Pobres: o amor fraterno restaura família humana

Missa presidida pelo Papa Francisco no XXXIII Domingo do Tempo, Dia Mundial dos Pobres, Basílica de S. Pedro, Roma, 17.11.2019 | Foto: Vatican Media

Porteiros do Céu

 “Os pobres são preciosos aos olhos de Deus, porque não falam a linguagem do eu”, disse o Papa Francisco na homilia da Missa do III Dia Mundial dos Pobres, a que presidiu anteontem, na Basílica de São Pedro. Hoje somos seduzidos pela tentação do “eu” e do já e do “imediatamente”, porque somos egoístas e temos pressa. E não encontramos tempo para Deus e para o irmão que vive ao nosso lado”.

O cristão não é um discípulo do eu, mas do tu, e avança cada dia com os olhos fixos naquilo que não passa: o Senhor e o próximo.

 “ A linguagem do amor é a do “tu”. Não fala a linguagem de Jesus quem diz eu, mas quem sai do próprio eu. Quantas vezes, mesmo ao fazer o bem, reina a hipocrisia do eu: faço o bem, mas para ser considerado virtuoso; dou, mas para receber em troca; ajudo, mas para ganhar a amizade daquela pessoa importante. Isto é falar a linguagem do eu”, disse o Papa.

Recordando a todos como servir, o Papa disse “Os pobres … não falam a linguagem do eu: não se aguentam sozinhos, com as próprias forças, precisam de quem os tome pela mão”. (…) Como seria bom se os pobres ocupassem no nosso coração o lugar que têm no coração de Deus!”  

Finalizou sua homilia: “Os pobres facilitam-nos o acesso ao Céu: é por isso que o sentido da fé do povo de Deus os viu como os porteiros do Céu. 

Criados para o amor fraterno

São Tomás de Aquino ensinava que as obras de amor ao próximo são a manifestação mais perfeita da graça do Espírito: «O elemento principal da Nova Lei é a graça do Espírito Santo, que se manifesta através da fé que opera pelo amor». E afirma que a misericórdia é a maior de todas as virtudes pois «compete-lhe debruçar-se sobre os outros e remediar as misérias alheias. (citado na Gaudium et Exsultate, 37)

Toda a vida de Jesus, a sua de maneira de tratar os pobres, os seus gestos, a sua coerência, a sua generosidade simples e quotidiana, falam à nossa vida.

Às vezes perdemos o entusiasmo pela missão, porque esquecemos que o Evangelho dá resposta às necessidades mais profundas das pessoas, porque todos fomos criados para a amizade com Jesus e para o amor fraterno.

Temos à disposição um tesouro de vida e de amor que é uma resposta que desce ao fundo do ser humano e pode sustentá-lo e elevá-lo. É a verdade que não passa de moda, porque é capaz de penetrar onde nada mais pode chegar. A nossa tristeza infinita só se cura com um amor infinito (GE, 265). 

“Gota de amor”

Na Venezuela, um país invejado pelas suas riquezas, morre-se à fome. Faltam bens de primeira necessidade. A inflação é galopante. O salário mínimo é uma miséria. Morre-se por falta de medicamentos. As lojas estão vazias. Os apagões agravam a vida sobretudo nas cidades. O futuro

é incerto. E isto progride assustadoramente desde que Nicolás Maduro subiu ao poder, em 2003.

A Igreja tem lançado inúmeras iniciativas de solidariedade que vão mitigando a fome e as necessidades das populações mais carenciadas. No meio deste caos, há pessoas que dão o melhor de si em favor dos mais necessitados. 

É o caso de Tony Pereira. Tem 51 anos e é cozinheiro. Trabalha na empresa portuguesa Teixeira Duarte, mas é ainda de volta dos tachos e panelas que mais gosta de estar. É um exemplo de solidariedade. É um ‘chef’ cristão ao serviço dos outros. Às 7 da manhã, apresenta-se na Teixeira Duarte. Mas três horas antes, ainda de noite, sai de casa e, na sua velha mota vai até à paróquia de San Sebastian, em Maiquetía, perto de Caracas.

Entra na igreja, agradece o dom da vida e vai para a cozinha. Com a falta crónica de bens alimentares, usa a imaginação para transformar o pouco em muito. Hoje, há frango e arroz. Como ontem… Tony faz contas de cabeça: “dez quilos de arroz e quatro galinhas…” Depois pensa nas cerca de 150 pessoas que vão aparecer ali, na paróquia, à hora de almoço. É um milagre conseguir distribuir um frango por 37 pessoas… Para muitos, essa refeição será tudo o que vão comer durante o dia. Esta cadeia de solidariedade, foi batizada como “gota de amor”. De facto, uma simples gota de amor revela-se ingrediente mais poderoso. A solidariedade, graças a pessoas que dão o melhor de si aos outros juntamente  com Tony, cria família, acalenta o amor fraterno.