O santo da porta ao lado

D.R.

Temos, por vezes, a sensação de que já não existem santos. Que eles viveram num tempo passado, quase mitológico. E que, neste nosso tempo, são tão grandes os ataques e as dificuldades que se levantam à vida cristã que a santidade se torna impossível.

Contudo, ao longo da minha vida sacerdotal (já lá vão quase 33 anos) deparei-me algumas vezes com a percepção de que aquela pessoa com quem falava ou de quem escutava a confissão, era um santo. Não foram muitas as vezes, mas já foram algumas. 

Posso estar, obviamente, enganado: o meu juízo, graças a Deus, não é critério da santidade de ninguém. Mas o facto é que, nessas vezes, me deparei com o sentimento de estar diante de uma concretização exemplar da vida cristã. Escutar aquele cristão era como escutar a Jesus.

Como gosta de dizer o Papa Francisco, o santo é a concretização hoje de um dos muitos aspectos do Evangelho. Quando estamos perto destes santos do nosso tempo, parece que Jesus se faz vida, se torna presente neste nosso mundo — aliás: não parece, é essa a realidade.

Os santos não são gente fora do comum; nem gente sem problemas ou sem pecados; muitas vezes nem sequer são particularmente religiosos. E, no entanto, percebe-se que a graça de Deus trabalha naquele cristão de um modo único. É, talvez, o “santo da porta ao lado” (como diz o Papa) — aquele que hoje partilha connosco a vida, ou aquele que já faleceu mas que tivemos a graça de conhecer. 

De qualquer modo, são eles, os santos, a honra, o orgulho, os grandes exemplos da nossa humanidade.