Pan-amazónia: indígenas assassinados em defesa da «terra-mãe»

D.R.

1. Foram mortos seis indígenas, na Colômbia, em menos de uma semana. O Conselho Regional Indígena do departamento de Cauca (CRIC) denunciou o assassínio de mais um membro daquela comunidade, no sábado – dia 3 de novembro – o sexto. A vítima foi Alexander Vitonas Casamachin, de 18 anos, informou. Cauca vive uma onda de violência devido à presença de grupos armados ilegais, como dissidentes das Farc, do ELN e grupos de traficantes.

Em 29/10, estes grupos já tinham assassinado cinco indígenas. Estes assassinatos causaram indignação em todo o país e geraram críticas ao governo, acusado de inação na região, onde os indígenas dizem estar a ser vítimas de um “genocídio”.

O ataque teve como alvo a Guarda Indígena, grupo de vigilância e controle. De acordo com um relatório da ONG de direitos humanos ‘Somos Defensores’, entre janeiro e junho deste ano foram assassinados 59 indígenas neste país sul-americano, 10 deles no mesmo departamento. Desde o início do governo do presidente Iván Duque, em agosto 2018, foram assassinados pelo menos 125 nas comunidades nativas.

O presidente reuniu em 30 de outubro, com um conselho de segurança nas imediações do território onde ocorreram as mortes. Anunciou enviar 2.500 soldados para combater os dissidentes e acabar com a violência na região. A missão, segundo Duque, será tomar o controle territorial. “O narcotráfico é o combustível da violência. Sempre foi inimigo da prosperidade, da convivência, e nós, colombianos, temos de enfrentá-lo todos juntos”, disse.

As comunidades indígenas afirmam: “Esta é a nossa casa, e de nossa casa nós não vamos sair […] Vamos permanecer mesmo se tivermos de morrer”.

Foi convocada uma mobilização nacional de repúdio à violência contra os indígenas, numa marcha que vai decorrer no dia 21 de novembro, com manifestações contra o governo. 

A comunidade indígena na Colômbia, com cerca de 1,9 milhão de pessoas, representa 4,4% da população do país.

2. No Brasil, Paulo Paulino, militante indígena guajajara, foi abatido, juntamente com um companheiro, por um grupo de madeireiros, no dia 1 de novembro. Recebera várias ameaças de morte devido à sua militância na defesa da floresta amazónica. A polícia, informada das ameaças, não tomara qualquer medida para defesa dos ambientalistas.

As autoridades brasileiras confirmaram a morte dos dois militantes indígenas, na reserva de Arariboia, no Maranhão. A Associação de Povos Indígenas do Brasil (APIB) precisou que Paulino foi abatido com um tiro na cabeça. Além do companheiro morto, um outro foi ferido e hospitalizado.

Faziam parte do grupo “Guardas da floresta”, que tomou nas suas mãos a defesa da Amazónia contra as expedições ilegais de madeireiros ou de incendiários, que têm devastado com particular intensidade em Arariboia. Foram mortos pois seu trabalho incomodava os que queriam pilhar o território.

O grupo foi criado em 2012, perante a passividade das autoridades, que fechavam os olhos à recorrente atividade das várias empresas desflorestadoras. 

3. O Papa Francisco, na homilia da Missa de encerramento do Sínodo para a Amazónia, em 27 outubro, no Vaticano disse que a Igreja Católica tem de ouvir o “grito dos pobres”. “Quantas vezes, mesmo na Igreja, as vozes dos pobres não são escutadas, acabando talvez silenciadas, porque incómodas. Saibamos escutar o grito dos pobres: é o grito de esperança da Igreja”, declarou.

Após três semanas de trabalhos, acompanhadas por críticas de diversos setores, no interior da Igreja Católica, Francisco questionou quem “levanta muros” perante os excluídos e os necessitados, “ aumenta as distâncias”. E ainda quem “os considera atrasados, despreza as suas tradições, ocupa os seus territórios e usurpa os seus bens. Quanta opressão e exploração”, denunciou.

Os erros do passado não foram suficientes para deixarmos de saquear os outros e causar ferimentos aos nossos irmãos e à nossa irmã terra: vimo-lo no rosto despedaçado da Amazónia. 

4. Uma voz, a voz de Yasica, que veio do Peru ao Sínodo, como auditora, lamentou “os assassinatos” e disse: “os indígenas esperam deste Sínodo maior ‘consciência humana’ para começar a usar recursos renováveis ​​sem colocar em risco a humanidade e a casa comum”.

Os membros dos grupos de trabalho em português alertaram para a “violência” na região pan-amazónica, um “flagelo” generalizado, com “a violência institucionalizada e omissão do Estado”, na violação dos direitos dos povos primitivos, “assassinato dos defensores dos territórios”.