Santo em tempos de peste epidémica bubónica

S. João Román Grande (1546-1600)

Terá vindo do Oriente, da China. Em 1597 chegou ao porto de Santander o barco “Rosamunda” vindo de Flandres que trazia uma passageira indesejável, a peste. Peste de “liandre” ou bubónica, talvez da China. Logo se pôs a caminho lento para sul. «Camargo, Villaescusa, Penagos, Cayón, Carriedo, Piélagos, Mayordomado de la Veja e outros vales e lugares de Asturias de Santillana e de Campo [sic] e Tierra de Aguilar e de Herrera e de Melgar” (http://www.valledeliebana.info/historias/peste1597.pdf 2.06.2020).

As autoridades de Liébana procuraram controlar os viajantes infetados com barreiras e cercas. Em avanços lentos, a epidemia atravessou as duas províncias de Castela e no início de 1600 já tinha chegado a Andaluzia. Na primavera deu sinal em Jerez da Fronteira. S. João Grande (1546-1600), que pediu agregação pessoal e da sua comunidade e hospitais à Ordem de S. João de Deus, tinha ali um dos maiores hospitais da época onde acolheu, em 1578, muitos soldados portugueses feridos, fugidos de Alcácer Quibir; e agora acolhe os pobres contagiados da peste. João pressentiu, ou foi-lhe revelado, como veremos, que ia morrer dela. Chamou o confessor, o cónego Cristóvão Martin, para se confessar. Depois da confissão, o santo convida-o para cear e conta-lhe o seguinte:

 «Saiba, senhor, que havia numa cidade um homem que era tido por santo e devia ser muito penitente em quarenta anos que havia servido Nosso Senhor, sofrendo descalcez e desnudez, más noites e piores dias. Era perseguido por muitos, mas também tinha amigos a quem por suas orações tinha vindo algum bem. Deu-lhe Nosso Senhor uma doença num dia muito tempestuoso e morreu dessa doença. Tiveram-no morto um dia até à meia-noite, e em casa disseram: vejamos o que será dele e como o enterrarão, pois tem amigos. Visto isto, foram e chamaram quatro maqueiros e entraram no seu aposento à frente do qual havia uma escada; e pegaram neste homem, uns pelo pés, outros pela cabeça e, ao tirá-lo do aposento, os que lhe agarravam os braços soltaram-no e os outros, de má catadura, puxaram-no pelos pés e o levaram escadas abaixo e fizeram uma cova no pátio e o enterraram. 

Que lhes parece deste homem de quarenta anos de descalcez e desnudez? Se o fizesse por este mundo que paga lhe teriam dado? Mas se este homem o fazia por Deus, que lhes podia importar que o tratassem desta maneira?» (José Luis Repetto Betes, S. João Grande, Ed. Hospitalidade, 1996, p.181-182).

Pensativo, o sacerdote ficou sem saber a quem João se podia referir. Veio a compreender alguns dias mais tarde. A peste, primeiro de forma suave, a seguir, diz Jerónimo Mascarenhas, (bispo português de Segóvia e biógrafo), alastrou como incêndio pela cidade. Traiçoeira, ataca e depressa submete os doentes à morte lenta e dolorosa. Ataca os gânglios da virilha, os sovacos o pescoço com tumores pestilentos. João, à vista dos doentes, avisou os Irmãos da comunidade que se esgotaram na assistência aos empestados no hospital e em suas casas, com ajuda de voluntários de outras casas religiosas. Não se conhecia cura e os doentes iam morrendo. Só o isolamento contava, mas João continuou solícito junto dos doentes. Ainda se deslocou a Sevilha com João Batista de Baez, e ao regressar, continuou os cuidados e a 26 de maio de 1600, já doente, caiu na rua e foi levado para a cela onde recebeu os santos sacramentos e morreu com pouca assistência dos próprios Irmãos ocupados no hospital.

A senhora Luisa Galegos acorreu ao seu pedido de comida, trazendo favas guisadas na companhia da sua cunhada Joana de Argumedo. Subiram à cela, apesar do medo, por ele ter dado ordem de as deixarem subir junto do seu leito de tábuas e por acreditarem na palavra de João que não se contagiariam. Nas visitas delas e dos Irmãos, garantiu que só ele morreria da peste que terminaria com a morte dele; e animou-os a continuar no serviço dos doentes. Após oito dias de agonia e enjoos e oração em que acreditou na visita da Virgem Maria e de Santa Inês, apesar de forte rendeu-se à morte e ao Pai do céu no sábado 3 de junho de 1600. Os Irmãos encontraram-no morto deixando o corpo ali toda a noite até ao meio dia o “funeral” foi em vala improvisada como já ficou dito e como, nestes meses, muitos dos contagiados do covid-19 têm sido enterrados em valas comuns. Este hospital, ainda hoje, têm Irmãos e colaboradores dedicados aos cuidados dos doentes em serviços especializados. Porque não invocar hoje este Santo na sua festa, para parar esta nova “peste”?