Atravessar com Muro e sem muro

D.R.

A separação de pessoas por muros, entristece; a reunificação de pessoas, alegra. Separar combina com inferno; unir, com o céu. O derrube do muro de Berlim, há trinta anos, faz lembrar as experiências de o atravessar por três vezes. Na primeira vez passava-se de um para outro mundo. Foi no verão de 1972 depois de orientar dois retiros à beira do Reno, veio a oferta de visita a Berlim que prometia a visita do outro mundo. Hospedado mesmo ali ao lado, na rua Wilhelm, paredes meias com o local do Bunker do Hitler e do Checkpoint Charlie, deu para ver o muro de cima de um palanque e de atravessar em grupo turístico com controlo de “guerra”. Não levem jornais de cá, pode dar prisão. Tudo para fora do autocarro mesmo o guia. Só se vai com guia de lá. Os inquisidores rebuscam todo o autocarro mesmo por baixo dos assentos. Não podem levar moeda deste mundo. Deixem aqui e levem esta. Mais de uma hora em apertos da porta estreitíssima. Contudo gostei do ritual e no dia seguinte atravessei sozinho para ver como seria. O mesmo, mais apertado e sem visto no passaporte. A experiência forte marcou. No outro mundo, deu para visitar o famoso Museu de Berlim e a catedral católica com missa dominical. Enfim! Dois mundos separados por muro de vários metros, protegido por estacaria de aço, a leste, torres e soldados em alerta aqui e ali, e pista de tanques de vigilância. Guardava outro mundo, feito paraíso marxista e prisão. Os emigrantes portugueses visitados viviam no mundo livre.

Em 1989, derrubado, em festa e surpresa. Notícias de dois mundos num só. Em 2011 visita de dias chegou para um olhar de espanto aos vazios do muro. Havia cicatrizes e uns pedaços de crosta. No mesmo alojamento, ao lado do local do Bunker de Hitler, visitei, curioso, o Checkpoint Charlie, aberto, livre, seu museu, maior, a “Topologia do Terror”, às vítimas nazis e comunistas com cem metros de muro; Postdam Platz com marcas do muro, a Porta de Brandemburgo, escancarada e apinhada, o monumento de estelas de Eisenman às vítimas do holocausto. Na estação Norte, um memorial do Muro em antigo cemitério; e mais além Alexander Platz, a torre, a Igreja Mariakierch, os frescos fabulosos, desocultados, da Senhora da Misericórdia de manto protetor (6x6m) e da dança da morte (22m de c.). As imagens dos vestígios dos tempos dos horrores do muro e dos seus antecedentes, não se apagam facilmente. Os conteúdos do museu do terror insinuam que até Deus parece ter ficado em silêncio e espantado, deixando a liberdade aos homens para se castigarem uns aos outros, uns “bodes expiatórios” dos outros. São memórias de morte e terror de povos que podem tornar a acontecer, dizia um postal. A humanidade fica à espera de ressurreição. Só Deus ficou vivo, mas em silêncio.

“Muita gente pequena que em muitos pequenos lugares fazem muitas coisas pequenas, podem mudar o mundo”, Grafite nos remanescentes do muro de Berlim, 2016 | Foto: A.G.

Numa terceira visita a Berlim em 2016, em longo lanço do muro preservado, à beira do rio, foi possível tirar uma foto a uma das cenas ali pintadas que reproduzo. Pode ser lida com sentido de vida, de esperança e de ressurreição temporal e eterna da Humanidade; bálsamo de memória e vacinas de novas feridas europeias. Quem viveu mais pequeno que Jesus Cristo?