Pe. Aires Gameiro: Codiv-19 veio agudizar o problema social de discriminação dos idosos

Foto: Duarte Gomes

No meio da atual “pandemia”, questionam-se as várias condições de vida que são proporcionadas às populações, de modo particular à classe social identificada como “terceira idade”. Neste contexto, por exemplo, tem-se destacado a premência de cuidados para as pessoas que se consideram mais vulneráveis de acordo com as estatísticas e definições. 

Resta saber o que se entende ou deve entender por “pessoa idosa”, a partir de que idade se deve definir o idoso… A esperança de vida aumentou e o que ontem se considerava “velho” aos 60 anos está hoje ultrapassado pela existência de cada vez mais pessoas centenárias. Para se refletir nesta questão, nada melhor do que ouvir um protagonista, um sábio na matéria, como é o caso do Pe. Dr. Aires Gameiro, autor de livros e artigos sobre o assunto.

Jornal da Madeira – Pe. Aires, com a sua vida de quase 91 anos, como define uma pessoa idosa? Com base na saúde, na sua independência económica, na sabedoria, no ativismo? 

Pe. Aires Gameiro – Defino a minha “idosidade”, deixe-me usar este neologismo, tempo de oportunidades e de vida mais abundante (não apenas mais longa): como dons de Deus que me supera. Para mim, o valor da vida mede-se essencialmente por cada momento vivido na procura do sentido de Deus e em descobrir o que ainda poderei fazer pelos mais frágeis. Por isso, não posso concordar com a eutanásia. Não se trata apenas de dar valor a mais uns anos, meses ou dias vividos, em atividades produtivas e descartáveis para melhorar a situação económica pessoal. Aceito como valor de que os próximos cinco minutos poderão valer mais que todo o outro tempo da minha vida. 

Nem o próprio nem qualquer outra pessoa pode encurtar a vida matando-se ou matando por poder estar assim a eliminar a oportunidade única de viver o sentido pleno de toda a sua vida para si e para os outros. A “idosidade” é um dom prolongado que permite (nem sempre verificável por meios científicos contraditórios que não se podem comparar com a fé religiosa razoável) à pessoa viva discernir e realizar um bem que ainda não tenha tido ocasião de levar a cabo. Tem muito sentido a oração: Senhor, que quereis ainda de mim? Também me dá tempo para ir recordar o que já vivi e agradecer os dons que recebi.

Esta pandemia “Codiv-19” veio agudizar o problema social de discriminação dos idosos que frequentemente já sofrem de outras doenças

Jornal da Madeira – As estatísticas falam, cada vez mais, de pessoas centenárias no mundo, a ponto de o Japão sugerir que a entrada na terceira idade deva ser feita a partir dos 70 anos, concorda com esta ideia? Que lugar devem ocupar os idosos na sociedade para não serem discriminados?

Pe. Aires Gameiro – O lugar a ocupar pelos idosos não tem que ser um favor da sociedade. Quando muito poderá ser um agradecimento por pertencerem à comunidade. Um cidadão ocupa o seu lugar como criança, jovem, adulto, idoso e centenário, sem que se deva discriminar qualquer estádio da vida. Hoje, impera o desvio das sociedades de produção utilitária. A pessoa vale se produz ou, para o mercado liberal, se consome e dá lucro aos mais ricos. É a discriminação negativa pelo fazer ou antes pelo não fazer: não trabalha, não é. É doente, não é cidadão. O idoso e a criança, o deficiente ou doente grave, não seriam cidadãos. Se não são homo faber, não fazem, não produzem, nem são consumistas para dar lucro aos mercantilistas, podem ser descartados como inúteis. 

O cidadão idoso tem funções à medida das suas capacidades e competências; nem deve ser obrigado a fazer o que não pode, nem impedido de se ocupar no que pode. A inserção dos jovens e trabalhadores em ocupações de formação, lazer, e nos primeiros empregos, terá em conta as suas capacidades e competências. O mesmo vale para os de mais idade. A ocupação deles terá em conta as competências e estas deverão alinhar com graus de reforma a três, dois e um quarto de ocupação média. 

Os idosos não têm que ser obrigados a estas ocupações parciais nem ser impedidos de se inserirem nelas. A regulação do trabalho poderá, sim, decidir a partir de que idade e quais funções de maior exigência que deixarão para outros com preparação mais atualizada. Não podem é ser descartados. Os idosos (de 70-100 anos) têm um suplemento de sabedoria insubstituível, de mais valia para curar muitos males do uso das ciências. Deveriam ser mais ouvidos. Ou será que o “Codiv19” é mais competente em humanidade e poder pedagógico que todas as ciências juntas?

 os venenos das ideologias entram no coração e na mente e, piores que os coronavírus, corrompem os que vão corromper a vida, a liberdade e a verdade.

Jornal da Madeira – Os idosos, particularmente na Europa – tido como um Continente envelhecido, são alvo de muitas políticas, nem sempre as mais favoráveis, porque tanto se fala em dar os apoios necessários às famílias, como colocá-los em Lares apropriados, como se discute a eutanásia e o descartar de responsabilidades, situações que o Papa Francisco não se cansa de denunciar… Isto é preocupante?

