Pe. Paulo Sérgio: O menino do Lombo Brasil que um dia quis ser padre

Pe. Paulo Sérgio

Paulo Sérgio Cunha da Silva é o filho mais velho de Luísa Fátima Cunha Silva,  cozinheira numa escola Básica com Pré-escolar, e de José Manuel Freitas Silva, manobrador numa empresa de construção civil. Uma família cristã do Lombo do Brasil, na Calheta, que reagiu com “surpresa” e “medo” à saída de casa do primogénito, na altura com apenas 15 anos. Mas o medo depressa deu lugar ao respeito e ao apoio incondicional ao filho, que um dia lhes disse que queria se padre. Hoje Paulo Sérgio – o padre Paulo Sérgio – tem a seu cargo as Paróquias da Achada de Gaula e da Assomada. É feliz com a escolha que fez, apesar dela o ter afastado fisicamente dos pais e da irmã nos primeiros tempos. Agora o afastamento é dos paroquianos, de quem confessa ter “uma saudade imensa” e uma “enorme vontade” de poder celebrar com esse povo que lhe foi confiado.

Jornal da Madeira Quando e como descobriu a sua vocação?

Pe. Paulo Sérgio – A minha vocação foi descoberta através do chamamento de Deus em circunstâncias muito simples. Sou de uma família cristã, que desde sempre procurou viver e celebrar a vida de Deus, em casa e na Igreja. Num primeiro momento, na vivência e na celebração na minha comunidade cristã de São Francisco Xavier, na Calheta. Num segundo momento na participação do pré-seminário e com o convite a entrar no seminário. E num terceiro momento, na minha caminhada de seminário, na dedicação aos estudos e na resposta que fui dando aos que me acompanharam e também a Deus que me pedia que O seguisse.

Jornal da Madeira Como reagiu a família ao anúncio de que queria ser sacerdote?

Pe. Paulo Sérgio – A reação da minha família, foi de surpresa, de medo mas depois apoio. De surpresa, porque até aquele dia, nunca tinha falado em ser padre. De medo, pois iria sair de casa com 15 anos, para um lugar que os meus pais não conheciam e apenas ouviam falar. De apoio, porque aquilo que a minha família queria era que eu fosse feliz na vocação que escolhesse. Por isso foi um caminho onde me senti acompanhado pela minha família. Durante este percurso houve dúvidas? Sim, muitas!… Mal seria para mim se não as houvesse! Pois numa decisão, que é para toda a vida, seja ela qual for, faz-nos questionar muitas vezes: serei capaz? É isto que eu quero? Vou ser feliz? E se eu me der mal, o que vou fazer? As dificuldades foram ultrapassadas com a ajuda de muita gente. Uns de perto e outros de longe. Diria que até por gente que não conheci pessoalmente, pois rezaram por mim no silêncio para que eu tivesse forças para vencer. Mas ultrapassei as dificuldades discernindo a cada momento. Reconhecendo sempre, como ainda hoje o faço, que era demasiado pequeno para tamanha grandiosidade.

nestes últimos dias, tenho sentido uma saudade imensa e ao mesmo tempo uma angústia. Saudade de poder celebrar com o povo que me foi confiado e uma grande tristeza, por não poder ir ao encontro de todos, sobretudo dos mais velhinhos e dos doentes

Jornal da Madeira Quando é que foi ordenado e que memórias guarda desse dia?

Pe. Paulo Sérgio – Fui ordenado por D. António Carrilho no dia 28 de Julho de 2012. As memórias que guardo são de uma enorme alegria, como nunca tinha sentido na minha vida, misturada com uma enorme ansiedade. Senti que nesse dia algo mudava radicalmente na minha vida, não no nome porque me iriam chamar de padre, mas porque a partir daquele “sim quero” que iria responder ao meu bispo, iria tornar-me num discípulo de Cristo. Sentia as minhas mãos quase dormentes, só de pensar que as minhas mãos iriam ser consagradas para consagrar o corpo e o sangue de Cristo. E ao ver cada rosto presente na Sé catedral, pensava e ainda hoje penso, que nunca serei capaz de agradecer o que esta gente estava a fazer por mim: pedir ao Senhor que me abençoasse e protegesse na vida da Igreja.

Jornal da Madeira Como tem sido esta sua caminhada ao longo dos anos e muito particularmente nestes últimos tempos?

Pe. Paulo Sérgio – A caminhada nestes quase oito anos de ordenação, tem sido cheia de belezas. Desde o celebrar cada sacramento, ao aconselhar e encaminhar cada pessoa, sinto que Jesus foi estando sempre presente em cada gesto e foi Ele a fazer e a transformar e não apenas eu. Senti que nunca estive sozinho, apesar de por vezes a solidão querer bater à porta. Ao olhar para trás, vejo que ao longo destes anos, fui crescendo com o povo e também ajudando-o a crescer. Se fosse a destacar os momentos menos bons, sentiria alguma dificuldade em encontrá-los, pois a cada dia procurei descobrir Jesus Cristo, nas diversas formas e nas diversas pessoas que foram colocadas na minha vida como sacerdote. Nestes últimos tempos e sobretudo nestes últimos dias, tenho sentido uma saudade imensa e ao mesmo tempo uma angústia. Saudade de poder celebrar com o povo que me foi confiado e uma grande tristeza, por não poder ir ao encontro de todos, sobretudo dos mais velhinhos e dos doentes.

Senti que nunca estive sozinho, apesar de por vezes a solidão querer bater à porta. Ao olhar para trás, vejo que ao longo destes anos, fui crescendo com o povo e também ajudando-o a crescer.

Jornal da Madeira Se um jovem ou uma jovem o procurasse no sentido de o/a aconselhar sobre a sua possível vocação que “dicas” lhe daria, para ajudar fazer o seu caminho de discernimento?

Pe. Paulo Sérgio – Certamente lhe daria um bom conselho [risos]. Em primeiro lugar, procurava ajudá-lo a conhecer-se melhor! Por vezes não nos conhecemos o suficiente e há perguntas que nunca fizemos a nós próprios. Em segundo lugar, naquilo que ele mais gostasse iria confrontá-lo com o que ele menos gosta, para saber se realmente ama aquilo que diz escolher. Em terceiro lugar se perguntasse pela vocação sacerdotal, iria dar-lhe a maior força possível, dizendo como Jesus disse aos seus discípulos: ireis ser perseguidos, mas eu estarei convosco até ao fim dos tempos! Iria mostrar-lhe a verdadeira realidade da igreja que é vivida, com cruz e com glória, mas que vale a pena ser sacerdote.