Entrevista ao P. Dr. Aires Gameiro: Um homem sábio, com 90 anos de idade

D.R.

Estamos de “quarentena” obrigatória, com mudanças de vida forçadas, com as devidas distâncias em termos físicos e receios de toda a espécie… mas, nada pode impor o silêncio ou a ausência de comunicação. As redes digitais, no atual contexto do “coronavírus”, são preciosas e potenciam a proximidade, a vizinhança, a partilha de testemunhos que estão a acontecer neste momento.

Com base nesta realidade, fomos ao encontro de uma pessoa que muito admiramos e que é também especialmente considerada por muitos dos nossos leitores: o P. Dr. Aires Gameiro (da Ordem Hospitaleira de São João de Deus); um especialista em pastoral de saúde, psicólogo, autor de livros e numerosos artigos, conferencista em várias partes do mundo…; um  homem sábio, com 90 anos de idade, e que nesta ocasião está a cumprir a “quarentena”, na sequência de uma viagem que fez à Irlanda para participar num congresso internacional sobre o problema do alcoolismo no mundo…  

Quisemos registar a sua presente situação, através de uma breve entrevista feita por e-mail, e que agora damos a conhecer aos leitores interessados.

– Como está a encarar esta situação de “isolamento” físico forçado?

AG – Antes de responder à sua pergunta gostaria de dizer o que me ocupa nestes dias de quarentena. Comecei a 19, mas já desde o dia 9 em Dublin e depois em Londres de 14 a 19. Comecei a praticar no congresso a vida em tempo de pandemia. Agora o isolamento é rigoroso. Tive que me organizar e tenho sempre o tempo cheio. Descansar bem, ler bastante, jornais, boletins, em papel e online, escrever muito. Inventei a ocupação de escrever o diário, rezo muito por todos (de perto e de longe, amigos e conhecidos, doentes (alguns contatam-me) e profissionais de saúde, familiares e desconhecidos, infetados e ameaçados pelo vírus esperto que exige rigor na defesa, pelos vivos e falecidos. 

Rezo e celebro a missa sozinho, mas com todos e por todos, também com todos os que rezam para que Jesus, o médico de doentes e pecadores, nos liberta desta peste. Unido ao Papa, aos bispos, aos padres e a todos os que rezam. Passo cada dia bem e relativamente contente, até agora. Não estou sozinho, apesar de as companhias serem virtuais. Passo agora às questões que me põe.

É difícil resumir tantas experiências. Encaro a quarentena com uma certa curiosidade; é uma experiência muito dinâmica que vai mudando a cada momento com as notícias. O meu bom estado de saúde ajuda a estar atento. Até me obrigou a criar um horário. E aventurei-me no desafio de escrever o diário de quarentena que penso partilhar, ainda não sei como. Repare que esta decisão de fazer um diário aberto aumentou a ocupação, as frentes de observação e de reflexão. Ajuda a viver melhor esta reclusão.

Desse diário fazem parte as reflexões e trocas virtuais. O facto de manter os tempos de oração, as Horas do Breviário rezadas pelos textos da Internet, alternando várias línguas, como faço também com o terço e a missa que celebro no meu gabinete, é enriquecedor e gratificante. Sempre pelas intenções de todos os envolvidos na epidemia, mesmo todos.

No seu caso, esta “quarentena” surge como necessária e obrigatória, devido à sua recente participação num congresso internacional na Irlanda… Pode-nos relatar um pouco como foi essa participação e a importância desse congresso?

AG – Sim é obrigatória. Faz parte da emergência. Não estou contrariado, talvez por estar sempre muito ocupado e as evidências mostrarem que é fundamental. Incluí no diário o relato da decisão difícil de participar no congresso em Dublin. A saída da Madeira para a Irlanda, já com a epidemia a avançar foi decidida com apoio de várias pessoas. As experiências nesse grande congresso com mais de 500 participantes de todo o mundo, o quarto desta organização, resultaram bem. Os alarmes diários para os rituais de lavar as mãos, de usar gel, de não apertar a mão nem dar abraços, mas usar os cotovelos, foi um treino importante para evitar o contágio (estou quase a saber se consegui).

O congresso destinava-se a apresentar evidências de alarmes sobre os danos do álcool em todo o mundo e propor políticas para os reduzir; por isso girou à volta de duas globalidades: reduzir os 3 milhões de mortes, por ano, em todo o mundo, devidos ao álcool consumido; e reduzir as vítimas do coronavírus que alastrava e causava medo e pânico. 

