Catequeses da Quaresma: Cónego Vítor falou do Sacramento da Reconciliação e da sua evolução

Foto: Duarte Gomes

O cónego Vitor Gomes foi o primeiro orador das “Catequeses da Quaresma” que se iniciaram ao fim da tarde da passada quinta-feira, dia 5 de março, na Igreja do Colégio. 

O Pároco da Sé e Deão do Cabido falou sobre “O Sacramento da Reconciliação”, tendo recuado até aos tempos da primeira comunidade cristã para explicar a evolução deste sacramento que, lembrou, tem tanto de individual como de comunitário e até de relação com a natureza, como têm evidenciado os textos do Papa Francisco. 

Com uma intervenção dividida em três partes, o cónego Vítor começou por referir que, de acordo com o Catecismo da Igreja Católica, e embora “o sacramento por excelência de perdão dos pecados seja o Batismo”, existem dois outros sacramentos de cura. São eles o Sacramento da Penitência e o da Unção dos Doentes. 

Relativamente ao primeiro ponto da intervenção, disse ser importante “olhar para a palavra de Deus e ver a relação fundamental entre o anúncio do evangelho, a reconciliação e o perdão”, ou seja, “entre Jesus e o perdão”. É certo, disse, que Jesus não se “esquece de anunciar o julgamento de Deus”, mas agora “o perdão vem em primeiro lugar e tem como consequência a decisão de seguir Jesus”. 

A solidariedade que Jesus mostra em relação aos pecadores, faz com que o pecado seja “vencido na sua raiz”, com o perdão a ser verdadeiramente “uma libertação para o corpo e para a alma”. Com Jesus “começaram os tempos novos, nos quais Deus reconcilia humanidade consigo”.

Já nos tempos da primeira comunidade cristã se começou a fazer uma “diferenciação entre pecados, havendo aqueles que levam à morte e aqueles que podem ser perdoados no seio da comunidade”. 

Em relação aos primeiros, os graves, os responsáveis da comunidade cristã nada podem fazer e os praticantes são banidos. Já em relação aos segundos, “podem ser perdoados graças à intercessão da comunidade e às práticas penitenciais já previstas no antigo testamento, nomeadamente a oração, o jejum e a esmola”.

Resumindo: “Em relação a este primeiro ponto, sobre Jesus e os pecados, o perdão dos pecados é uma realidade constante na ação de Jesus. A comunidade dos apóstolos é portadora deste Evangelho do perdão, pregando a conversão acolhendo pelo batismo os novos discípulos de Cristo. Há assim uma dupla preocupação da Igreja em relação ao pecado e aos pecadores, preocupação de verdade e de misericórdia.” 

Numa segunda parte o cónego Vítor traçou um historial do Sacramento da Reconciliação, o qual foi sofrendo mudanças ao longo dos tempos. Assim, começou por se referir a ‘O Pastor’ da autoria Hermas, autor cristão do século II. Hermas declara que não há outra remissão dos pecados a não ser a do batismo. “Aqui começa uma vida nova em que o pecado não tem lugar”. 

Mas, infelizmente, os pecadores continuam a existir na comunidade e O Pastor “admite uma segunda remissão dos pecados que deve permanecer excecional”. Por outras palavras, o pecador só tem “oportunidade de ser reconciliado uma única vez” e depois de uma “expiação penosa”, no caso dos pecados graves. Já no que toca às faltas leves, “o seu perdão era obtido pela prática das boas obras e as ações de mortificação”.

Mais tarde, no século VII, aparece uma nova prática penitencial chamada de insular ou tarifada, que marca uma rotura com a antiguidade e com o modo de entender as relações entre Deus e o pecador, entre o pecador e a Igreja. 

“Segundo esta disciplina penitencial todos os pecadores, clérigos ou leigos, podiam ter acesso à reconciliação tantas vezes quantas precisassem, dirigindo-se em privado a um padre e não só a um bispo como na penitência antiga”, explicou o Cónego Vitor. 

O perdão e a reconciliação com Deus eram então concedidos graças ao cumprimento de práticas penitenciais “estipuladas através de catálogos, que taxavam os diferentes pecados”. Depois do período da penitência realizava-se a reconciliação, conferida pelo sacerdote. O processo da penitência permanecia secreto.

Mais tarde, no final do século XII, Pedro o Chantre “encontra a fórmula definitiva. Ele diz: a confissão oral constitui o essencial da expiação”. Ou seja, já não é preciso fazer uma penitência severa e a absolvição seguirá imediatamente a confissão. 

Com os concílios quarto de Latrão e mais tarde de Trento “o Sacramento da penitência adquiriu uma nova importância. Deixou de ser, como na penitência antiga, um sacramento voltado só para o perdão dos pecados graves, para se tornar um sinal corrente e frequente da conversão do cristão”. Ainda assim, até finais do século XIV “os cristãos, mesmo os mais piedosos, só comungavam de três a cinco vezes ao ano, embora se confessassem com grande frequência.” 

Nesse tempo havia a confissão de obrigação e a de devoção, sendo que esta última era a mais frequente, por não implicar pecado grave. “Tinha por finalidade manter o estado de graça e alimentar a fé para que a confissão não fosse tão penosa”.

Hoje, tal como na antiguidade “acentua-se a intercessão da Igreja pelos pecadores. Quando alguém se confessa fá-lo em clima de oração, sabendo que todos os cristãos rezam pelos pecadores, sendo essa oração que nos leva à conversão e ao arrependimento.”

Finalmente, o Cónego Vitor falou do Concílio Vaticano II e do novo ritual da penitência, de 1973. “Este ritual situa a reconciliação entre o pecador e Deus no centro da história da salvação, acentua a dimensão do Mistério Pascal, a relação entre o Batismo, a Eucaristia e a Penitência e a Igreja é chamada a purificar-se continuamente, porque é feita de pecadores”, explicou.

Por outras palavras, “há uma real celebração da reconciliação, no seu aspeto comunitário e individual, dá-se um lugar central à Palavra de Deus, mesmo quando se trata de uma celebração individual do perdão e valoriza-se a oração dos penitentes e da assembleia e finalmente o ritual nota que toda a conversão, todo o arrependimento, é sempre animado pelo dom do Espírito Santo”.

O novo ritual propõe “três formas de celebração do sacramento da penitência”. A primeira é a “reconciliação individual”, a segunda é “a reconciliação de vários penitentes, com confissão e absolvição individuais” e a terceira “são as celebrações penitenciais com absolvição coletiva”, que guardam caráter extraordinário – em caso de guerras, de catástrofes, etc. – não podendo ser igualada às outras. 

Em qualquer dos casos, disse o orador para finalizar, o importante é que haja “um arrependimento interior com uma repercussão exterior”, que a confissão se faça diante de alguém, porque “a face de Deus é sempre pessoal”, e a minha relação com Deus também, ainda que inserida numa comunidade que é a Igreja. E, finalmente, que a confissão “traga um compromisso e a responsabilidade de uma conversão efetiva.”