Cardeal Tolentino escreve sobre reabertura da Biblioteca e Arquivo do Vaticano

O cardeal Tolentino Mendonça assina um artigo publicado hoje no jornal do Vaticano, “L’Osservatore Romano”

Papa Francisco visita a Biblioteca Vaticana dirigida pelo cardeal Tolentino Mendonça, 4.12.2018 | Foto: BAV

 Por D. José Tolentino Mendonça

A Biblioteca e o Arquivo Apostólicos vão reabrir aos investigadores na próxima segunda-feira, 1 de junho, com as admissões a serem autorizadas depois de reserva pela internet, e sujeitas a normas de segurança sanitária.

«A memória é dimensão comum fundadora para as religiões bíblicas: a Eucaristia, sacramento do qual jorra a Igreja, é celebração memorial do dom de si mesmo à humanidade da parte de Jesus (“Este é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim”, Lucas 22,19); o “Shemá”, oração central da liturgia judaica, apresenta a memória como condição essencial de santidade (“Assim vos recordareis de todos os meus mandamentos, colocá-los-eis em prática e sereis santos para o vosso Deus”, Números, 15,40). Recordar, em síntese, é um mandamento de salvação para judeus e cristãos, que através dele se abrem àquela posição de escuta (“Shemá Israel”, “Escuta, [ó] Israel!”), que descentra o ser humano dele mesmo, da ilusão mortífera de considerar a sua experiência como um todo, como um absoluto, que satura a condição humana à dimensão autossuficiente e exclusiva, que não deixa espaço ao outro, aos outros e ao Outro.

É precisamente porque não é manifestação de um conteúdo pré-constituído, mas expressão de uma escuta incessante, que esta memória é messiânica, orientada para o futuro. A memória do crente não é nova proposição identitária e tautológica do já dito, já feito, já sabido, mas escuta de uma doação redentora que atravessa a história para a curar do mal e da violência inscritas na experiência humana, e por isso encontra no passado a promessa que é garantia do seu futuro. O crente não recorda por nostalgia de um bem perdido, mas por desejo de um bem que desde sempre lhe vem ao encontro na história, que faz da sua vida um caminho de incessante afastamento do , no acolhimento do ainda não. A memória do crente é, paradoxalmente, não retrospetiva mas prospetiva, fonte de transformação, e não de estagnação, de renovação, e não de repetição. Esta memória, com efeito, e é este o terceiro aspeto que a qualifica, a par da escuta e da sua messiânica orientação para o futuro, não é um passivo “estar a ver”, contemplação inerte da “perfeição” daquilo que ocorreu de uma vez por todas e não pode ser mudado, mas é, antes, um fazer: “põe em prática”; “faz isto”. A memória coloca em movimento, é operativa, faz sair de si próprio para entrar a fazer parte, conscientemente e responsavelmente, daquele excesso em relação ao indivíduo e ao grupo, que é o ser comum da família humana – o ser pessoa e comunidade –, configurado no compromisso de gratidão e generosidade que brota do reconhecer-se interdependentes, daquilo e daqueles que nos precedem, nos acompanham, nos seguem: nascer e morrer são uma condição extrema de confiança, a quem nos acolhe neste mundo e a quem guarda o nosso depois. Mas também a busca da sabedoria, a sede de verdade, o estudo vivido como prática obstinada de hospitalidade, inscrevem-se no campo semântico e existencial da confiança.

Escuta, abertura ao futuro, compromisso operativo. O quanto estas três dimensões são nevrálgicas para um exercício adequado da sua missão, sabe-o bem quem está ao serviço de uma biblioteca ou de um arquivo, lugares de recolha, guarda e transmissão daquele recurso imprescindível para a memória coletiva que é o testemunho escrito. “Lugar social”, segundo a poderosa designação de Michel de Certeau, estas instituições são muito mais do que um espaço físico, de um contentor neutro, distribuidor automático de documentação, constituindo-se antes como uma encruzilhada polifónica de instâncias, funções, preocupações, obrigações, interesses e oportunidades – materiais, culturais, científicos, espirituais –, cuja mediação nem sempre é fácil, nunca é pré-constituída, cuja medida de sucesso ou inadequação é determinada por múltiplos fatores subjetivos e objetivos, por vezes totalmente incontroláveis.

