D. Nuno Brás: Vocações nascem de comunidades cristãs vivas 

Foto: Duarte Gomes

Neste domingo, Dia do Bom Pastor, chega ao fim mais uma Semana de Oração pelas Vocações. Chega também ao fim a publicação de uma série de entrevistas que foram conhecendo a luz do dia ao longo da semana, com o intuito de motivar pelo exemplo. Para encerrar este ciclo publicamos hoje uma conversa com D. Nuno Brás, bispo desta diocese, em que ele nos fala um bocadinho do seu percurso e em que partilha também ideias fundamentais como a de que as vocações nascem em comunidades cristãs vivas, onde existem grupos de jovens que vivem entusiasmados com a vida cristã. 

Jornal da Madeira – Chega hoje ao fim uma Semana de Oração pelas Vocações vivida num contexto diferente do habitual, mas eventualmente mais de acordo com aquele que é o propósito da semana que é a oração…

D. Nuno Brás Teoricamente sim. Embora depois a minha experiência diga, a minha experiência própria também, que quanto mais coisas fazemos, mais fazemos e quanto menos coisas fazemos, menos fazemos. Ou seja, aquilo que é teoricamente ter mais tempo, muito possivelmente depois acaba por ser desperdiçado. Mas eu espero que sim, que este apelo à oração pelas vocações tenha chegado a todos e que todos, de uma forma ou de outra, mais ou menos tenham rezado pelas vocações porque esse é o objetivo primeiro da semana. 

Jornal da Madeira – Mas só a oração não basta para combater a atual crise de vocações. O que se pode e deve fazer mais? 

D. Nuno Brás Vamos lá ver. Pode-se combater com maior vida cristã. Quanto a isso não tenho dúvidas. As vocações não surgem assim do nada. Sim, haverá uma ou outra que surge de uma família que não é cristã, eu conheço alguns sacerdotes que surgiram de famílias que não eram cristãs. Mas isto são sempre exceções. Aquilo que é o normal é que as vocações surjam de comunidades cristãs vivas, de comunidades que têm grupos de jovens que vivem entusiasmados com a vida cristã. É isso que nos faz escutar Nosso Senhor, é isso que nos faz ouvir o apelo, ouvir o chamamento e começar a perceber o que Nosso Senhor nos diz: então se fores tu? Estás disponível? Porque senão, andamos tão distraídos com todas as coisas, que nem sequer damos por aquilo que o Senhor nos diz. É mais uma palavra ao lado de tantas outras, é mais um apelo ao lado de tantos outros. E nós vamos fazendo aquilo que nós queremos e nós achamos.

Jornal da Madeira – Também podemos chegar lá pelo exemplo, ou seja, os jovens podem ter figuras de referência? 

D. Nuno Brás Sim, claro. Creio que todos os sacerdotes, de uma forma ou de outra, têm no seu horizonte uma figura de referência: o pároco, um sacerdote que conheceram, alguém com quem estiveram. Às vezes até um leigo ou uma leiga, um catequista. Quando essa figura é um sacerdote é aquele querer ser padre como…. Obviamente às vezes idealizando as pessoas e achando que aquela pessoa é a pessoa mais santa que encontramos na vida e depois percebendo que não é assim. É como os nossos pais. Quando nós somos crianças olhamos para os nossos pais e queremos ser como eles. Mas a uma dada altura percebemos que são humanos e têm defeitos, mas são os nossos pais. 

já depois de eu ser padre, a minha mãe contou-me que todos os dias rezava para poder ter um filho padre

Jornal da Madeira – No seu caso, teve essa figura de referência? Quando é que sentiu o chamamento? 