– A situação de pandemia é motivo de muitos medos e milhares de mortes… Na sua opinião, há outros “vírus” do nosso tempo que estão a matar mais?  Por exemplo, “vírus” sociais, bélicos, políticos, etc…

AG – Precisamente, o Covid-19, pode provocar doença e morte rápida e por isso mete mais medo matando menos (por enquanto e esperemos que assim fique), assusta mais que os três milhões de mortos anuais por álcool, ou os mais de 40 mil anuais por aborto provocado.  O álcool, o tabaco, o aborto, a droga, a fome, não são vírus, mas matam mais cada ano que o coronaírus (esperemos que não se invertam os números).  

Agora, o medo afeta mais os idosos doentes e não doentes, contudo as mortes do “vírus” da eutanásia estão em aumento. Será que agora os idosos infetados já não vão morrer de eutanásia? Há outros vírus inimigos e perigosos no tecido social: as dissensões entre os países do Norte e os do Sul da Europa; ou entre as grandes economias e os países da fome e miséria. Não falta quem especule, e oxalá que sejam fake news, que este vírus terá sido espalhado como guerra biológica entre blocos políticos e como meio para reduzir a população mundial.

Não se exclui que alguns destes conflitos políticos tenham motivações económicas, religiosas e ideológicas: os latinos católicos para um lado, os nórdicos protestantes para outro; a fé cristã, a ciência e as religiões não cristãs, cada uma para seu lado, em vez de colaboração para vencer este inimigo. É certo que apesar de se insistir no alvo dos mais idosos e doentes, funciona também o duplo travão da discriminação, a globalidade e a democracia do coronavírus. O Covid-19 tem atacado de forma muito democrática; não faz aceção de pessoas de poder político e de alto nível de vida.

– Escreveu num artigo que como está de “quarentena” está a servir de “cobaia espiritual”… Pode explicar um pouco mais o que quer dizer com isto?

AG – Bem, foi um nome que me ocorreu sobre a esperança em situação de isolamento por razões científicas e perigo de morte. Tem uma certa razão de ser. Poderia servir para avaliar dois níveis de esperança na linha da frente dos que vão ficando infetados e dos que, com generosidade e motivações morais, não os abandonam.

Enfim, avaliar o que chamei de esperança a prazo e esperança baseada na fé teologal, isto é, uma, enquanto há a saúde, outra, quando a doença se torna mortal. Aplico a mim essa distinção em situação de quarentena obrigatória para meu bem e bem dos outros. Duas esperanças, ambas válidas, uma decisiva quando a outra acaba; uma avalia a importância dos recursos da ciência e técnicas, a outra os recursos da fé com confiança.

– Com a sabedoria dos seus 90 anos de idade – e já passou por outras “guerras” e grandes dificuldades, qual acha ser a lição que podemos e devemos tirar de tudo isto, destas ameaças e provações? Como religioso, acha que ficaremos mais próximos de Deus e acolheremos melhor a mensagem de Jesus Cristo?

AG – Os homens são livres de dizer sim e não a Deus. Para uns, esta pandemia pode melhorar ou agravar-se, e pode estimular mais fé e oração, associadas à ciência e técnicas de curar. Está a mudar muito os modos de viver. Para outros, pode estimular atitudes religiosas de fé em Deus e em Jesus Cristo; num terceiro grupo, pode ainda levar à fé e práticas religiosas, mas excluir Cristo e a Igreja. Jesus Cristo, sim, Igreja, não. E porquê?

O homem é livre e não quer ou não consegue aceitar uma Igreja com defeitos e pecados. Vê nela as “torturas” das linhas tortas dos homens e não o bem que Deus escreve direito nas linhas. Ou ainda, aceitam a Igreja e as palavras de Cristo, mas não como mãe. Talvez por terem outra mãe em termos de compromissos e afiliações religiosas.

Os pecados da Igreja seriam ao mesmo tempo barreiras e confirmações de que os homens são livres. Fidelidades laicas ou talvez compromissos solenes noutras afiliações “religiosas” (maçónicas, “protestânticas”,…) fazem sentir que já têm a sua “Mãe” e a consideram mais bonita e credível. Ficarão simultaneamente mais ligados à ciência e a outras afiliações cristãs ou religiosas, não católicas. Afiliar-se ao cristianismo católico pode estar condicionado por certa ligação a outros países, sistemas religiosos e políticos.

Será que esta pandemia vai trazer conversões no sentido de aproximar mais de Deus, de Cristo, da Igreja? Uma pandemia destas com tantas mudanças e sofrimentos temporários vai levar a conversões? Não sei. As conversões acontecem frequentemente de surpresa para os próprios e os que os rodeiam. Nem os próprios fazem ideia se irá acontecer. Não é proibido fazer especulações contando sempre com a liberdade de cada pessoa.