Irmã Ana Rita: 25 anos “fazendo todo o bem que nos é possível”

Irmã Ana Rita saúda o Papa Bento XVI
Natural de Santa Cruz, Ana Rita Nunes Araújo tem 51 anos. É filha de José Araújo e de Catarina Nunes, e “irmã de 11 irmãos”. Em 1990, com 21 anos, deu entrada na Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias. Uma vocação tardia. Caminho feito de “curvas e contracurvas”, que a música ajudou a acalmar. Em 2011, de malas na mão e de guitarra nas costas, partiu para Angola de onde voltou em outubro 2019, já depois da presença na JMJ, no Panamá. Aos jovens que fazem o seu caminho de discernimento deixa-lhes uma mensagem em vídeo que é lição para todos nós.  

 

Quando e como descobriu a sua vocação?

Descobri a minha vocação, a partir do seio familiar numeroso de doze “apóstolos”. Meus pais eram de uma vivência muito cristã e ativa. Na oração do terço diária, no frequentar a Missa, os encontros da pastoral juvenil, encontros de Catequese, pastoral vocacional promovidos pela Congregação das Irmãs da Apresentação de Maria e das Irmãs de Nossa Senhora das Vitórias. Participava em tudo, mas adiava tudo. Minha vocação foi tardia. O caminho de discernimento e de escuta foi longo. Aos 21 anos, deixei o emprego e a casa de meus pais, para responder ao convite do Senhor. Dei entrada na Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias em 1990.

Como reagiu a família ao anúncio de que queria ser religiosa?

Normalmente, na minha família os filhos, quase todos, embarcavam para outros países. Saiam de casa, seguindo a ordem decrescente. Quando chegou à minha vez, de comunicar, que a minha viagem seria dentro da própria Ilha e não como era habitual, o receio da incompreensão e da não aceitação foi enorme. Foi difícil comunicar e tomar a decisão, seja em família seja no emprego que tinha. Deus nunca nos abandona. Muitas vezes, Ele nos coloca em situações difíceis, para fortalecer a nossa fé e coragem. No início, tudo parecia difícil, mas graças a Deus, tive sempre o apoio da família para a realização da minha vocação.

O caminho de discernimento e de escuta foi longo. Aos 21 anos, deixei o emprego e a casa de meus pais, para responder ao convite do Senhor. Dei entrada na Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias em 1990.

Porque é que optou pela Congregação de Nossa Senhora das Vitórias?

A minha opção pela Congregação de Nossa Senhora das Vitórias, foi muito bem ponderada, meditada e rezada. Como já referi, frequentava os encontros vocacionais das duas Congregações acima mencionadas. O facto de eu pertencer à Ordem Secular de S. Francisco, ajudou-me muito na tomada de decisão. O Carisma Franciscano, o amor de Francisco pelos mais pobres e o Carisma deixado pela Irmã Wilson, foram dois pilares importantes. Tratou-se de colocar-me à escuta de Cristo para tomar distância de mim mesma, deixar-me habitar pela sua graça, a fim de, escolher o caminho certo.

Durante este percurso houve dúvidas? Como foram ultrapassadas?

O caminho nunca pode ser só linear. É feito de curvas e contracurvas. Isto quer dizer, que em todo o percurso formativo e de discernimento vocacional, surgem dúvidas próprias de cada etapa formativa. Foram ultrapassadas com muitos momentos de oração, ajuda da Irmã mestra e diretor espiritual.

A música, sei que a irmã toca, ajudou e ainda ajuda a ultrapassar os momentos mais difíceis?

Sempre tive paixão pela música. Um dos grandes objetivos era aprender a tocar guitarra, piano ou flauta transversal. A guitarra é minha companheira de viajem. Para onde quer que vá, ela acompanha-me. Quem canta, reza duas vezes, diz o ditado popular. Por isso, em cada etapa formativa, religiosa ou académica ou até mesmo na aprendizagem de outra língua e fase de inculturação, que experimentei ao longo destes anos, a minha guitarra e a música foram o motor que muitas vezes acalmou os “mares”. 

o receio da incompreensão e da não aceitação foi enorme. Foi difícil comunicar e tomar a decisão, seja em família seja no emprego que tinha. Deus nunca nos abandona. Muitas vezes, Ele nos coloca em situações difíceis, para fortalecer a nossa fé e coragem.