D. Nuno Brás Ui…isso é uma história muito complicada. Vamos lá ver, isto não acontece assim de um dia para o outro. Agora, olhando para trás, lá está, nasci numa família cristã. Um dia, já depois de eu ser padre, a minha mãe contou-me que todos os dias rezava para poder ter um filho padre. Depois tive boas catequistas, várias, uma comunidade paroquial única, o exemplo de facto de um sacerdote. E depois o ter sido eu também catequista. Isso obrigou-me a pensar a fé e a perceber que tudo tinha uma razão e que nada disto era irracional. Depois, na Diocese de Lisboa, sobretudo na zona rural, no pós 25 de abril, havia as chamadas assembleias de jovens. Cada arciprestado tinha uma assembleia e os jovens desse arciprestado reuniam-se e passavam o dia com trabalhos de grupo, momentos de divertimento, com a celebração da Eucaristia, orientados por um sacerdote do Seminário de Almada. A partir daí, a partir desses encontros voltava a questão: Porque não eu? A dada altura houve um dia, no dia da missa nova do então jovem Pe. Manuel Clemente, de quem eu era amigo porque estávamos no escutismo, na hora da refeição fui convidado pelo senhor cónego Joaquim Duarte, do Seminário de Almada, para passar uma semana, a semana de Agosto no Seminário. Eu fui. A meio da semana, que tinha como lema “tenho pena desta multidão, são como ovelhas sem pastor” dei comigo a olhar Lisboa e aquela frase não me saia da cabeça. Pronto. Eu tive a percepção de que era chamado a ser pastor daquela multidão que estava ali e de quem nosso Senhor tinha pena e que se chamava cidade de Lisboa. Foi um enamoramento muito próprio por Nosso Senhor e um enamoramento muito próprio pela cidade de Lisboa. Depois as peripécias foram várias. Só entrei no seminário no ano seguinte. Foram sete anos de seminário, obviamente com muitas questões… 

Jornal da Madeira – Já lhe ia perguntar isso mesmo: se ao longo deste percurso teve dúvidas?  

D. Nuno Brás Claro que houve. Houve muitas questões. Houve alturas em que estive quase para fazer as malas e vir embora. É assim… mas fui ficando. Fui ordenado diácono a 1 de dezembro de 1985 e depois sacerdote no dia 4 de julho de 1987, pelo saudoso cardeal Ribeiro. A partir daí foi uma vida de padre quase pelo mundo inteiro. 

Jornal da Madeira – Voltando um bocadinho atrás, suponho que a família terá ficado feliz com a sua decisão. A sua mãe então deverá ter ficado felicíssima, tendo em conta o que atrás nos disse? 

D. Nuno Brás Num primeiro momento a minha família reagiu com surpresa. Não é que fossem contra, mas ficaram surpreendidos. Eu tinha mantido tudo em segredo. Depois, recordo-me que quando vim pela primeira vez a casa, uns 15 dias depois de estar o seminário, vi a alegria das minhas catequistas, das pessoas da paróquia. Aí foi uma surpresa para mim também, porque não estava à espera dessa reação. Obviamente que havia sempre a possibilidade de eu sair… Quem entra para o seminário tem sempre duas possibilidades: ou ficar ou sair. Olhando para trás fica a pergunta: o que é que eu teria sido, se não fosse. Não sei! Os ‘ses’, como eu costumava ensinar na Faculdade de Teologia, não fazem parte da Teologia. Depois há este desígnio de Deus para cada um de nós. Este procurar acertar e corresponder ao desígnio de Deus, creio que é o segredo. E vamos construindo a nossa história pessoal, a história das nossas comunidades, a história do mundo que nos rodeia, e queremos construí-la com Deus. 

Aquilo que é o normal é que as vocações surjam de comunidades cristãs vivas, de comunidades que têm grupos de jovens que vivem entusiasmados com a vida cristã. É isso que nos faz escutar Nosso Senhor, é isso que nos faz ouvir o apelo

Jornal da Madeira – Tinha muitos colegas na sua altura de seminário? Lembra-se de quem eram e de onde eram? 

D. Nuno Brás Nessa altura havia muito poucos. Depois da chamada crise do seminário, que começou em 67/68 e teve o seu ponto alto em 69/70, houve uma longa reconstrução do seminário. O meu curso foi o primeiro depois desse período. Lembro-me que foi nesse ano que os alunos do Funchal foram pela primeira vez para o Seminário de Lisboa. Era um grupo de quatro, acompanhados pelo senhor cónego Conceição. Nós estávamos a sair de um encontro quando eles chegaram, um bocadinho mais tarde por causa da viagem, certamente. Nessa altura éramos 19. Lembro-me que havia muitos alunos de Bragança, mas saíram todos, de Santarém, de Portalegre e Castelo Branco, Lisboa e Madeira. Ficamos aí uns dez, incluindo os três madeirenses que foram ordenados. Nos anos seguintes Lisboa continuou sempre com poucas ordenações. A partir de 1978 foi tendo uma ou duas ordenações o que, digamos, para uma Diocese como Lisboa é muito pouco. 

Jornal da Madeira – Depois de todo esse percurso, o que é que se sente no dia da ordenação? Que memórias guarda desse dia? 

