Eutanásia III: a morte «é um momento da vida, o último»

Irmã Ângela Coelho | D.R.

A maior dor na morte é a solidão

Os pacientes querem «carinho, conforto e presença dos que amam, sem antecipar último momento da vida», diz a médica Irmã Ângela.

Ângela Coelho, religiosa da Aliança de Santa Maria e médica na Unidade de Cuidados Continuados, diz que “acompanhar um paciente no processo de morrer e na morte” não é fácil, mas “é um privilégio” fazê-lo. “É um privilégio poder libertar os doentes, da dor e da pior coisa no processo de morrer que é a solidão”.

 “Se o Estado e todos, proporcionassem os meios de conforto e carinho, a possibilidade de os utentes estarem próximos dos seus familiares, em contexto de domicílio, creio que o problema da eutanásia nem se colocaria”, sublinha.

Formada em Medicina há 25 anos, a Irmã Ângela Coelho sustenta que a sociedade transformou a morte em “tabu” e que a foi relegando para ambientes hospitalares.

Em ambiente familiar, a morte era encarada com muita naturalidade, era um momento da vida, ‘o último’, onde todos “participavam no processo de morrer”, com a pessoa “rodeada pelos que amava”, conferindo “um horizonte” à última etapa da vida. Hoje banimo-la e nem queremos pensar nela. 

“Os cuidados paliativos são recentes, e os profissionais que trabalham nestes cuidados devem sentir-se vocacionados. “Aceitando o momento da morte que chega, os doentes querem vivê-lo com dignidade. Quando têm o carinho, a ausência de dor, a presença dos que o amam, não querem antecipar a morte, querem vivê-la como o último momento da sua vida”, conclui a religiosa.

Empurrar para optar pela morte

O Grupo de Trabalho Inter-Religioso | Religiões-Saúde, com representantes de nove confissões religiosas em Portugal, assumiu, no dia 12 fevereiro, uma posição conjunta contra a despenalização da eutanásia.

“A possibilidade legal da morte assistida por eutanásia ou suicídio assistido equivale a empurrar para a opção pela morte”, assinala o comunicado.

“Acreditamos que a inviolabilidade da vida humana, e não apenas porque é dom de Deus, e a verdadeira compaixão como fundamento e norma da organização e funcionamento social das comunidades humanas, constituem dois dos mais importantes valores éticos e espirituais que as religiões que representamos ofereceram ao longo dos séculos à civilização de que somos herdeiros”, pode ler-se.

Os signatários são: Aliança Evangélica Portuguesa, Comunidade Hindu Portuguesa, Comunidade Islâmica de Lisboa, Comunidade Israelita de Lisboa, Igreja Católica, Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, União Budista Portuguesa e União Portuguesa dos Adventistas do Sétimo Dia.

“Os doentes acompanhados com competência não pedem para morrer”, sustenta o comunicado. A resposta ao sofrimento passa pelos cuidados paliativos, que o Estado “tem obrigatoriamente de oferecer em quantidade e qualidade, para fazer frente às necessidades neste domínio”.

“Só a universalização do direito a cuidados paliativos, que reúnem sabiamente o respeito pela inviolabilidade da vida humana, salvaguardará da pressão para optar por morrer os nossos irmãos fragilizados pela solidão”, referem.

A inviolabilidade da vida humana

Cinco associações profissionais católicas (juristas, empresários, enfermeiros, médicos e psicólogos) reafirmam num comunicado a oposição à ‘morte a pedido’ e criticam ‘a pressa’ na votação da legalização da eutanásia.

“A resposta à doença e ao sofrimento nunca pode ser a morte provocada. A eutanásia e o suicídio assistido são forma de desistir da luta pela vida, pois eliminam a vida da pessoa que sofre”, sublinham.

O documento é assinado pela Associação Católica dos Enfermeiros e Profissionais de Saúde, Associação dos Juristas Católicos, Associação dos Médicos Católicos Portugueses, Associação dos Psicólogos Católicos e Associação Católica de Empresários e Gestores, e refere que o “tão rápido agendamento parlamentar” da votação dos projetos de legalização da eutanásia revela “desconsideração dos instrumentos da democracia participativa”. 

Para as signatárias do documento, a proposta de legalização da eutanásia é uma “questão de relevante alcance civilizacional” porque “quebra” um princípio básico e alicerce da ordem jurídica portuguesa, que afirma a “proibição de matar” e a “inviolabilidade da vida humana”.

“Derrubado esse alicerce, todo o edifício da civilização e da ordem jurídica ameaçará ruir. Isso mesmo demonstra a prática dos países que seguiram tal via há mais tempo – Holanda e Bélgica – e, mais recentemente – o Canadá”, acrescenta o documento.

 “Para combater e aliviar o sofrimento, temos os cuidados paliativos, os quais devem ser acessíveis a todos os portugueses. Essa deverá ser a prioridade e a pressa dos que querem votar a legalização da eutanásia e do suicídio assistido”, afirmam.

A necessidade de referendo

A Federação Portuguesa pela Vida (FPV) reforçou a necessidade de um referendo à eutanásia. “Estamos a agendar todos os tramites necessários para que o povo se possa pronunciar sobre esta matéria” disse à Renascença, no dia 30 de janeiro, a presidente da FPV, Isilda Pegado.

A FPV condena, por outro lado, o agendamento da discussão dos projetos de lei para antes de serem conhecidos os pareceres da Ordem dos Médicos e do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida.

“É lamentável que projetos de lei que estão a aguardar parecer de órgãos tão importantes sejam agendados sem sequer se ouvir o parecer destas entidades. Eu penso que chegamos ao limite do estado de direito, isto é inqualificável num estado de direito”, remata Isilda Pegado.

Fonte: ECCLESIA