Europa: valores humanos e cristãos sonho dos fundadores

D.R.

Identidade europeia exige diálogo

No passado dia 11 de outubro 2019, o jornal italiano “Stampa” publicou uma entrevista concedida pelo Papa Francisco a Domenico Agasso, especialista em assuntos do Vaticano, e coordenador do “Vatican Insider”. O tema principal foi a Europa. O Papa disse: A Europa deve ser salva porque é um património que “não pode nem deve dissolver-se”. 

A esperança é que a Europa volte a ser a do “sonho dos pais fundadores”, numa visão concretizada pela implementação da unidade histórica e cultural, que caracteriza o Velho Continente. O Papa Francisco, espera que a nomeação de uma mulher, Ursula von der Leyen, como chefe da Comissão Europeia, “possa ser adequada para reavivar a força dos pais fundadores”, porque “as mulheres têm a capacidade de aproximar e de unir”.

O principal desafio para relançar a Europa nasce do diálogo e da escuta. “Na União Europeia se deve falar, confrontar, conhecer”, afirma o Papa. “O ponto de partida e reinício são os valores humanos, juntamente com os valores cristãos: a Europa tem raízes humanas e cristãs, é a história que o diz. E quando digo isto, não separo católicos, ortodoxos e protestantes. Todos temos os mesmos valores fundamentais”.

O Papa explica: “… Todo o diálogo deve “partir de sua própria identidade”. Esta não se negoceia, mas se integra. A identidade, muitas vezes rejeitada. é uma riqueza – cultural, nacional, histórica, artística – e cada país tem a sua, mas deve ser integrada com o diálogo. Isto é decisivo: a partir da própria identidade abrir-se ao diálogo para receber algo maior da identidade dos outros”.

Soberanismos e populismos

Francisco mostra-se preocupado com o soberanismo: “É uma atitude de isolamento. Estou preocupado porque se ouvem discursos que se assemelham aos de Hitler em 1934. Nós primeiro… Nós… Estes são pensamentos assustadores. A soberania deve ser defendida, mas também devem ser protegidas e promovidas as relações com outros países, com a Comunidade Europeia. O diálogo e a escuta “a partir da própria identidade” e dos valores humanos e cristãos são o antídoto contra soberanismos e populismos”. 

O populismo é uma forma de impor uma atitude que conduz aos soberanismos e não deve ser confundido com o “popularismo” que é a cultura do povo e sua maneia de se expressar. Na mensagem aos participantes do recente encontro do CCEE, dos Bispos europeus, em Santiago de Compostela, o Papa alertou para o crescimento dos populismos.

“Os populismos alimentam-se de uma busca constante de contrastes, que não abrem o coração, pelo contrário, aprisionam-no entre muros sufocantes de ressentimentos”, escreveu. Santiago de Compostela “é um lugar altamente simbólico para redescobrir a grande riqueza da Europa unida na sua tradição religiosa e cultural”, acrescentou.

Os valores fundamentais da União Europeia

A União é fundamentada nos valores do respeito pela dignidade humana, liberdade, democracia, igualdade, no papel da lei e do respeito pelos direitos humanos, incluindo os direitos das pessoas que pertencem a minorias. Estes valores são comuns aos Estados membros numa sociedade em que o pluralismo, a não-discriminação, a tolerância, a justiça, a solidariedade e a igualdade entre homens e mulheres prevalecem. (artigo 2)

O objetivo da União é promover a paz, os seus valores e o bem-estar dos seus povos. (art. 3,1)

A União…combaterá a exclusão social e discriminação, e promoverá a justiça social e a proteção de forma igual para com mulheres e homens, a solidariedade entre as gerações e a proteção dos direitos das crianças. Promoverá a coesão económica, social e territorial e a solidariedade entre os Estados membros. Respeitará a sua riqueza cultural e diversidade linguística, e assegurará que a herança cultural europeia será salvaguardada e realçada. (art. 3,3)

Nas suas relações com o mundo em geral, a União apoiará e promoverá os seus valores e interesses e contribuirá para a proteção dos seus cidadãos. Contribuirá para a paz, a segurança, a sustentabilidade e desenvolvimento da Terra, a solidariedade e o respeito mútuo entre os povos, o comércio livre e justo, a erradicação da pobreza e a proteção dos direitos humanos, (…) incluindo o respeito pelos princípios da Carta das Nações Unidas. (art. 3,5)

Unidos por um futuro melhor

Foi o 1º ministro inglês Winston Churchill quem disse a célebre frase: ”a democracia é o pior dos regimes, à exceção de todos os outros”, citou D. Nuno Brás, bispo do Funchal.

E continuou: “A democracia na nossa Ilha da Madeira foi marcada por três atos eleitorais: eleições para o Parlamento Europeu, Eleições Regionais, Eleições Legislativas nacionais. Com estas eleições, vieram igualmente as campanhas: passámos estes últimos meses com a instabilidade que isso traz consigo: foram apontados os defeitos dos candidatos dos outros partidos; foram exaltadas as qualidades dos membros do nosso partido, qualquer que ele seja… ”.

Terminámos o ciclo eleitoral que a vida da democracia nos exigiu. Poderíamos agora pensar em cruzar os braços e descansar. Mas creio que a democracia e a própria vida de cada um e da nossa ilha nos pede outra atitude, nos pede que não descansemos”.

Pede que nunca nos alheemos da vida de todos e de cada um. Agora, vamos todos unidos construir um futuro que seja melhor.