Da escravidão para a liberdade ou da liberdade para a anulação da divindade como uma nova forma de escravidão

D.R.

A carta aos Gálatas escrita por S. Paulo, provavelmente no Inverno de 56- 57, é a única carta do apóstolo que não começa com acção de graças e não termina com bênção, facto que testemunha a sua indignação face a uma certa tendência de espiritualidade legalista que se vinha implementando, o que o levou a defender o seu apostolado, reafirmando a consolidação no Evangelho. 

“Quando, porém, chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho. Ele nasceu de uma mulher, submetido à Lei para resgatar aqueles que estavam submetidos à Lei, a fim de que fôssemos adoptados como filhos. A prova de que sois filhos é o facto de que Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho que clama: Abba, Pai! Portanto, já não és escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro por vontade de Deus. No passado, quando não conhecíeis a Deus, éreis escravos de deuses, que na realidade não são deuses. Agora, porém, conheceis a Deus, ou melhor, agora Deus conhece-vos. Então, como é que quereis voltar de novo àqueles elementos fracos e sem valor? Porque quereis novamente ficar escravos deles? Vós observais cuidadosamente os dias, os meses, as estações e os anos! Receio ter-me cansado inutilmente por vós.”

Esta carta aos Gálatas, foi definida como o manifesto da liberdade cristã e universalidade da Igreja. Daí a sua importância. Contudo, libertação de quê e para quê? Libertação de uma vida programada externamente por um minucioso código de regras e leis, que conservam o homem numa atitude infantil diante da vida. Libertação para uma vida adulta e consciente, graças ao uso responsável da liberdade. A vida do homem não deve ser determinada por um código de leis, mas por um compromisso pessoal e íntimo com Cristo, que está presente no profundo do ser humano. 

Ao lê-la, somos convidados a fazer um profundo exame de consciência: onde está a motivação fundamental que orienta a nossa vida cristã? Numa série de observâncias mecânicas de leis e de ritos? Ou no compromisso com Jesus Cristo, que se realiza através do Amor responsável e criativo?

Foi meditando e reflectindo no seu conteúdo que me ocorreu fazer um paralelo com as tendências políticas e sociais da Europa, nomeadamente a partir do século XVIII, em consequência do Iluminismo e do progresso científico, onde uma nova visão do universo se viria a projectar estendendo-se ao século XIX, tendo o homem por senhor e autor de todo o conhecimeto, enaltecendo o seu ego de forma exagerada. 

Não serão exactamente as novidades cientificas ou os avanços da ciência experimental em si mesma, os quais foram muitos e bons, mas sobretudo as interpretações que foram feitas a posteriori do referido progresso e o seu reflexo nas mentalidades históricas, nas ideologias politicas da modernidade, como o liberalismo, o nacionalismo e o marxismo.

O Cientismo é uma das ideologias mais características desta época, não sendo uma ideologia política é, todavia, uma visão redutora do homem, que partindo do progresso científico quer dar uma explicação última da realidade. Não sendo uma ciência, o cientismo é uma leitura da ciência que pretende ir mais além da própria ciência para se erigir numa explicação total do destino do homem. Neste contexto redutor e totalizante, o cientismo pode ser definido como uma ideologia a qual vai corroborar no orgulho do homem em poder dominar a natureza através da ciência, ser senhor do universo, não no sentido bíblico mas na busca de se tornar ele próprio um ser superior de progresso e desenvolvimento material, desvalorizando a fé religiosa e rejeitando toda e qualquer influência divina dum Deus, que este ateísmo científico também se propôs destronar.

Com fortes influências filosóficas e sociológicas, nomeadamente de August Comte, o conhecimento científico ou positivo é considerado real, certo e útil. Estabelecidas as leis da natureza, o homem pode prever o futuro e controlar o universo, onde haverá uma humanidade desenvolvida, uma sociedade industrial governada por cientistas, que imporão esquemas racionais à convivência social, garantindo assim a ordem e o progresso. Com esta tese, Comte reduz o homem a um ser natural expurgado do catolicismo, profetizando que viverá feliz numa terra em que a ciência o redimiu.

Substituindo Deus pelo homem, Comte não percebeu que na natureza humana há uma sede de transcendência, ele que desconhecia os Evangelhos, motivo pelo qual lhe seria vedado compreender e apreender o verdadeiro significado dos seus ensinamentos. Também alguns dos seus seguidores procuraram fazer uma leitura “científica” da Sagrada Escritura eliminando todo o sobrenatural, pois só à ciência é devida o culto, na perspectiva destes pensadores que a todo o custo tentaram desterrar Deus para os confins da humanidade, impondo os seus preconceitos antiteológicos e as suas visões pessoais desligadas da realidade.

 Neste cenário, estava a oportunidade para se introduzir a teoria da selecção natural das espécies de Charles Darwin, alicerçada em Herbert Spencer.

A questão da origem do homem, que descenderia de um símio, foi o elemento chave para entender a dura luta que os “pensadores” levaram por diante contra a Revelação e a Fé. Sublinhe-se que Darwin expôs a sua doutrina com cautela e prudência no que respeita às opiniões dos outros e procurou manter-se alheio a toda a disputa teológica ou filosófica. Porém, o que se apresentava como hipótese científica, converteu-se na bandeira de luta de um positivismo militante e ateu, muitos discípulos de Darwin declararam incompatíveis a ciência e a religião, aproveitando o princípio da selecção natural das espécies para uso político, em que alguns, os mais dotados, neste caso, os indivíduos de raça branca de cultura ocidental seriam superiores, o que veio a facilitar o racismo e o colonialismo, originando o expansionismo europeu, onde o nacionalismo se converteu em imperialismo.

As consequências nefastas desta concepção antropológica fechada à transcendência, cedo se fizeram sentir numa ausência de sentido para a vida, uma tendência à depressão, ao absurdo, ao suicídio e ao recurso a drogas pesadas. Delas nos falam a literatura, a filosofia, a medicina e a psicologia, nomeadamente no século XX.

Do afastamento de Deus, à negação da Sua existência, tudo vai conduzindo a um pântano viscoso, onde a humanidade sem recurso ao divino se desumaniza, é reduzida ao mais básico do animal, susceptivel de ser conduzida ao açougue, em campos de extermínio, nazis ou marxistas, de poder matar e ser morto, não valendo mais do que um outro qualquer animal irracional.

Neste rescaldo de inúmeras tentativas face à dignidade do ser humano, o qual através de séculos e séculos foi considerado filho de Deus, criado à Sua imagem e semelhança, urge reflectir sobre o nosso posicionamento face à filiação que nos sustenta: Deus ou um símio? 

Terá o leitor toda a liberdade na sua escolha, ser escravo duma ideologia redutora ou entrar na plenitude da salvação anunciada pelos Profetas e concretizada por Jesus Cristo, que veio ao mundo e se fez homem para nos salvar e conduzir à eternidade.