Celebrar 25 anos de vida consagrada. Que memórias guarda do dia da consagração? Como tem sido esta caminhada?

Celebrar 25 anos de Vida Consagrada, significa viver a história com alegria, os desafios, e a missão. Celebrar a presença de Deus na minha vida, pela entrega e doação. Servir e amar na gratuidade. Recordando aquele dia da entrega total a Deus e aos Irmãos, sobressai do mais profundo do meu ser, um hino de gratidão, a Deus autor da vida e da vocação. À família que me gerou e criou com amor e à Congregação que me acolheu e formou nas várias comunidades e países onde tenho passado e convivido me ajudaram a crescer na fé, fizeram-me acreditar e lutar, concretizando o projeto de Deus e o Carisma da Irmã Wilson, “fazendo todo o bem que nos é possível”.

Sei que esteve em África. Conte-nos como é que foi essa experiência e quanto tempo durou?

Os nossos planos, muitas vezes, não são os planos de Deus. Não fazia ainda dois anos, que eu tinha chegado de Itália, onde tinha ido fazer a minha formação académica, Licenciatura em Ciências da Educação, quando pensava que iria colocar em prática a formação adquirida, a Congregação precisava de mim em Angola. Os planos de Deus traçados para mim, eram outros. O Sonho de Ser Missionária chegou. A 26 de Fevereiro de 2011, parti de malas na mão e de guitarra nas costas. Levava comigo um sonho a realizar e a certeza que Deus nunca abandona ninguém e capacita aqueles que Ele chama. De regresso à Madeira para cumprir outra missão, deixei Angola com muita dor em outubro 2019. O tempo que vivi em Missão nas terras de Angola, concretamente na Província da Huila e Província do Kuando Kubango, foram anos de muita dedicação, entrega à missão em prol da formação das jovens candidatas à vida consagrada, na catequese, na pastoral juvenil e vocacional e principalmente na educação das crianças órfãs e jovens desfavorecidos ou em conflito com a lei. Foram anos de muitos sacrifícios, privações, de muitas lutas, mas também de muitas vitórias, para ajudar a resolver e combater situações de analfabetismo, doença e fome. Quando não se encontra o essencial para socorrer, temos que dar alas à imaginação, e do “lixo” fazer obras de arte. Em cada, grito de fome, em cada situação de abandono que aparecia para resolver, a Divina Providência tomava conta da situação e enviava alguém com a solução. Encontrei um povo simples, alegre e acolhedor. Deus nunca nos abandona. A oração de S. Francisco foi bem patente: é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna.

Celebrar 25 anos de Vida Consagrada, significa viver a história com alegria, os desafios, e a missão. Celebrar a presença de Deus na minha vida, pela entrega e doação. Servir e amar na gratuidade.

Para quem já esteve em África e no meio de multidões, disse-me que esteve no Panamá com o Papa, por exemplo, como é que viver estes tempos de isolamento?

Dou graças a Deus por tantas experiências ricas e profundas que ao longo da vida tenho vivido e experimentado. Uma moeda tem sempre duas faces. Existe o lado positivo, mas também existem as dificuldades e os sacrifícios. Partilhar e beber de outras culturas, implica estar desprendido de si, para apreender da cultura do outro. A experiência de ter participado da Jornada Mundial da Juventude 2019 no Panamá, foi algo indescritível. A alegria, força da fé, a oração, o sacrifício e a coragem eram os motores que fizeram mover milhares de Jovens provenientes de diversas partes do mundo, diversas cores e culturas, congregados numa única direção: Panamá para o encontro com o Santo Padre. Neste tempo de isolamento social, em que todos nós, pobres, ricos, crianças e adultos, de diferentes nacionalidades, estamos no mesmo barco, no mesmo campo de batalha sem ver o inimigo. Procuremos viver este tempo diferente, valorizando o lado positivo. Confiemos em Deus. Procuremos neste tempo reforçar os laços familiares, dedicar mais tempo aos vossos filhos ensinando os verdadeiros valores morais, ler um bom livro. Evitar que o stress, angústia, o medo tome conta de nós. Procuremos intensificar a nossa oração rezando o terço todos os dias no mês de Maio. Que Maria proteja e abençoe todos os seus filhos e guie e oriente, principalmente, todos os que estão no combate à Pandemia.