“2019 foi um ano de mártires”, afirma presidente internacional da Fundação AIS

Foto: AIS

O ano de 2019 foi dramático para os cristãos em várias regiões do mundo revelando uma preocupante escalada de violência contra esta comunidade religiosa. Na memória de todos estão ainda os ataques a três igrejas no Sri Lanka no domingo de Páscoa, que causaram mais de 250 mortos. Infelizmente, este não foi um caso isolado.

Para o Presidente Internacional da Fundação AIS, Thomas Heine-Geldern, “2019 foi um ano de mártires, um dos anos mais sangrentos da história dos cristãos”. E se os ataques que ocorreram no Sri Lanka se destacaram pela sua brutalidade, importa não esquecer o que se passou – e passa – noutras latitudes.

É o caso do continente africano. O presidente da AIS diz estar muito preocupado com a situação dos cristãos na Nigéria, palco – principalmente na região norte e ao longo da fronteira com os Camarões – de constantes ataques por grupos terroristas islâmicos, nomeadamente o Boko Haram. O sequestro, na semana passada, de quatro seminaristas no estado de Kaduna, é apenas o sinal mais recente dessa realidade.

Mas há semanas houve outros episódios demonstrativos também da violência generalizada contra a comunidade cristã. “Na véspera de Natal – recorda o presidente da Fundação AIS –, a vila cristã de Kwarangulum, no estado de Borno, foi atacada por jihadistas que mataram sete pessoas, sequestraram uma jovem e incendiaram casas e a igreja.” Horas depois, lembra ainda Thomas Heine-Geldern, “um outro grupo terrorista, com ligações ao Daesh, divulgou um vídeo” onde alegadamente “mostra a execução de dez cristãos e de um muçulmano” no nordeste da Nigéria. “Tudo isso nos entristece profundamente. Enquanto celebramos o Natal, outros choram e vivem aterrorizados.”

O continente africano revelou-se, de facto, dramático para a comunidade cristã no ano que agora terminou. O Burkina Faso foi também exemplo disso, com a expulsão de cristãos em algumas zonas do país, o encerramento de escolas e de igrejas. “Houve pelo menos – segundo as informações obtidas pela Fundação AIS – sete ataques a comunidades católicas e protestantes, nos quais 34 cristãos foram mortos, incluindo dois sacerdotes e dois pastores”, diz ainda o presidente da Ajuda à Igreja que Sofre. “Os nossos parceiros de projectos falam na tentativa de desestabilização do país, fomentando a conflitualidade entre religiões e promovendo a violência.”

Tal como em África, também na região do Médio Oriente são preocupantes os sinais para as comunidades cristãs. Heine-Geldern recorda as palavras do arcebispo de Erbil, D. Bashar Warda, que repetidamente tem chamado a atenção do mundo para a situação perigosa em que se encontram os cristãos no Iraque.

A invasão de vastas áreas do país pelos terroristas do Daesh, o auto-proclamado Estado Islâmico, em 2014, “foi apenas um dos muitos ataques” sofridos por esta comunidade religiosa. Anteriormente já se tinham verificado outros graves incidentes que tiveram como consequência, “a diminuição drástica” do número de cristãos neste país e também na vizinha Síria.

A escalada na crise no Líbano é também preocupante e está a agravar a já de si difícil situação dos cristãos neste país, além de que está a causar inúmeros obstáculos para a distribuição da imprescindível ajuda humanitária às populações mais carenciadas na Síria.

No entanto, nem todos os sinais são negativos. Para o presidente internacional da Fundação AIS, o aumento da atenção na opinião pública para as questões relacionadas com a liberdade religiosa é um aspecto positivo a destacar no balanço do ano de 2019.

“Na Europa Ocidental, políticos e líderes de opinião falam agora muito mais sobre liberdade religiosa”, constata Heine-Geldern, dando como exemplo a recente mensagem de Natal que o herdeiro do trono britânico fez questão de gravar especificamente para a Fundação AIS. Nessa mensagem, o Príncipe Carlos enfatizou o sofrimento crescente e a perseguição aos cristãos em todo o mundo, apelando por isso à generosidade de todos para com esta comunidade religiosa.

Aproveitando este primeiro balanço do ano de 2019, Heine-Geldern apelou uma vez mais às grandes organizações internacionais, como a União Europeia ou a ONU, para agirem na defesa da liberdade religiosa como um direito humano fundamental. “Muito pouco está ainda a ser feito”, reconhece este responsável pela Fundação AIS. “É difícil acreditar que num país como a França se tenham registado mais de 230 ataques contra organizações cristãs durante o ano passado”, disse, lembrando ainda os “chocantes” eventos no Chile, onde “40 igrejas foram profanadas e danificadas desde meados de Outubro”.

Neste balanço de 2019, o presidente internacional da Fundação AIS quis também destacar a solidariedade sem limites que tem permitido a ajuda concreta a milhares de famílias cristãs vítimas de perseguição e de violência.

A beleza do nosso trabalho é que, além da cruz e do sofrimento, também podemos experimentar de perto a grande dedicação e amor de muitas pessoas.” Heine-Geldern refere como exemplo a Síria, país em guerra que visitou por diversas vezes nos últimos anos. “É muito impressionante ver como todos – leigos, religiosas, padres e bispos, apoiados pela generosidade dos nossos benfeitores – estão a fazer todos os possíveis e impossíveis para aliviar a necessidade espiritual e material deste povo.”