D. Nuno Brás Nem sei… Vamos lá ver. Recordo-me de amigos meus que vieram de longe, de França, para estar na ordenação. Recordo-me das mãos do senhor patriarca em cima da minha cabeça. Mas sabe estes dias as ordenações, diz uma pessoa que eu conheço, são dias sem pés nem cabeça, porque chegamos ao fim e já não sabemos onde está a cabeça e não sentimos, absolutamente, os pés. Isto para dizer que são tantas coisas, tantas pessoas, que a uma dada altura ou não damos atenção a ninguém e passamos por malcriados, ou se queremos estar com as pessoas depois, enfim, são tantas coisas e tantas pessoas que Mas sim, recordo-me da imposição das mãos, recordo-me da celebração claramente e recordo-me também da Missa Nova. As pessoas da terra mobilizaram-se todas, também para o jantar. Umas trouxeram uma coisa outras trouxeram outra e houve, de facto, uma partilha muito bonita. 

Jornal da Madeira – A partir daí começa a vida de sacerdote… 

D. Nuno Brás A partir daí fui vigário paroquial da Paróquia de Nossa Senhora dos Anjos, na Almirante Reis, em Lisboa. Aí tive uma boa equipa sacerdotal – era o senhor Pe. João de Sousa, o senhor Pe. Alexandre Beirão, beneditino, o senhor Pe. Hipólito – que me ajudou muito. Reuníamos todas as quintas para preparar a semana, para rezar, para estar uns com os outros, para almoçar. Foram três anos muito bonitos, sobretudo porque eu estava a viver na casa patriarcal, o que me deu a possibilidade de conviver com três grandes homens que me marcaram muitíssimo. Em primeiro lugar o senhor D. António Ribeiro, um gigante da Igreja a quem Portugal e a Igreja em Portugal devem muitíssimo. O sr. D. António Rodrigues, talvez dos homens mais inteligentes que eu conheci, senão mesmo o mais inteligente e o senhor D. Albino, um amigo, que tinha sido vice-reitor do Seminário de Almada, que fazia com que eu, um jovem sacerdote, me sentisse mais à vontade no meio daquelas eminências todas. Foram três gigantes, de facto, com quem eu tive o privilégio de privar naqueles três anos. Depois fui para Roma estudar, estive três anos no Colégio Português. Depois regressei para o seminário, para professor da Faculdade de Teologia, onde fiquei até 2002, altura em que regressei a Roma. Em 2005 regresso como Reitor do Seminário. 

é uma dor que eu tenho não poder ter mais sacerdotes a trabalhar com os emigrantes, e é raro o mês que não me chegam apelos. Mas se eu retiro daqui para ir para ali fica sempre uma falta. Isso é um drama, mas enfim, temos de viver com ele.

Jornal da Madeira – Enquanto Reitor do Seminário o que é que lhe custou mais? 

D. Nuno Brás Eu fui membro da equipa formadora do Seminário a partir de outubro de 1993. Desde então fui acompanhando diversos cursos até àquele fatídico 2002. Fatídico porque eu tinha ido a Roma dar umas aulas de um curso intensivo de comunicação social e acabo por partir a perna a jogar futebol. Depois, quando eu achava que o senhor D. José Policarpo me ia simpaticamente visitar, ele foi de facto, mas para me dizer que eu ia para Reitor do Colégio Português em Roma. Foi uma surpresa muito grande. Fiquei três anos em Roma, onde tive a graça de viver o abril de 2005 que fica gravado como o mês do falecimento de São João Paulo II, a 2 de abril e depois a eleição do Papa Francisco. Como Reitor do Seminário sabia que tinha, por assim dizer, a última palavra em relação à ordenação. Claro que a última palavra é sempre a do bispo, mas se o reitor disser, senhor bispo ordene este rapaz, em princípio ele ordena. Também se o reitor disser, tenha paciência, mas este não, ele também respeita. No fundo trata-se de decidir sobre a vida e o futuro de uma pessoa. Eu nunca tive a pretensão de acertar em todas as minhas decisões. Tive a pretensão de procurar acertar, isso sim. Tive e tenho apenas a pretensão de procurar acertar, pensando e decidindo com os elementos que temos à nossa disposição. Nosso Senhor fará melhor… Claro que outras pessoas com mais jeito, mais intuição farão melhor, não tenho dúvidas disso nem a pretensão de ser mais esperto do que os outros. Mas de facto essa é uma responsabilidade muito grande. Trata-se de decidir não apenas a vida daquela pessoa, mas de decidir a vida das paróquias onde ele vai ser padre, bom ou mau padre, da diocese que ele vai servir. Umas vezes diriam, se o senhor não tivesse dito para ele ser ordenado esta paróquia, esta diocese, não estaria a sofrer. Mas depois também acontece o contrário: eu dizer não, não sejas ordenado, e apesar disso ele poder vir a ser um grande padre. Privo assim aquela paróquia de ter um pároco e aquela diocese de ter um padre. Há sempre aquela historieta de um seminarista que é convidado a sair do seminário pela equipa. Insatisfeito com a decisão, ele entra no seminário de uma diocese vizinha e é ordenado sacerdote e mais tarde bispo da primeira diocese. Quando foi a ordenação de bispo, no final, lá aparecem os velhos superiores do seminário para falar com ele. Ele não se conteve e diz-lhes “a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular”, a que os superiores responderam “tudo isto veio do senhor, aos nossos olhos é um milagre”. Tudo isto para dizer, que temos de desmistificar muito esta situação. Não há certezas. Decidimos com os dados que temos nas mãos, com a observação que fazemos e sempre procurando o melhor para a Igreja e para as pessoas. 

