Perseguição: «construir o perdão, superando o ódio»

D.R.

Situação complexa e grave

O Papa Francisco afirmou, na segunda-feira passada, que o fundamentalismo religioso é uma “praga” e que todos os crentes se devem comprometer numa atitude de diálogo e cooperação. E lembrou a declaração da “Fraternidade humana”, assinada em Abu Dhabi nos EAU, no dia 4 de fevereiro deste ano, onde se lê: “A intenção do documento é adotar a cultura do diálogo como caminho comum, a colaboração como conduta e o conhecimento recíproco como método e critério”. 

No entanto, a situação dos cristãos perseguidos no Médio Oriente deteriorou-se nos últimos anos em países como a Síria, Egito, Iraque, Turquia,… Com efeito, “em quase todos os países a situação dos cristãos vem piorando desde 2015, como consequência da violência e da opressão”. “A única exceção é a Arábia Saudita, onde a situação já era tão má que dificilmente conseguiria piorar mais. O Estado Islâmico provocou um êxodo de cristãos em massa. “No Iraque, o êxodo é tão grave que uma das Igrejas mais antigas do mundo está em vias de desaparecer. Na Síria verifica-se a mesma fuga de cristãos, que “ameaça a sobrevivência do Cristianismo em regiões, como Alepo, onde antigamente vivia uma das maiores comunidades cristãs de todo o Médio Oriente”.

O EI e outros grupos militantes islamitas “cometeram genocídio na Síria e no Iraque” e “os governos do Ocidente e a ONU” não “ofereceram aos cristãos em países como o Iraque e a Síria, a ajuda de emergência de que precisavam quando o genocídio começou”, destacando que foram as organizações cristãs a colmatar “essa lacuna”. A AIS identificou o “hiper-extremismo islâmico” como principal ameaça à liberdade religiosa. 

Terra Santa – Jerusalém

As decisões políticas internacionais intensificam o conflito na Terra Santa. Há três grupos de pessoas a viver no território: israelitas, palestinianos e cristãos. Para um judeu ou um muçulmano não há nenhum perigo encontrar-se com um cristão. 

Há palestinianos que pertencem a grupos fundamentalistas, mas também há muitos que recusam a violência. A maioria dos cristãos na Terra Santa são palestinianos. Assim, experimentamos a cooperação e a solidariedade, mas também a exclusão e a discriminação. Há liberdade de culto: os cristãos podem celebrar e organizar a sua vida comunitária, mas não podem decidir livremente se querem ser cristãos.

Com a mudança da embaixada dos EUA para Jerusalém, aumentou a tensão entre Israel e os Territórios Palestinianos.

Em Jerusalém, a AIS financia os cursos inter-religiosos “Construir o perdão, superando o ódio” em que participam cristãos, judeus e muçulmanos. Muitos destes jovens aplicam o que aprendem na sua própria vida profissional. A religião converte-se assim num elemento de união.

O fundamentalismo religioso atira claramente os cristãos para a margem da sociedade. Os cristãos representam cerca de 1% da população. Mas a Igreja tem relações sólidas a nível mundial, pois aqui vêm milhões de cristãos peregrinos de todo o mundo. A Igreja tem uma forma cristã de viver neste país e procura construir pequenas pontes.

As visitas dos Papas têm sido pedras importantes colocadas no caminho da paz e do ecumenismo: o Papa Francisco deu continuidade ao famoso encontro entre o Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras em Jerusalém, em 1964, e foi um ponto decisivo e palpável na sua visita (em 2014) para a relação entre cristãos católicos e ortodoxos sobretudo a oração ecuménica na Igreja do Santo Sepulcro.

Diálogo e reconciliação 

O Papa Francisco apelou, a 27 outubro 2019, ao diálogo no Líbano: “Dirijo um pensamento especial ao querido povo libanês, em particular aos jovens que nos últimos dias fizeram sentir a sua voz perante os desafios e os problemas sociais e económicos do país. Exorto todos a procurar as soluções justas, no caminho do diálogo”. 

Que o Líbano “continue a ser um espaço de convivência pacífica e de respeito pela dignidade e liberdade de cada pessoa, em benefício de toda a região que sofre tanto”.

Convidou “as autoridades iraquianas a ouvir o grito da população, que pede uma vida digna e tranquila”. Pediu ao povo que procure “o caminho do diálogo e da reconciliação” para encontrar “soluções justas para os problemas do país”, que sofreu atrozmente nos últimos anos de guerra. Contam-se centenas de mortos entre os manifestantes.

 A Igreja Católica está preparando a beatificação de 48 católicos assassinados por terroristas a 31 de outubro de 2010, na igreja sírio-católica de Bagdad.

A Irmã portuguesa Maria Lúcia Ferreira – Myri – como é conhecida, referiu que as tropas  turcas “entraram na região de Hassaké e isso pode ter consequências muito graves”. A cidade síria tem uma “histórica comunidade cristã”.

O arcebispo católico de Erbil, no Iraque, D. Bashar Warda, manifestou a sua preocupação com os “refugiados e deslocados de todas as religiões” que fogem da violência; a intervenção militar da Turquia no nordeste da Síria afetou “muitas famílias cristãs”. Segundo a ONU, mais de 130 mil pessoas deixaram as casas desde 9 outubro deste ano.