Pe. Aires Gameiro – Esta pandemia “Codiv-19” veio agudizar o problema social de discriminação dos idosos que frequentemente já sofrem de outras doenças: cardiovasculares, hipertensão, diabetes, respiratórias. Há muitas informações e desinformações a correr que levantam esses problemas. Estou convicto que não são apenas conspiração, mas que há mesmo duas linhas em conflito insanável: uma, na linha da eutanásia, que procura intervir na antecipação da morte. E estará a tentar aproveitar-se da pandemia para despachar, descartar, limitar o direito de viver a algumas categorias de cidadãos. Uma delas, mas não a única, seriam os idosos infetados. Os que já eram pobres agora estão a ser deixados mais pobres enquanto os mais ricos, como de costume, já estão a ser mais favorecidos. Não é difícil verificar que esta linha é um não valor economicista, a tal economia que mata. 

Uma segunda linha é a que procura não fazer aceção de pessoas e luta por dar aos idosos um lugar digno, como comensais e agentes do bem comum. Esta começa a sensibilizar-se para que a Constituição regule explicitamente a não discriminação dos idosos, como já proíbe a discriminação de outras classes de pessoas, mas discrimina os bebés antes nascer. Mas isto é apenas um exemplo. 

A linha da eutanásica não aceita a antropologia bíblica-cristã da dignidade de todos os seres humanos concedida como dom do Criador; e paira na ilusão de que sabe mais, e que algumas pessoas são mais dignas que outras e que por isso eles, os iluminados, podem decidir quem é e quem não é digno de viver, quais os que são para descartar em lugares de vivos-mortos de alguns lares e instituições sem condições humanas; e aqueles aos quais se pode apressar e antecipar a sua morte. Considero que é um erro pensar que mais uns dias ou meses de vida não adiantam nada para a pessoa gravemente doente. Também admito que não se pode provar que uma pessoa doente e em coma, não poderá vir ainda a ter momentos de pleno sentido da sua vida que lhe permitam mudar as suas decisões anteriores e praticar atos do mais alto valor humano. A eutanásia, apesar de todo o palavreado usado, enferma sempre de discriminação negativa contra os mais frágeis, doentes e idosos. 

Para mim, o valor da vida mede-se essencialmente por cada momento vivido na procura do sentido de Deus e em descobrir o que ainda poderei fazer pelos mais frágeis.

Jornal da Madeira – No meio da atual “pandemia”, das imensas dificuldades, das incertezas que invadem as famílias, os países e os governos, como está a encarar a assistência aos mais vulneráveis? Que lição podemos tirar de toda esta situação? Acha que basta a ação do poder económico para recuperar tudo e voltarmos ao bem-estar a favor de todos, ou entende que é preciso promover cada vez mais a solidariedade, a atenção permanente ao outro, a exemplo de São João de Deus?

Pe. Aires Gameiro – A sua questão coincide com a luta pela defesa da vida sem discriminações dos mais frágeis. Por entre ambiguidades e contradições fala-se muito do que vai mudar no tempo depois. Falemos claro. Isto vai mudar para mais liberdade na verdade? A mudança, dizem, vai salvar o planeta; mudar os estilos do viver humano. Como? Obrigou muitos agressores do planeta a parar a destruição de coisas boas: ar, céus, água, mares e montanhas; seres vivos, animais, plantas, florestas e montanhas. Será que vai também salvar os homens, mulheres e crianças desde antes de nascer até aos idosos de 70, 80, 90 anos mais vulneráveis? Destruía porque os venenos das ideologias entram no coração e na mente e, piores que os coronavírus, corrompem os que vão corromper a vida, a liberdade e a verdade. 

Muitos trocam amor por ódio e morte: matam e matam-se. E nisto, sejamos claros, as ciências não funcionam muito para reduzir os males do ódio, da ganância e outros males de antropofagia humana e planetária. Alguns temem que a pandemia já esteja a ser aproveitada para maior controlo das pessoas vulneráveis: eram discriminadas por não contarem como cidadãos com dignidade e agora já estão a contar menos porque assim decidem outros vírus. Os dois vírus mais letais para os frágeis são o capitalismo liberalista, à americana, e o socialista comunista, à chinesa que estendem tentáculos pela Europa, e por Portugal, servindo-se de todas as ciências para as usar como economias de morte. Estão ao serviço de poucos que manipulam e condicionam os cérebros, os neurónios e as mentes das maiorias; fazem das pessoas “robots” de produção e consumo com nova ordem em que poucos comandam e lucram de forma discreta e secreta. 

Poucos consideram a lógica do mercado mortífera, «economia que mata», diz o Papa Francisco; só há poucos anos se escreve que fumar mata. Será que virá a vez de dizer: a droga mata, o aborto mata, a pornografia mata, os lucros das armas, a eutanásia, o tráfico de pessoas e as violências…matam e dão lucro a corruptos. Oxalá se cumprisse a expetativa de Daniel Estulin que esta pandemia será a terceira maior crise da história depois do feudalismo dos séculos IV-VI e do início do século XVI. Que dá sinais de ser o fim da lógica do mercado pós-liberal por ele exigir o impossível da sua expansão progressiva à custa da destruição sistémica da natureza, do planeta e das pessoas. «China e os EUA são o rosto e a cruz da mesma moeda, são o mesmo sistema económico» (Cf. La Razón 23.04.2020).

Os que ainda vão valendo aos frágeis são os que motivados pela sua adesão a Cristo, seguem o exemplo de S. João de Deus e de milhares de santos e humanitários. Há uma certa expetativa que a solidariedade continue a crescer com os desconfinamento; mas não faltam os que fazem agoiros de que paralelamente também aumentem os egoísmos e oportunismos para enriquecer corruptamente.

Os idosos (de 70-100 anos) têm um suplemento de sabedoria insubstituível, de mais valia para curar muitos males do uso das ciências. Deveriam ser mais ouvidos.

(Entrevista conduzida por Luísa Gonçalves)