um mestre, alguém de fora da humanidade, um salvador. Ele existe e deu critérios. Mas não tem lógica nem sentido dizer que se Deus existe é natureza intramundana e nela se deve procurar, como teria dito um grande filósofo. Ou será que o coronavírus veio investido por Deus de missão purificadora?

Repare-se nas festas cristãs celebradas sob a pandemia, Páscoa, Espírito Santo, SS. Trindade, Corpo de Deus, Coração de Jesus proclamam quem é o Salvador, «quem tira o pecado do mundo». Milhões aceitam este único Salvador e Juiz. Mas, outros, com o joelho em terra (não a Deus) parecem arrogar-se a missão de serem eles. O tempo pós pandemia levará alguns a decidir desmascarar-se da sua pretensão de salvadorzinhos? Vamos rezar muito para que isso se realize.