Livro de D. Teodoro é “manual para as várias estações da alma” 

Foto: Duarte Gomes

Foi apresentado na passada sexta-feira, dia 6 de dezembro, no auditório do Centro de Estudos de História do Atlântico, o Livro ‘Recolhei os Fragmentos’, de D. Teodoro de Faria. 

A cerimónia contou, entre outras, com a presença de D. Nuno Brás e com muitos amigos do bispo emérito. A apresentação da obra, com edição da Lucerna, uma chancela da Princípia Editora, esteve a cargo de João Henrique Silva, diretor do Museu de Arte Sacra do Funchal (MASF), que se referiu à mesma como sendo “um testemunho de fé e de amor à Igreja, uma espécie de manual para as várias estações da alma”. 

Pelas 400 páginas deste primeiro volume, cuja leitura o diretor do MASF assumiu como um desafio que o deixou “inquieto”, estão ‘derramadas’ 150 das inúmeras crónicas que o autor publicou no suplemento “Pedras Vivas” do Jornal da Madeira. 

O livro está dividido em sete partes cujos títulos, diz João Henrique Silva, “evidenciam de alguma forma todo um programa catequético, em conexão com os grandes temas bíblicos ou a vida da Igreja”, explicou o diretor do MASF.

João Henrique Silva deixou ainda “alguns tópicos temáticos e características literárias que, na sua transversalidade a todos os capítulos, se podem instituir como vetores possíveis de leitura e de interpretação”. Assim enumerou, desde logo, o “assumir dos grandes temas bíblicos”, o tópico da peregrinação e o facto desta ser também uma obra catequética “sem ser proselitista” e que se assume igualmente como “um documento de grande relevância cultural, que atesta uma profunda e vasta erudição”.

Neste contexto, “podemos dizer que este é um livro para ser lido com um olhar de cultura e de fé semelhante àquele com que foi escrito. Todo ele é percorrido por referências muito concretas a geografias e a culturas, a factos históricos e a tradições religiosas, mas também por uma grande atenção ao pulsar dos tempos e aos desafios do presente, sobretudo naquilo que nos é mais próximo”.

Escolha da data propositada

Já D. Teodoro de Faria usou da palavra para, entre outros aspetos, explicar que a escolha do dia para a apresentação da obra foi propositada, porque a 6 de dezembro a Igreja assinala a festa de São Nicolau, e com ela se marca o arranque das festas natalícias em muitos países cristãos.

Quanto à obra, frisou que ela resultou da recolha dos seus escritos iniciados há 15 anos e do alerta que recebeu por parte de várias pessoas de que “seria conveniente retomar, em livro, alguns dos temas pastorais, bíblicos ecuménicos e espirituais, porque dispersos em jornais, ao longo dos anos, dificilmente poderiam ser consultados”.

Os temas foram agora retomados com um esquema predefinido, que começa com o Antigo Testamento, Novo Testamento, Mistério Pascal, Ano Paulino, etc. Mesmo assim, a escolha resultou num grande volume de publicações, pelo que a editora decidiu dividir a publicação em dois volumes, sendo este primeiro o maior. 

D. Teodoro de Faria aludiu ainda à capa da obra, onde figura uma imagem da “retirada da instituição da Eucaristia do retábulo da Sé do Funchal”. 

O bispo emérito lembrou ainda que a Evangelização é uma das missões confiadas aos apóstolos e à Igreja, sendo que compete aos bispos “uma responsabilidade especial”. Uma responsabilidade que, assegurou, também ele procurou cumprir, pese embora os cargos que foi assumindo ao longo de 34 anos, sempre sem esquecer as comunidades de emigrantes espalhadas pelo mundo. E mesmo assim, frisou, “nunca descurei o meu principal dever na Diocese do Funchal”.

Pequenos pedaços de sabedoria

À intervenção do autor seguiu-se a do atual bispo diocesano. D. Nuno Brás agradeceu ao bispo emérito por mais esta obra, e explicou que entende este “recolhe os fragmentos”, não necessariamente “como o recolher daquilo que resta, mas daqueles pequenos pedaços, eu diria de sabedoria bíblica e humana”.

O prelado leu depois duas frases citadas por D. Teodoro nesta obra. A primeira de Charles Péguy, é sobre a palavra de Deus e diz que “Deus não nos deu palavras mortas para fechar em caixinhas, pequenas ou grandes, e conservar em azeite rançoso como a múmias no Egipto”. De facto, prosseguiu “Deus não nos deu conservas de palavras para guardar, mas mandou-nos palavras vivas, para alimentar e nutrir” e isto, disse, “é o bonito desta obra: encontramos a palavra de Deus, mas a palavra de Deus para hoje. E isso é sabedoria”.

A segunda citação tem a ver com uma referência de D. Teodoro a dois irmãos, sacerdotes dominicanos. A quem põe em causa a sua vocação sacerdotal, os ditos irmãos respondem que não são parvos, nem visionários, mas apenas jovens que responderam a um convite de Deus. E acrescentam não ter nada a perder numa vida ao lado de Deus, temos tudo a ganhar. Este é, porventura, “o grande convite e a grande lição deste livro: não temos nada a perder numa vida ao lado de Deus”.

Outro dos oradores nesta sessão de apresentação foi Henrique Mota, da Editora Lucerna, que para além de agradecer o voto de confiança de D. Teodoro, aproveitou para anunciar que o próximo volume da obra deverá estar disponível em março de 2020.