Quando, no fim de fevereiro, se realizou a jornada de estudo sobre a abertura aos estudiosos dos documentos do pontificado de Pio XII recolhidos nos arquivos da Santa Sé, nenhum de nós previa que este passo, de importância histórica e de grande impacto público, seria repentinamente suspenso por uma crise sem precedentes como a da pandemia do coronavírus. A emergência sanitária obrigou-nos, primeiro, a fechar aos estudiosos quer a Biblioteca quer o Arquivo Apostólicos, colocando a maioria do nosso pessoal em regime de teletrabalho, e obriga-nos agora a uma reabertura gradual e limitada, como exigem as boas práticas para a atual retomada.

Este imprevisível fechamento foi, naturalmente, um sofrimento para a Biblioteca e o Arquivo Apostólicos e para os seus estudiosos, mortificando repentinamente – no caso do Arquivo – uma dinâmica de expetativas e atenção particularmente intensa, associada a um nó historiográfico cuja relevância é reconhecida bem para além do âmbito restrito da comunidade científica. Como todos sabemos, todavia, cada crise pode ser uma oportunidade, e isto vale de maneira particular para uma realidade como a nossa, que se incardina na consciência histórica da Igreja com a aspiração de dele fazer bem público de toda a humanidade.

Esta pandemia, que se alastrou a nível mundial, não detida por fronteiras políticas, económicas, culturais, reabriu violentamente os olhos de uma sociedade cega pela sua performance tecnológica e estrutural, para a sua vulnerabilidade intrínseca à condição humana, evidência que nunca se extinguiu a nível individual, mas decrescente a nível coletivo. Reencontrámo-nos todos mais frágeis, mais pobres, mais indefesos, numa inédita condição que requer um suplemento de humildade, o reconhecimento que muitas das nossas certezas são um valor precioso mas também vulnerável, que o exercício do nosso saber e do nosso poder são um suceder-se de reaberturas e novas partidas.

A memória, individual e coletiva, é coleção também desta incessante mudança de perspetiva, purificar-se, reerguer-se e recomeçar. Os seres humanos do passado, disse também Michel de Certeau, numa página inesquecível sobre a “estrutura do passado histórico”, “saem da sua noite sem que seja verdadeira possível designá-los. Neles desenha-se um mundo inteiro. Mas (…) entre eles e nós, os historiadores, produz-se uma fenda que torna problemática a evidência (postulada à partida) de uma homogeneidade necessária à compreensão” (“Histoire et psychanalyse entre science et fiction”, Galimard, 2016, p. 223). O passado surpreende sempre o verdadeiro historiador, assim como o presente surpreende os contemporâneos, redesenhando saberes e certezas. É isto que torna instituições seculares como as vaticanas aventuras apaixonantes, que podem incendiar os ânimos de quem desce a esta mina do saber e da memória para encarar “a luta com o documento”, como afirma Marc Bloch. Todavia, se a busca da verdade pode dividir, na multiplicidade dos percursos e dos estádios da sua elaboração, o encontro com ela une e reconcilia indivíduos e comunidades, no fundar aquela comunhão profunda do ser humano, que só o verdadeiro manifesta e lhe garante.

Escuta como serviço à memória, abertura ao futuro como exercício concreto de esperança, compromisso operativo como responsabilidade, são estes os princípios que permitam o encontro com confiança recíproca e fraternidade autêntica, sabendo que somos todos mais medidos pela verdade do que seus medidores definitivos: “Como Tu me enviaste no mundo, também Eu os enviei no mundo; por eles Eu consagro-me a mim mesmo, para que sejam também eles consagrados na verdade” (João 17,18-19).»

Tradução: Rui Jorge Martins