Jornal da Madeira – E o melhor para a Igreja, e para as pessoas, seria que houvesse mais sacerdotes, para os poder distribuir pelas paróquias?  

D. Nuno Brás Sim, isso seria teoricamente o ideal. Mas vamos lá ver, nós temos paróquias que, neste momento não teriam capacidade para sustentar um pároco, porque são muito pequeninas. Na altura que foram criadas, sim eram grandes paróquias, mas hoje não o são e é preciso ver toda essa realidade. Mas sim, os padres fazem sempre falta. Mesmo que não façam falta para a sua diocese farão falta para outra. E depois há outros serviços. Por exemplo, é uma dor que eu tenho não poder ter mais sacerdotes a trabalhar com os emigrantes, e é raro o mês que não me chegam apelos. Mas se eu retiro daqui para ir para ali fica sempre uma falta. Isso é um drama, mas enfim, temos de viver com ele. É preciso que os jovens saibam estas realidades e ao que vêm. A generosidade que caracteriza os jovens passa também por aí. 

ser sacerdote hoje é ir contra a moda, ir contra aquilo que a maioria pensa. Por isso é preciso coragem.

Jornal da Madeira – Que mensagem deixaria a um jovem que estivesse na dúvida quanto à sua vocação? 

D. Nuno Brás A mensagem é sempre para a necessidade de escutar o apelo de Deus. Ou seja, se Deus não nos quer como padres não vale a pena querermos ser padres. Agora, se Deus nos quer como padres vale a pena seguir responder aos apelos de Deus. Portanto, escutem os apelos de Deus. Sendo que os apelos de Deus não são pelo mais fácil. Não é que o Senhor queira andar aí assim a fazer coisas difíceis só porque sim. Este escutar o apelo de Deus, por mim passou por ver aquela cidade de Lisboa. É, pois, preciso muita atenção e toda a honestidade para reconhecer o apelo. 

Jornal da Madeira – E também é preciso um bocadinho de coragem, como diz o papa? 

D. Nuno Brás Sim é preciso coragem. Sobretudo nestes tempos que correm, ser sacerdote não é nada fácil. Quando ser padre significava ter um estatuto social, quando ser padre significava uma boa vida era uma coisa, mas agora já não é assim. Além disso, ser sacerdote hoje é ir contra a moda, ir contra aquilo que a maioria pensa. Por isso é preciso coragem. São João Paulo II, Karol Wojtyła, era um jovem que andava pelos teatros lá da Polónia. A dada altura, quando ele entrou para o seminário, lá o encenador, o chefe do grupo de teatro disse-lhe que ele pensasse bem porque ele seria um excelente ator, de nível internacional e iria dar um padre médio. E ele pensou e entrou para o seminário. No fundo, é muito esta sedução que se faz hoje aos jovens: pensa bem, tu vais ser um excelente presidente do conselho de administração das empresas e vais dar um padre normal; ou pensa bem, vais dar um excelente pai de família, com uma família cor de rosa, e vais ser um padre assim… É esta tentação sempre que tantas vezes se apresenta aos jovens. É preciso coragem, claro. Por isso é importante que sempre que tiverem dúvidas, e porque o discernimento se faz em Igreja, os jovens procurem ajuda.